A hidradenite supurativa (HS) é uma doença inflamatória crônica da unidade pilossebácea, caracterizada por nódulos dolorosos recorrentes, abscessos, trajetos fistulosos e cicatrizes, acometendo principalmente áreas ricas em glândulas apócrinas. O artigo em questão investiga a possível relação entre a deficiência de vitamina D e HS, partindo da observação frequente de níveis séricos reduzidos de vitamina D em pacientes com a doença e de correlações inversas entre esses níveis e a gravidade clínica.
Os autores realizaram uma revisão sistemática seguindo as diretrizes PRISMA e complementaram a análise com randomização mendeliana, buscando esclarecer se a hipovitaminose D teria papel causal na HS ou se representaria apenas um marcador associado ao estado inflamatório sistêmico.
Metodologia da revisão sistemática e perfil dos pacientes analisados
Nessa revisão, foram incluídos 12 estudos primários, totalizando 956 pacientes com HS. A maioria dos trabalhos era transversal, com predomínio de adultos, frequentemente mulheres, tabagistas, com IMC na faixa de obesidade e doença moderada a grave. Os níveis séricos de vitamina D foram considerados baixos nas coortes avaliadas, com média de 17,9 ng/ml. Apesar da heterogeneidade metodológica e da variação dos pontos de corte utilizados para definir deficiência ou insuficiência, os dados apontaram uma alta frequência de hipovitaminose D em pacientes com HS.

Associação entre níveis de vitamina D e gravidade da hidradenite supurativa
Os estudos observacionais analisados mostraram resultados parcialmente concordantes quanto à associação entre vitamina D e a atividade de doença. Alguns trabalhos identificaram correlação negativa significativa entre os níveis séricos de vitamina D e a gravidade da HS, o número de lesões ativas e os níveis de proteína C reativa, enquanto outros não confirmaram associação estatisticamente significativa. Além disso, estudos intervencionais relataram redução no número de nódulos, diminuição de surtos e melhora da resposta às terapias convencionais após suplementação da vitamina D por 6 meses.
Análise de randomização mendeliana e a questão da causalidade
Já a análise mendeliana, por sua vez, não demonstrou efeito causal linear detectável dos níveis geneticamente preditos de 25-hidroxivitamina D sobre o risco de HS. Portanto, o estudo sugere que a associação entre os baixos níveis de vitamina D e HS deve ser interpretada com cautela. Os autores interpretaram que a hipovitaminose D provavelmente funciona mais como um marcador do fenótipo inflamatório, da carga de comorbidades e de fatores compartilhados (obesidade, tabagismo e características metabólicas), do que como fator etiológico primário da HS. Ainda assim, o estudo reconheceu que essa análise não excluiu efeitos não lineares, dependentes de limiar, mediados ou contexto-específicos.
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Além disso, a vitamina D pode ter papel modulador em vias relevantes para a HS, incluindo o eixo IL-1β/Th17, a sinalização inflamatória, a imunidade inata, o ciclo folicular e a proliferação queratinocítica. As melhoras clínicas que foram observadas após suplementação reforçaram seu papel adjuvante, mas não estabeleceram causalidade.
Limitações do estudo e necessidade de novas evidências clínicas
As principais limitações desse estudo incluem a heterogeneidade entre os trabalhos, com diferenças nos métodos de dosagem da vitamina D, nos pontos de corte para definir a deficiência x insuficiência, no desenho dos estudos e na forma de apresentação dos resultados, o que impediu uma meta-análise formal. Além disso, a maioria dos estudos era observacional e transversal, com controle incompleto de fatores de confusão importantes, como IMC, tabagismo, exposição solar, etnia, comorbidades e uso de medicamentos. A análise de randomização mendeliana também apresentou limitações pois foi baseada em população europeia, não permitindo avaliar causalidade reversa e pode não captar relações não lineares, mediadas ou dependentes de contexto entre vitamina D e HS.
Desse modo, antes de incorporar a vitamina D como parte do tratamento da hidradenite supurativa (HS), são necessários estudos intervencionistas, que definam melhor sua utilidade, dose, formulação e interação com outras terapias.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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