A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória cutânea crônica, recidivante e prevalente, com impacto significativo na qualidade de vida, na saúde sexual, na vida profissional e em aspectos psicossociais dos pacientes. Em adultos, a prevalência da atinge o pico por volta da idade fértil de 25 a 44 anos, próxima ao período reprodutivo, o que torna relevante compreender suas repercussões sobre planejamento familiar, gestação e desfechos obstétricos.

Dermatite atópica na gravidez: A revisão sistemática
O objetivo desse trabalho foi avaliar a literatura disponível sobre reprodução em mulheres com dermatite atópica, com foco em preocupações relacionadas à gestação, desfechos durante o período gestacional, idade materna e número de filhos, além de desfechos adversos da gravidez e do nascimento.
A revisão foi conduzida conforme as recomendações PRISMA, com protocolo previamente registrado no PROSPERO. A busca bibliográfica foi realizada nas bases PUBMED e EMBASE até 19 de janeiro de 2026, utilizando termos relacionados à dermatite atópica, gravidez, fertilidade, número de filhos, idade ao primeiro parto, abortamento e complicações gestacionais, obstétricas e pós-parto. Foram incluídos estudos epidemiológicos e clínicos em humanos, publicados em inglês, enquanto relatos de caso e estudos voltados especificamente à exposição a tratamentos para dermatite atópica durante a gravidez foram excluídos.
Os autores incluíram 24 estudos heterogêneos, incluindo estudos transversais, coortes prospectivas e retrospectivas, estudos baseados em registros populacionais e estudos com ou sem grupos controle. No total, os estudos abrangeram mais de 7 milhões de indivíduos, incluindo 459.414 pessoas com dermatite atópica, provenientes de 12 países. Quatro estudos avaliaram preocupações relacionadas à reprodução, nove abordaram desafios e gravidade da doença durante a gestação, dois investigaram a ausência de filos e 11 examinaram desfechos adversos gestacionais e neonatais.
Três dos estudos sobre preocupações relacionadas à reprodução mostraram que mais de 50% dos pacientes com DA relatavam apreensão em relação à gravidez e ao planejamento familiar, especialmente medo de transmissão hereditária da doença, piora da DA durante a gestação, necessidade de suspensão terapêutica e potenciais efeitos teratogênicos dos tratamentos.
Leia também: Psoríase: melhorias cutâneas e sistêmicas após diferentes tratamentos biológicos
O que as evidências mostraram
Quanto aos desafios reprodutivos e à fertilidade, os resultados foram conflitantes, mas a maior parte das evidências não sustentou associação consistente entre DA e infertilidade. Um estudo israelense encontrou maior prevalência de infertilidade em adultos com dermatite atópica, enquanto estudos dinamarqueses observaram menor risco de adiamento da gestação, menor probabilidade de uso de tratamento para infertilidade e ausência de diferença quanto à reprodução assistida.
Em relação à evolução da DA durante a gestação, estudos retrospectivos antigos relataram piora em mais da metade das pacientes, enquanto estudo mais recente encontrou piora em proporção menor. Os autores ressaltam que esses achados devem ser interpretados com cautela, devido ao pequeno número de pacientes grávidas, viés de memória, dados autorreferidos e ausência de padronização na avaliação da gravidade da doença.
Complicações obstétricas e neonatais em mulheres com dermatite atópica
Em relação aos desfechos gestacionais e neonatais, os estudos apresentaram resultados heterogêneos e divergentes, sem demonstrar associação consistente com a DA materna e aumento global de complicações como parto prematuro, diabetes gestacional, baixo peso ao nascer ou natimortalidade. Embora alguns trabalhos tenham sugerido maior risco de pré-eclâmpsia, eclâmpsia, ruptura prematura de membranas, abortamento ou sepse neonatal, esses achados não foram confirmados de forma uniforme.
Conclusões sobre a revisão sistemática
Apesar das preocupações frequentes das pacientes em relação à gestação, à hereditariedade e ao tratamento, os autores consideram os dados disponíveis como tranquilizadores quanto à fertilidade e aos principais desfechos obstétricos e neonatais. Os autores destacam a necessidade de aconselhamento reprodutivo direcionado baseado em evidências para mulheres com DA, assim como estudos prospectivos que integrem a gravidade da doença, tratamento, intenções reprodutivas e desfechos mais objetivos na fertilidade e gestação.
Saiba mais: Associação de Líquen escleroso com doenças autoimunes
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.