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Ginecologia e Obstetrícia10 março 2026

Associação de Líquen escleroso com doenças autoimunes

Meta-análise avalia a relação entre líquen escleroso e doenças autoimunes cutâneas e sistêmicas, incluindo vitiligo e doença celíaca.

Um recente estudo foi publicado na revista BJOG: An International Journal of Obstetrics and Gynaecology, com o título “Associations of Lichen Sclerosus With Autoimmune Diseases: A Systematic Review and Meta-Analysis”, com o objetivo de avaliar de forma abrangente a associação entre o líquen escleroso e diferentes doenças autoimunes cutâneas e sistêmicas.  

O líquen escleroso é uma doença inflamatória mucocutânea crônica que acomete predominantemente a região anogenital, com maior frequência em mulheres, especialmente no período pós-menopausa. Clinicamente, pode cursar com prurido intenso, dor, dispareunia, alterações cicatriciais e, em casos avançados, risco de transformação maligna. Apesar de sua relevância clínica, a fisiopatologia permanece incompletamente esclarecida, sendo atribuída a múltiplos fatores, como predisposição genética, disfunção imunológica e alterações hormonais.  

Diversos estudos observacionais sugeriram coexistência entre líquen escleroso e doenças autoimunes, como vitiligo, alopecia areata e doenças tireoidianas. No entanto, a magnitude desse risco e a consistência dessas associações ainda eram incertas, o que motivou a realização desta revisão sistemática com meta-análise.  

Metodologia 

Esta revisão sistemática seguiu as diretrizes MOOSE para meta-análises de estudos observacionais e teve protocolo registrado na plataforma PROSPERO. Foram pesquisadas as bases MEDLINE, Embase e CENTRAL até janeiro de 2026, sem restrição de idioma. Foram incluídos estudos observacionais (caso-controle, coorte ou transversais) que compararam pacientes com líquen escleroso a indivíduos sem a doença e que apresentassem estimativas de risco para doenças autoimunes.  

A seleção dos estudos foi realizada de forma independente por revisores, com extração padronizada de dados referentes a país, idade, sexo, critérios diagnósticos e medidas de associação. O risco de viés foi avaliado por meio da escala Newcastle–Ottawa. Para desfechos com pelo menos três estudos disponíveis, foi conduzida meta-análise com modelo de efeitos aleatórios e cálculo de odds ratio agrupado com intervalo de confiança de 95%.  

A busca inicial identificou 2090 registros, dos quais 11 estudos preencheram os critérios de inclusão, provenientes de cinco países (Estados Unidos, Finlândia, Suécia, Reino Unido e Sérvia). As amostras incluíram desde estudos hospitalares até grandes bases populacionais, com idades médias entre 53 e 66 anos.  

Principais achados 

A análise demonstrou associação consistente entre líquen escleroso e diversas doenças autoimunes cutâneas. A associação mais forte foi observada com morfeia, com odds ratio de 33,33 (IC95% 7,07–157,07). Também foram observadas associações significativas com líquen plano (OR 6,30; IC95% 4,67–8,51), vitiligo (OR 4,28; IC95% 2,39–7,67), alopecia areata (OR 3,89; IC95% 2,14–7,06) e psoríase (OR 1,96; IC95% 1,13–3,39).  

Em relação às doenças autoimunes sistêmicas, observou-se aumento de risco para tireoidopatias autoimunes, com odds ratio de 1,97 (IC95% 1,35–2,88). Também houve associação significativa com doença celíaca (OR 1,29; IC95% 1,02–1,64) e doença de Crohn (OR 1,54; IC95% 1,19–1,98). Esses achados sugerem possível eixo imunológico comum envolvendo mucosa, pele e trato gastrointestinal.  

Por outro lado, não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre líquen escleroso e lúpus eritematoso sistêmico (OR 1,29; IC95% 0,85–1,95), diabetes tipo 1 (OR 0,86; IC95% 0,40–1,86), artrite reumatoide (OR 0,95; IC95% 0,55–1,66) ou retocolite ulcerativa (OR 0,99; IC95% 0,58–1,70). Os dados referentes a esclerose múltipla, miastenia gravis e síndrome de Sjögren foram inconsistentes ou insuficientes para conclusões definitivas.  

Conclusão 

Esta revisão sistemática com meta-análise demonstra que o líquen escleroso apresenta associação significativa com diversas doenças autoimunes, especialmente dermatológicas, tireoidianas e gastrointestinais. Os achados reforçam a importância de abordagem clínica multidisciplinar, rastreamento direcionado de comorbidades autoimunes e acompanhamento longitudinal desses pacientes. A identificação precoce dessas associações pode contribuir para melhor manejo clínico e prevenção de complicações.  

Autoria

Foto de Ênio Luis Damaso

Ênio Luis Damaso

Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).

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Referências bibliográficas

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