A hérnia diafragmática congênita permanece uma condição cirúrgica neonatal marcada por hipoplasia pulmonar, hipertensão pulmonar e defeitos diafragmáticos de gravidade variável. O reparo aberto foi historicamente considerado o padrão pela confiabilidade técnica, enquanto a cirurgia minimamente invasiva ganhou espaço, embora séries iniciais apontassem maior recorrência e exigissem seleção de pacientes mais cuidadosa.
Apesar dos avanços nos cuidados intensivos neonatais, no uso de ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea) e no manejo perioperatório, a hérnia diafragmática congênita ainda permanece associada a morbidade e mortalidade consideráveis.
A revisão sistemática e metanálise de Yamoto e colaboradores avaliou se os resultados do reparo toracoscópico mudaram ao longo do tempo. O objetivo foi comparar toracoscopia e cirurgia aberta, examinando especialmente recorrência, conversão e outros desfechos perioperatórios em diferentes eras de prática.
A cirurgia minimamente invasiva está em evolução
Os autores destacam que seleção de pacientes, estabilização neonatal, manejo anestésico e ventilatório, sutura toracoscópica e técnicas de fixação de patch evoluíram nas últimas décadas. Por isso, resultados obtidos na fase inicial de adoção da toracoscopia podem não representar a prática contemporânea, sobretudo em centros experientes e em pacientes selecionados.
Essa mudança de contexto motivou uma análise por eras, separando os estudos conforme o ponto médio do período de inclusão antes ou depois de 2015. O estudo também examinou a tendência temporal da recorrência e da conversão para cirurgia aberta para verificar se o amadurecimento técnico acompanhou melhora dos resultados.
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Como a metanálise compara as abordagens?
A busca sistemática incluiu Embase, MEDLINE/PubMed, Web of Science e Cochrane Library, com metodologia alinhada ao PRISMA 2020 e ao Cochrane Handbook. Foram incluídos 27 estudos comparativos, predominantemente coortes retrospectivas, com 9.396 pacientes submetidos a reparo toracoscópico ou aberto da hérnia diafragmática congênita.
A recorrência foi o desfecho primário. Entre os desfechos secundários estavam mortalidade, complicações gerais, obstrução do intestino delgado, hipertensão pulmonar, infecção pulmonar, deformidade da parede torácica, complicações neurológicas, tempo operatório, perda sanguínea, ventilação pós-operatória, permanência hospitalar, insuficiência respiratória, quilotórax e pneumotórax, além da conversão para cirurgia aberta. Modelos de efeitos aleatórios foram aplicados, o risco de viés foi avaliado pelo ROBINS-I e a certeza da evidência pelo GRADE; 21 estudos, com 9.086 pacientes, ficaram na era anterior a 2015 e seis, com 310 pacientes, na era posterior.
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A análise temporal redefine a recorrência
Na análise global, o reparo toracoscópico apresentou maior risco de recorrência que a cirurgia aberta, com razão de risco de 2,43 e intervalo de confiança de 95% entre 1,88 e 3,14. A heterogeneidade foi baixa, mas o padrão mudou quando os estudos foram analisados conforme a época em que os pacientes foram tratados.
Nos estudos anteriores a 2015, o risco relativo de recorrência foi 2,58, com intervalo de confiança de 95% entre 1,96 e 3,39. Na era posterior a 2015, a estimativa caiu para 1,43, com intervalo entre 0,81 e 2,54, embora a interação entre os subgrupos não tenha alcançado significância estatística.
A meta-regressão reforçou o sinal temporal. Cada avanço no ponto médio do período de estudo associou-se à redução do risco relativo de recorrência da toracoscopia em comparação com a cirurgia aberta, com coeficiente de menos 0,0745 e p de 0,0059, enquanto a heterogeneidade residual caiu a zero após o ajuste pelo período.
Outros resultados exigem interpretação cautelosa. Mortalidade e complicações globais foram menores no grupo toracoscópico, mas os autores atribuem esses achados provavelmente à seleção de pacientes mais estáveis; a toracoscopia também apresentou menor perda sanguínea e maior tempo operatório, sem redução estatisticamente significativa da internação na análise global.
Se houver defeitos complexos, a seleção de pacientes muda
A análise de conversão mostrou queda de 0,86 ponto percentual por ano, mas essa tendência não foi estatisticamente significativa. Os autores interpretam a redução observada ao longo do tempo como compatível com amadurecimento da seleção pré-operatória, da experiência cirúrgica e da decisão intraoperatória, sem tratar a conversão como falha quando a exposição, a ventilação ou o fechamento se tornam difíceis.
Para a prática clínica, a revisão não demonstra superioridade da toracoscopia. O reparo aberto permanece preferido em hérnias complexas, especialmente com defeitos grandes, herniação hepática, hipertensão pulmonar grave, necessidade de ECMO ou reconstrução complexa com patch; em neonatos estáveis com defeitos pequenos a moderados, a abordagem toracoscópica contemporânea pode alcançar recorrência próxima à cirurgia aberta em centros experientes.
A confiança nesses resultados é limitada pelo desenho observacional de todos os estudos, pelo risco de confusão e viés de seleção e pelo menor número de pacientes na era contemporânea. A certeza da evidência foi baixa para recorrência e muito baixa para mortalidade, complicações e a maioria dos desfechos secundários, além de o menor tempo de seguimento dos estudos recentes poder subestimar recorrências tardias.
Assim, a hérnia diafragmática congênita deve ser interpretada dentro do contexto técnico e temporal em que o reparo é realizado. A metanálise mostra que a desvantagem histórica de recorrência da toracoscopia diminuiu, mas a escolha entre reparo aberto e cirurgia minimamente invasiva continua dependente da seleção de pacientes, da complexidade anatômica e da experiência do centro.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Vanessa Nascimento
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), com residência médica em Cirurgia Geral pelo Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), residência médica em Cirurgia Pediátrica pelo Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ), Fellow em Cirurgia Oncológica Pediátrica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) e mestrado em Saúde Materno Infantil pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica. Além da Afya, também atua como Cirurgiã Pediátrica do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG)/Hospital Universitário Servidores do Estado (HUSE), Cirurgiã Pediátrica do Hospital Municipal Jesus (HMJ), professora de Cirurgia Pediátrica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e atende em consultório particular.
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