Em ensaio de fase 3 publicado no New England Journal of Medicine, a combinação islatravir-lenacapavir em comprimido único semanal manteve a supressão viral de forma não inferior ao esquema diário com bictegravir, entricitabina e tenofovir alafenamida em 48 semanas, em pessoas já virologicamente suprimidas.
O resultado é relevante, mas precisa ser lido no cenário em que foi testado: pacientes estáveis, previamente aderentes e sem histórico de falha virológica.
A terapia antirretroviral em comprimido único diário reorganizou o cuidado das pessoas vivendo com HIV-1, mas ainda depende de adesão sustentada para evitar falha terapêutica, transmissão e emergência de resistência.
Os autores situam o problema na fadiga do tratamento oral diário e na busca por regimes de ação prolongada que reduzam a carga terapêutica.
O ensaio, porém, não testou principalmente pacientes com baixa adesão; testou a segurança virológica de trocar um regime diário eficaz por um esquema semanal em pacientes já controlados.
Como foi o estudo ISLEND-1?
O ISLEND-1 foi um ensaio randomizado de fase 3, duplo-cego, com comparador ativo e desenho de não inferioridade, conduzido em 106 centros de 12 países.
Ao todo, 609 participantes foram randomizados; 607 receberam ao menos uma dose e entraram na análise primária.
Destes:
- 304 foram alocados para islatravir 2 mg com lenacapavir 300 mg em comprimido único semanal;
- 303 mantiveram bictegravir, entricitabina e tenofovir alafenamida diários.
Ambos os grupos receberam placebo correspondente ao esquema alternativo.
A elegibilidade exigia carga viral inferior a 50 cópias/mL por pelo menos seis meses durante uso prévio de bictegravir, entricitabina e tenofovir alafenamida.
Participantes com exposição prévia a islatravir ou lenacapavir, falha virológica anterior ou infecção ativa pelo vírus da hepatite B foram excluídos.
A mediana de idade foi de 49 anos, 20,6% tinham sexo feminino atribuído ao nascimento, 31,1% eram negros, 26,4% eram hispânicos ou latinos e 15,2% tinham 65 anos ou mais.
O desfecho primário foi a proporção de participantes com HIV-1 RNA ≥ 50 cópias/mL na semana 48, pelo algoritmo snapshot definido pelo FDA.
A margem de não inferioridade foi de 4 pontos percentuais.
O ensaio foi desenhado para demonstrar manutenção de eficácia dentro desse limite, não superioridade.
O comparador também importa. Bictegravir, entricitabina e tenofovir alafenamida não representam um regime diário frágil, mas um padrão recomendado em diretrizes, com alta eficácia virológica e alta barreira à resistência.
Demonstrar não inferioridade contra esse esquema torna o achado mais relevante do que seria contra um comparador menos robusto.
Quais foram os desfechos virológicos em 48 semanas?
Na semana 48, nenhum participante do grupo semanal e um participante do grupo diário, equivalente a 0,3%, apresentaram carga viral ≥ 50 cópias/mL.
A diferença foi de −0,3 ponto percentual, com IC 95,002% de −1,4 a 0,8, cumprindo o critério pré-especificado de não inferioridade.
A carga viral < 50 cópias/mL foi registrada em:
- 284 participantes, ou 93,4%, no grupo semanal;
- 280 participantes, ou 92,4%, no grupo diário.
A diferença foi de 1,0 ponto percentual, com IC 95,002% de −3,2 a 5,2.
Ausência de dados virológicos ocorreu em 6,6% e 7,3%, respectivamente.
Nenhum participante desenvolveu resistência a islatravir ou lenacapavir até a semana 48.
Entre os participantes do grupo semanal com mutação M184V/I na avaliação basal, 12 de 13, ou 92,3%, mantiveram carga viral < 50 cópias/mL, proporção semelhante à observada nos participantes sem essa mutação.
O que aconteceu com a contagem de CD4?
A segurança imunológica era uma questão relevante porque reduções dose-dependentes de linfócitos T CD4+ e de linfócitos totais haviam sido descritas anteriormente com doses diárias mais altas de islatravir.
Por isso, a estabilidade de CD4+ no ensaio não é detalhe laboratorial; é parte central da interpretação de segurança da dose semanal.
A média de linfócitos T CD4+ na avaliação basal foi de 739 células/µL no grupo semanal e 745 células/µL no grupo diário.
Na semana 48, as médias foram 725 e 722 células/µL.
A variação média foi de −10 células/µL com islatravir-lenacapavir e −18 células/µL com bictegravir, entricitabina e tenofovir alafenamida, com diferença de médias por mínimos quadrados de 12 células/µL e IC 95% de −16 a 39.
Também não houve redução relevante na contagem total de linfócitos, e nenhum participante interrompeu o tratamento por queda de CD4+ ou de linfócitos.
De acordo com os autores, esses achados sustentam a segurança da dose semanal de 2 mg de islatravir no esquema avaliado.
Qual foi o perfil de segurança?
Eventos adversos de qualquer grau ocorreram em:
- 241 participantes, ou 79,3%, no grupo semanal;
- 238 participantes, ou 78,5%, no grupo diário.
Eventos de grau 3 ou superior ocorreram em 22 participantes em cada grupo, correspondendo a 7,2% e 7,3%.
