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Clínica Médica17 abril 2026

ACP 2026: Inteligência artificial na medicina - entre precisão e risco de viés

Uso crítico da IA evita vieses, melhora decisões clínicas e preserva segurança e equidade no cuidado.

A incorporação da inteligência artificial na prática clínica avança rapidamente, mas não sem dilemas. Na sessão Artificial Intelligence: Ethics and Bias, apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, o foco esteve menos no desempenho das ferramentas e mais em um ponto crítico: como utilizá-las sem comprometer julgamento clínico, segurança e equidade no cuidado.

IA pode superar humanos — mas isso não resolve tudo

Sistemas diagnósticos e prognósticos baseados em inteligência artificial já demonstram desempenho superior ao humano em determinados cenários. Isso, por si só, cria um dilema prático: se a ferramenta é mais precisa, torna-se cada vez mais difícil justificar sua não utilização.

No entanto, a evolução desses sistemas também traz um problema estrutural. Como destacado na sessão, os dados usados para treinar novas gerações de algoritmos passam a ser derivados de decisões previamente influenciadas por inteligência artificial, criando um ciclo de retroalimentação capaz de consolidar erros e vieses ao longo do tempo.

Viés algorítmico não é exceção — é esperado

Um dos pontos centrais discutidos foi que o viés não representa um evento isolado, mas uma consequência direta dos dados utilizados no treinamento dos sistemas.

Modelos treinados com dados de prontuários eletrônicos, registros populacionais ou bases incompletas tendem a reproduzir desigualdades já existentes. Isso inclui diferenças raciais, socioeconômicas e de acesso ao cuidado.

Além disso, modelos de linguagem e sistemas generativos podem reforçar estereótipos ou simplificar identidades de forma inadequada, produzindo efeitos que ultrapassam o campo diagnóstico e alcançam também a comunicação e a experiência do paciente.

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Dependência da IA pode comprometer o julgamento clínico

Outro conceito relevante apresentado foi o de dependência epistêmica prejudicial. À medida que médicos passam a confiar cada vez mais nas recomendações dos sistemas, pode ocorrer perda progressiva da capacidade crítica de avaliar decisões em tempo real.

Na prática, isso significa que o clínico pode deixar de questionar resultados, especialmente quando não consegue compreender ou verificar a lógica interna do algoritmo. Esse fenômeno levanta preocupações éticas importantes, incluindo perda de autonomia profissional e enfraquecimento da responsabilidade moral na tomada de decisão.

Transparência e governança seguem como desafios centrais

A implementação ética da inteligência artificial depende de múltiplos fatores. Entre os principais estão a transparência dos algoritmos, a rastreabilidade das decisões, a proteção de dados e a clareza sobre o uso dessas ferramentas no cuidado ao paciente.

Diretrizes recentes reforçam que sistemas de IA devem complementar, e não substituir, o raciocínio clínico. Além disso, pacientes e profissionais precisam ser informados quando essas ferramentas estiverem sendo utilizadas, como forma de preservar confiança na relação médico-paciente.

O que muda na prática

A principal mudança não está na adoção da tecnologia em si, mas na forma como ela é incorporada à prática assistencial.

A inteligência artificial deve funcionar como ferramenta de apoio, mantendo o médico como responsável final pela decisão clínica. Isso exige postura ativa, senso crítico e compreensão das limitações dos sistemas.

Mais do que dominar a tecnologia, passa a ser essencial saber quando questioná-la.

Autoria

Foto de Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.

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