Na sessão de Atualizações em Endocrinologia do ACP 2026, em São Francisco, quatro estudos publicados no último ano concentraram a discussão sobre obesidade e diabetes tipo 2. Em comum, eles mostram o avanço das terapias incretínicas para além da redução isolada de glicose ou peso, com impacto potencial em desfechos cardiovasculares, tratamento da obesidade grave e manejo do diabetes de início precoce.

SELECT: benefício cardiovascular da semaglutida além da balança
A mensagem mais relevante do SELECT, destacada no material sobre semaglutida 2,4 mg, foi que a proteção cardiovascular em adultos com obesidade ou sobrepeso e doença cardiovascular estabelecida não parece depender apenas da magnitude da perda ponderal. A análise citada reforça redução de risco cardiovascular e de hospitalizações por causas cardiovasculares mesmo em indivíduos sem diabetes, o que amplia o papel clínico da semaglutida no tratamento da obesidade. Para o endocrinologista, o ponto prático é claro: em pacientes com obesidade e alto risco cardiovascular, a semaglutida deve ser encarada como intervenção de modificação prognóstica, e não apenas como estratégia para perda de peso.
SURPASS-PEDS: tirzepatida muda o patamar no diabetes tipo 2 juvenil
No SURPASS-PEDS, primeiro fase 3 com tirzepatida em jovens de 10 a 18 anos com diabetes tipo 2, a redução de HbA1c foi robusta em 30 semanas: -2,16% com 5 mg e -2,30% com 10 mg, contra +0,05% com placebo. Também chamam atenção as taxas de HbA1c <7% (84,2% e 91,5% com tirzepatida vs 34% com placebo) e a perda de peso, que chegou a -10,5% com 10 mg. Houve ainda melhora de glicemia de jejum, pressão arterial sistólica, lipídios e proteína C reativa, com manutenção do efeito até 52 semanas. O perfil de segurança foi predominantemente gastrointestinal, sem novos sinais relevantes. Em uma população com doença mais agressiva, rápida falência de célula beta e poucas opções terapêuticas, o estudo sugere que a tirzepatida pode antecipar controle metabólico intensivo e modificar a trajetória do diabetes tipo 2 de início juvenil.
STEP UP: semaglutida 7,2 mg amplia a potência terapêutica na obesidade
O STEP UP avaliou uma estratégia clinicamente muito plausível: aumentar a dose da semaglutida para pacientes que não atingem metas com 2,4 mg. Em 72 semanas, a semaglutida 7,2 mg produziu perda média de peso de -18,7%, superior à observada com 2,4 mg (-15,6%) e muito acima do placebo (-3,9%). Quase metade dos participantes alcançou perda ≥20%, e 31,2% atingiram ≥25%. Também houve melhora de circunferência da cintura, glicemia, HbA1c e triglicerídeos. Os eventos adversos foram majoritariamente gastrointestinais e previsíveis para a classe, embora mais frequentes na dose mais alta. Para a prática, o estudo indica que a intensificação posológica pode se tornar alternativa real para obesidade sem diabetes, sobretudo quando a resposta com 2,4 mg for insuficiente e a meta clínica exigir reduções ponderais mais expressivas.
SURMOUNT-5: comparação direta favorece a tirzepatida
O SURMOUNT-5 respondeu à pergunta que faltava na obesidade sem diabetes: qual incretina entrega mais perda de peso em comparação direta? Em 72 semanas, a tirzepatida foi superior à semaglutida, com redução média de peso de -20,2% versus -13,7%, além de maior redução de circunferência abdominal. As chances de atingir perdas ≥15%, ≥20% e ≥25% também foram consistentemente maiores com tirzepatida.
Os eventos adversos foram semelhantes entre os grupos, principalmente gastrointestinais, e a descontinuação foi discretamente menor com tirzepatida. O recado clínico é objetivo: quando a prioridade é maximizar perda ponderal, a tirzepatida passa a ocupar a posição de maior eficácia farmacológica disponível entre as opções comparadas, embora custo, acesso e ausência de desfechos cardiovasculares dedicados na obesidade devam continuar entrando na decisão terapêutica.
O que essas atualizações mudam na prática
Em conjunto, os estudos reforçam três tendências. Primeiro, a obesidade deve ser tratada com metas clínicas mais ambiciosas, porque reduções de 15% a 25% já são factíveis com tratamento farmacológico. Segundo, a escolha da incretina deve considerar fenótipo, risco cardiovascular, magnitude de perda de peso desejada e faixa etária. Terceiro, o campo deixou de discutir apenas controle metabólico substituto e passou a incorporar prognóstico, especialmente no caso da semaglutida com evidência cardiovascular e da tirzepatida com eficácia sem precedentes no peso corporal. Para quem não esteve no ACP 2026, a síntese é esta: a endocrinologia entrou definitivamente na era da terapia incretínica orientada por desfecho.
Autoria

Juliane Braziliano
Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE) Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Editora Médica de Endocrinologia do Portal Afya e Whitebook
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