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Dermatologia11 maio 2026

Vitiligo: Revisão sistemática avaliou crenças interculturais e estigmatização 

Revisão buscou examinar a literatura sobre crenças interculturais, estigmatização e comorbidades psicológicas em indivíduos com vitiligo

O vitiligo é uma dermatose autoimune, crônica e inflamatória em que ocorre despigmentação da pele, com frequente associação com o sofrimento psicossocial. A doença carrega um fardo substancial influenciado por crenças culturais, estigma, sofrimento psicológico, impacto na qualidade de vida e acesso à educação médica. Desse modo, essa revisão teve como objetivo examinar a literatura sobre as crenças transculturais, estigma, comorbidades psicológicas e desfechos de qualidade de vida em indivíduos com vitiligo. 

Os autores do estudo realizaram uma busca sistemática nas bases PubMed, Embase e PsycINFO, incluindo estudos originais em inglês que abordassem aspectos culturais, psicossociais, psicológicos ou de qualidade de vida relacionados ao vitiligo. Foram incluídos 24 artigos, abrangendo diferentes populações e contextos geográficos.  

Impacto cultural e crenças transculturais no vitiligo 

A análise demonstrou que as interpretações sobre vitiligo variam amplamente entre culturas, sendo moldadas por tradições locais, valores religiosos, grau de letramento em saúde e acesso à educação dermatológica. Em algumas populações da Ásia Meridional, África e Oriente Médio, o vitiligo foi associado a causas sobrenaturais, punição divina, impureza espiritual, maldições ou contágios. Em contrapartida, populações com maior acesso à informação médica tenderam a reconhecer a doença de forma mais próxima ao modelo biomédico. 

Estigma, gênero e os desafios psicossociais 

Um dos pontos centrais da revisão é a forma como essas crenças modulam o estigma. O vitiligo foi associado a exclusão social, restrições nas relações familiares e comunitárias, dificuldades conjugais, barreiras matrimoniais, discriminação ocupacional e vergonha internalizada. Esses fatores foram mais relevantes em mulheres e indivíduos com fototipos mais altos em determinados contextos culturais. 

Em populações sul-asiáticas, por exemplo, o impacto sobre casamento e aceitação familiar apareceu de forma recorrente. Em populações africanas, foram relatadas experiências de exclusão e interpretações equivocadas da doença como condição contagiosa ou relacionada à hanseníase. Já em populações ocidentais, o estigma pareceu manifestar-se de maneira mais sutil, com ansiedade social, autoconsciência e estratégias de ocultamento. 

Vitiligo: Revisão sistemática avaliou crenças interculturais e estigmatização 

Imagem de freepik

Comorbidades psicológicas e sofrimento psíquico no vitiligo 

A revisão também evidenciou a associação do vitiligo com o sofrimento psíquico, com diversos estudos apontando maior frequência de depressão, ansiedade, baixa autoestima e prejuízo funcional nos pacientes. Em algumas populações, como pacientes indianos, a morbidade psiquiátrica foi observada em parcela significativa. 

Avaliação da qualidade de vida em diferentes populações 

Outro aspecto discutido no artigo é a qualidade de vida. Os dados evidenciaram impacto variável da doença entre as regiões, mas tende a ser mais expressivo em populações africanas, do Oriente Médio, da Malásia e da Índia Central, em comparação com coortes europeias e ocidentais. Essa diferença foi atribuída não somente devido à extensão ou localização das lesões, mas também às normas culturais, expectativas de gênero, cor da pele, crenças e acesso à informação. 

Leia também: Vitiligo e inibidores de JAK: O que devemos saber? 

Estratégias de enfrentamento e a importância do cuidado multidisciplinar 

Estratégias de enfrentamento também foram atravessadas pelo aspecto cultural. Muitos pacientes recorrem à ocultação das lesões, evitação social, apoio espiritual, oração, comunidades religiosas e uso de terapias complementares alternativas. Além disso, o artigo também cita uso de suplementos vitamínico, óleo de Nigella sativa, práticas ayurvédicas, medicina indígena, restrições alimentares e outras abordagens. Essas práticas refletem a coexistência e a substituição do cuidado dermatológico baseado em evidências por paradigmas terapêuticos culturais ou espirituais. 

Mensagem prática 

Essa revisão, portanto, reforçou que o vitiligo possui uma carga psicossocial global, mas que essa carga é amplificada ou modulada por crenças culturais, estigma, gênero, fototipo e acesso à educação em saúde. Os autores também defendem a necessidade de abordagens culturalmente adaptadas, com o cuidado dermatológico integrado ao suporte psicológico, educação comunitária e estratégias para redução do estigma da doença. Além disso, também destacou a importância de ampliar pesquisas em populações sub-representadas, especialmente na África Subsaariana, América Latina e Sudeste Asiático, a fim de construir modelos de cuidado mais equitativos e sensíveis às diferentes realidades socioculturais. 

Caso clínico: Manchas brancas e o papel da luz de Wood no diagnóstico

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

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