A dermatite aguda por radiação (DAR) ocorre por exposição a raios beta, gama e X, resultando em uma reação inflamatória da pele e das mucosas. É um dos efeitos adversos mais frequentes da radioterapia (RT), afetando uma proporção substancial dos pacientes com câncer. Estudos indicam que até 95% dos pacientes que passam por RT desenvolvem algum tipo de DAR, principalmente no câncer de mama ou cabeça e pescoço. Esse efeito adverso prejudica significativamente a qualidade de vida dos pacientes e pode levar a interrupções no tratamento, comprometendo assim os resultados oncológicos.
A DAR normalmente se manifesta dentro de horas a semanas após o início da RT, apresentando-se como eritema, descamação seca ou úmida, úlcera e necrose. Sua fisiopatogenia envolve danos ao DNA em queratinócitos em rápida divisão, lesão microvascular e uma resposta inflamatória robusta, prejudicando a função da barreira cutânea.
Diversos agentes tópicos e curativos para prevenir e controlar a DAR já foram preconizados por diretrizes, porém a prática clínica permanece heterogênea devido à evidência limitada de alta qualidade e aos resultados inconsistentes dos estudos. Corticoides tópicos, ácido hialurônico, aloe vera e emolientes à base de ureia são comumente empregados, embora sua eficácia não esteja firmemente estabelecida. Já o papel dos hidratantes continua sendo controverso. Algumas diretrizes recomendam seu uso para manter a integridade da pele durante, enquanto outras não recomendam, sendo a maioria dos estudos com conclusões limitadas.
Os hidratantes funcionam principalmente reduzindo a perda de água transepidérmica. Ao ser aplicado na pele comprometida, os componentes lipídicos dos hidratantes criam uma camada protetora na superfície da pele. Esse processo não só apoia a regeneração da barreira cutânea, mas também alivia efetivamente o ressecamento e protege a pele de irritantes internos e externos, como ocorre na radiodermite.
Portanto, os autores propuseram essa revisão sistemática e meta-análise, que sintetizar evidências atualizadas de ensaios clínicos randomizados (ECRs) para avaliar a eficácia dos hidratantes na prevenção da DAR e na melhoria dos sintomas relacionados, fornecendo assim uma base mais clara para a prática clínica.
Metodologia
Essa revisão sistemática identificou 13 ensaios clínicos randomizados, totalizando 1.203 pacientes submetidos à radioterapia, com o objetivo de avaliar o impacto do uso de hidratantes na dermatite induzida por radiação. Os desfechos analisados incluíram a gravidade, prurido, qualidade de vida e teor de água da pele.
Os resultados demonstraram que o uso de hidratantes esteve associado a maior probabilidade de não desenvolvimento de dermatite induzida pela radiação, além de redução significativa da incidência de prurido e especialmente de prurido grave. No entanto, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto à qualidade de vida relacionada à pele e ao teor de hidratação cutânea.
Os autores demonstraram que o uso dos hidratantes está associado à redução da gravidade da radiodermite e do prurido, embora não tenha impactado significativamente outros desfechos, como qualidade de vida e teor de água da pele. Além disso, os resultados também sugerem que nem todos os tipos de hidratantes têm a mesma eficácia, já que os que apresentam formulações voltadas à reparação da barreira cutânea possuem resultados melhores do que aqueles de alto peso molecular.

Conclusão: hidratantes na dermatite aguda por radiação
Apesar dos achados favoráveis, os autores apontam que a evidência disponível ainda apresenta limitação relevante, com vieses como uso concomitante de corticoides, diferenças na adesão ao autocuidado e diversidade dos produtos utilizados, que podem interferir nos resultados.
Apesar dos vieses e fatores de confusão presentes nos 13 ensaios clínicos analisados, ainda assim o uso de hidratantes é considerado uma estratégia segura e fortemente recomendada no manejo da radiodermatite, devendo fazer parte dos cuidados básicos com a pele durante a radioterapia.
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Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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