Este artigo revisa as evidências disponíveis sobre o risco de câncer em indivíduos transgênero e com diversidade de gênero (TGD) submetidos à terapia hormonal de afirmação de gênero (GAHT), além de propor recomendações práticas para rastreamento oncológico na Austrália e Nova Zelândia. Os autores destacam que o uso crescente de terapias hormonais tem levantado questionamentos sobre possíveis impactos na carcinogênese, especialmente em tecidos hormônio-dependentes, incluindo a pele. O objetivo principal foi sintetizar os dados atuais sobre risco de câncer e fornecer orientações baseadas em evidências para o acompanhamento clínico de pessoas trans.

Metodologia do estudo
A revisão foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA 2020. Foram realizadas buscas nas bases PubMed/Medline, Embase, Scopus e Cochrane Library, incluindo estudos publicados até março de 2026.
Foram considerados estudos epidemiológicos, revisões sistemáticas, relatos de caso, séries de casos e diretrizes clínicas envolvendo indivíduos TGD e a associação entre GAHT, risco de câncer e rastreamento oncológico. Após triagem e aplicação dos critérios de elegibilidade, 21 estudos foram incluídos na síntese qualitativa.
Resultados
Os resultados demonstraram que as evidências atualmente disponíveis não indicam aumento estatisticamente significativo na incidência dos cânceres mais comuns entre indivíduos TGD em uso de GAHT. Em relação ao câncer de pele, um grande estudo de coorte holandês com 3.880 participantes não identificou aumento significativo de melanoma ou carcinoma espinocelular. Resultados semelhantes foram observados em estudos norte-americanos.
Entretanto, o artigo cita relatos de caso recentes que documentaram situações inéditas, como carcinoma basocelular em neofalo construído cirurgicamente, sugerindo a necessidade de vigilância de tecidos neocriados durante procedimentos de afirmação de gênero.
Na discussão, os autores afirmam que o rastreio oncológico em indivíduos transgênero e com diversidade de gênero deve ser baseado nos órgãos presentes, e não na identidade de gênero ou no uso de hormonioterapia. Essa abordagem evita tanto o excesso quanto a insuficiência de rastreamento, sendo orientadas da seguinte forma:
Câncer de mama
Os autores indicam que o rastreio deve seguir as diretrizes populacionais vigentes. Mulheres trans devem ser consideradas para mamografia quando apresentam uso prolongado de estrogênio (geralmente maior ou igual a 5 anos) e estão na faixa etária recomendada para rastreamento. Homens trans que mantêm tecido mamário e não realizaram mastectomia devem seguir as recomendações habituais aplicáveis às pessoas designadas do sexo feminino ao nascimento.
Colo do útero
Os autores recomendam que toda pessoa com colo uterino deve participar dos programas de rastreamento cervical, independentemente da identidade de gênero ou do uso de terapia hormonal. Métodos de autocoleta para teste de HPV podem representar alternativa importante para aumentar a adesão ao rastreio entre homens trans e indivíduos não binários.
Próstata
Os autores destacam que não há recomendação para rastreio populacional universal. A decisão sobre a dosagem de PSA deve ser individualizada, baseada nos fatores de risco e discussão compartilhada com o paciente. Uma discussão individualizada sobre os riscos e benefícios do teste de PSA é, portanto, justificada para mulheres trans, especialmente aquelas com 50 anos ou mais, ou aquelas com 45 anos ou mais com fatores de risco adicionais.
Pele e áreas cirurgicamente modificadas
O exame dermatológico de corpo inteiro deve fazer parte do acompanhamento preventivo de todos os pacientes. Em indivíduos submetidos a cirurgias de afirmação de gênero, é recomendada avaliação cuidadosa de neofalos, neovaginas, áreas doadoras e receptores de enxertos cutâneos. Lesões suspeitas nesses locais devem ter indicação para biópsia, considerando que a história natural das neoplasias em neotecidos ainda é pouco conhecida.
Conclusão e mensagem prática
Os autores também enfatizam que as barreiras de acesso aos serviços de saúde resultam em menor adesão ao rastreamento e, consequentemente, em diagnósticos mais tardios nessa população. A criação de ambientes de atendimento culturalmente seguros e inclusivos é apontada como fundamental para melhorar a adesão aos programas de prevenção e detecção precoce do câncer e garantir resultados de saúde equitativos.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Editora médica da Afya. Formada pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além da atuação na Afya, também é preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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