Eventos graves foram registrados em 16 participantes, ou 5,3%, no grupo semanal, e em 14, ou 4,6%, no grupo diário.
A descontinuação por evento adverso ocorreu em 6 participantes, ou 2,0%, e 5 participantes, ou 1,7%, respectivamente.
Não houve óbitos.
Anormalidades laboratoriais de grau 3 ou 4 ocorreram em 52 participantes, ou 17,2%, no grupo semanal, e em 72, ou 23,8%, no grupo diário.
A redução da depuração de creatinina foi menos frequente no grupo semanal: 4,0% versus 11,3%.
A leitura de segurança ainda é parcialmente limitada porque o ensaio permanece cego até a semana 96.
Para evitar desmascaramento funcional por eventos raros, alguns eventos de baixa frequência não foram atribuídos por grupo, incluindo um evento adverso grave relacionado ao tratamento e quatro descontinuações relacionadas ao tratamento.
A análise de 48 semanas, portanto, é tranquilizadora, mas não encerra a avaliação de segurança de longo prazo.
Por que hepatite B precisa ser excluída antes da troca?
A combinação islatravir-lenacapavir não tem atividade contra o vírus da hepatite B.
Por isso, participantes com infecção ativa pelo HBV foram excluídos, conduta alinhada às recomendações para regimes que não contêm tenofovir.
Esse ponto tem implicação prática direta.
Ao retirar tenofovir de um esquema antirretroviral, é necessário conhecer o status para hepatite B e considerar risco de aquisição ou reativação.
No ensaio, um participante não vacinado apresentou infecção incidente por HBV no dia 183, com antígeno de superfície positivo na semana 24, elevação de aminotransferases e bilirrubina, normalização posterior dos exames e interrupção do tratamento.
O episódio não invalida o achado principal, mas reforça que a troca para um regime sem atividade anti-HBV exige triagem e planejamento.
O estudo testou pacientes com baixa adesão?
O resultado mais importante para a prática talvez esteja na população incluída.
A adesão por contagem de comprimidos foi de 98,9% no grupo semanal e 95,8% no grupo diário.
A proporção com adesão de pelo menos 95% foi de 96,0% e 80,4%, respectivamente.
Esses números mostram que o regime semanal foi muito bem seguido no ensaio.
Mas também delimitam o alcance da conclusão.
Os participantes já estavam virologicamente suprimidos por pelo menos seis meses no esquema diário prévio, o que pressupõe adesão adequada antes da randomização.
Portanto, o estudo não testa diretamente a população em que a dificuldade de adesão é o principal problema clínico.
O benefício presumido de um regime oral semanal, isto é, reduzir barreiras para quem sofre com adesão diária, permanece plausível, mas não foi demonstrado nesse ensaio.
Além disso, ao contrário dos injetáveis de ação prolongada, um tratamento oral semanal não permite monitoramento direto da adesão por comparecimento à consulta de aplicação.
Pode ser mais conveniente para alguns pacientes, mas também pode exigir estratégias estruturadas de suporte.
O que o cegamento ainda impede de avaliar?
O desenho duplo-cego fortalece a validade interna e reduz viés na comparação de segurança.
Ao mesmo tempo, impede avaliar de forma clara a preferência dos participantes por administração semanal versus diária, porque todos receberam comprimidos diários e semanais, com placebo correspondente ao regime alternativo.
Os autores citam o ISLEND-2, ensaio aberto de fase 3, no qual a troca para islatravir-lenacapavir também foi não inferior, com supressão virológica mantida em 95,2% na semana 48.
Nesse tipo de desenho aberto, desfechos relatados pelo paciente e preferência de administração podem ser avaliados com maior naturalidade.
No ISLEND-1, porém, essa dimensão permanece limitada.
Também deve ser registrado que o estudo foi financiado por Gilead Sciences e Merck Sharp and Dohme, patrocinadores que desenvolveram o protocolo, coletaram os dados, monitoraram a condução do ensaio e realizaram as análises estatísticas.
Esse ponto não invalida os resultados, mas reforça a importância de leitura crítica e seguimento dos dados até a semana 96.
Mensagem prática
Em pessoas com HIV-1 virologicamente suprimido, a troca para islatravir com lenacapavir em comprimido único oral semanal manteve a supressão viral de forma não inferior ao esquema diário com bictegravir, entricitabina e tenofovir alafenamida em 48 semanas.
Não houve emergência de resistência a islatravir ou lenacapavir, nem redução relevante de CD4+ ou linfócitos totais com a dose semanal avaliada.
O dado utilizável é que reduzir a frequência de administração não custou controle virológico em pacientes estáveis, suprimidos e aderentes.
O que o estudo ainda não responde é se o regime semanal melhora adesão, persistência, qualidade de vida ou desfechos virológicos em pessoas com dificuldade real de adesão ao tratamento diário.
A mensagem proporcional é esta: o comprimido oral semanal representa uma alternativa promissora para simplificar o tratamento em pacientes já controlados e que preferem menor frequência de administração.
Ainda não deve ser interpretado como solução comprovada para baixa adesão, nem como evidência definitiva de segurança de longo prazo antes da conclusão do seguimento de 96 semanas.
Autoria

Bruno Anello Mottini Horlle
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Medicina de Emergência e Clinica Médica.
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