Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) e os agonistas duais dos receptores de polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e GLP-1 reduzem o apetite, a ingestão energética e o peso corporal, além de produzirem efeitos gastrointestinais que podem modificar o padrão alimentar durante o tratamento.1 A redução persistente da ingestão, a menor variedade da dieta, as náuseas, os vômitos e a perda rápida de peso podem aumentar a vulnerabilidade a deficiências nutricionais em pacientes predispostos.1,2
Vitamina B12 e metabolismo
A vitamina B12, ou cobalamina, atua como cofator em reações relacionadas à síntese de DNA, à hematopoese e à manutenção da integridade neurológica.3 Suas formas intracelulares metabolicamente ativas são a adenosilcobalamina, envolvida na conversão do metilmalonil-CoA em succinil-CoA, e a mecobalamina, também denominada metilcobalamina, que participa da conversão da homocisteína em metionina.3
A absorção da vitamina B12 proveniente dos alimentos depende de sua liberação da matriz proteica no estômago, da ligação ao fator intrínseco e da captação do complexo pelos enterócitos do íleo terminal.3 Alterações da acidez gástrica, deficiência de fator intrínseco, doenças do íleo e procedimentos gastrointestinais podem comprometer esse processo.3
A deficiência pode causar anemia, fadiga, glossite, parestesias, alterações da propriocepção, distúrbios da marcha e comprometimento cognitivo.3 As manifestações neurológicas podem ocorrer sem anemia ou macrocitose e persistir quando o diagnóstico e o tratamento são tardios.3
Risco durante o uso de agonistas do receptor de GLP-1
A supressão do apetite pode reduzir a ingestão de alimentos de origem animal, como carnes, ovos e laticínios, que constituem as principais fontes alimentares de vitamina B12.2,3 Náuseas persistentes, vômitos, saciedade intensa e dietas muito restritivas podem acentuar essa redução, principalmente em pacientes com reservas previamente limitadas.1,2
Uma pequena coorte retrospectiva de pacientes com diabetes mellitus tipo 2 e obesidade tratados com semaglutida, após gastrectomia vertical, identificou redução das concentrações séricas de vitamina B12 após 12 meses.2 Já um relato de caso descreveu polirradiculopatia e deficiências de micronutrientes em um paciente com bypass gástrico prévio, tratado com semaglutida e submetido à redução endoscópica da anastomose gastrojejunal.4
O consenso europeu de 2026, sobre cuidados nutricionais durante o uso de terapias incretínicas, propõe avaliação nutricional orientada pelo risco durante o uso de terapias baseadas em incretinas.1 Hemograma, ferritina, estudos do ferro e vitamina B12 podem ser avaliados antes ou durante o tratamento quando houver manifestações de deficiência, intolerância gastrointestinal prolongada, ingestão muito reduzida, idade avançada, dieta restritiva, cirurgia metabólica prévia ou outra condição de vulnerabilidade nutricional.1
Identificação dos pacientes com maior risco
A avaliação deve incluir o padrão alimentar, a intensidade dos sintomas gastrointestinais, a velocidade da perda de peso, os antecedentes cirúrgicos e a presença de manifestações hematológicas ou neurológicas.1,3 Cirurgia bariátrica, anemia perniciosa, doenças inflamatórias intestinais, doença celíaca, ressecções gastrointestinais, idade avançada e dietas com pouca oferta de alimentos de origem animal são fatores associados à deficiência de vitamina B12.3
O uso concomitante de metformina deve ser investigado, pois o medicamento pode reduzir a absorção e as concentrações séricas de vitamina B12.2,3,5 O risco aumenta com a duração do tratamento e pode ser mais relevante em pacientes com anemia, neuropatia ou outros fatores predisponentes.3,5 A American Diabetes Association orienta considerar a avaliação periódica da vitamina B12 em pessoas que utilizam metformina de forma crônica, principalmente após quatro anos de tratamento ou diante de anemia e neuropatia periférica.5
Deficiência estabelecida e níveis limítrofes
Na investigação inicial, pode ser realizada dosagem sérica de vitamina B12, considerando o método e o intervalo de referência do laboratório.3 O consenso da Associação Brasileira de Nutrologia considera valores inferiores a 200 pg/mL indicativos de deficiência, concentrações entre 200 e 300 pg/mL como limítrofes e valores superiores a 300 pg/mL como habitualmente normais.3
Na presença de concentrações limítrofes, sintomas compatíveis ou discordância entre o resultado sérico e a suspeita clínica, a dosagem de ácido metilmalônico ou homocisteína pode contribuir para a avaliação.3 O ácido metilmalônico aumenta quando a atividade intracelular dependente de cobalamina está comprometida, mas também pode estar elevado na insuficiência renal. A homocisteína apresenta menor especificidade, pois sofre influência da deficiência de folato, da função renal, da função tireoidiana, da idade e de outros fatores.3
Tratamento da deficiência de vitamina B12
A reposição deve ser iniciada quando houver deficiência ou forte suspeita clínica acompanhada de manifestações neurológicas ou hematológicas.3 A formulação, a via de administração e a duração do tratamento devem ser individualizadas conforme a causa, a gravidade das manifestações, a possibilidade de má absorção e a adesão esperada.3A mecobalamina é uma forma metabolicamente ativa da vitamina B12 e atua como cofator da metionina sintase no citoplasma.3 O consenso brasileiro considera a via sublingual efetiva para corrigir e manter o estado nutricional da vitamina B12, inclusive em pacientes com condições associadas à redução da absorção digestiva.3 Um pequeno ensaio clínico citado pelo consenso brasileiro avaliou pessoas com diabetes mellitus tipo 2 em uso de metformina e concentrações reduzidas de vitamina B12. Nesse estudo, a mecobalamina sublingual na dose de 1.000 µg ao dia elevou as concentrações séricas de vitamina B12 após três meses de uso.3
Abordagem no consultório endocrinológico
Antes do início do agonista do receptor de GLP-1, a avaliação da vitamina B12 deve ser direcionada aos pacientes com fatores de risco ou manifestações clínicas compatíveis.1,2 Cirurgia bariátrica prévia, dieta restritiva, anemia, neuropatia, doença gastrointestinal, uso crônico de metformina ou supressores da acidez gástrica e histórico de deficiência justificam maior vigilância.1-3,5
Quando a reposição está indicada, a mecobalamina destaca-se como uma opção terapêutica eficaz: é uma forma metabolicamente ativa da vitamina B12 e sua administração sublingual oferece praticidade e favorece a adesão ao tratamento.3
Autoria

Ícaro Sampaio
Redator em Endopapers. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UFCG). Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE. Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE.
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