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Cirurgia17 agosto 2026

Tabagismo e câncer de cabeça e pescoço: entenda a associação

Entenda como o tabagismo aumenta o risco de câncer de cabeça e pescoço e afeta o tratamento, as complicações e o prognóstico.

O câncer de cabeça e pescoço (CCP) é o sexto tipo mais comum de câncer no mundo e pode ser devastador para o paciente, tanto pelo impacto da doença e do tratamento sobre a qualidade de vida quanto pelo prognóstico muitas vezes reservado. Por isso, a prevenção representa uma das principais estratégias para reduzir sua incidência. 

Os produtos derivados do tabaco estão fortemente associados aos tumores da cavidade oral, orofaringe, nasofaringe, laringe e hipofaringe. 

Os mecanismos pelos quais o tabaco promove a carcinogênese são amplamente conhecidos e apresentam impacto não apenas no desenvolvimento do câncer, mas também na resposta ao tratamento, na ocorrência de complicações e no risco de recorrência. 

Este artigo apresenta os principais achados de uma revisão histórica publicada em 2017 por pesquisadores da Universidade de Minnesota sobre a associação entre o tabagismo e o câncer de cabeça e pescoço. 

Como o consumo de tabaco se disseminou pelo mundo? 

Historicamente, o tabaco é originário do continente americano e teria surgido por volta de 6000 a.C. Evidências sugerem que seu consumo por seres humanos já ocorria próximo ao século I a.C., quando a planta podia ser encontrada em diferentes regiões das Américas. 

Em 1492, Cristóvão Colombo recebeu de povos nativos folhas de tabaco, descritas como “folhas secas de aroma pungente”, que teriam sido inicialmente descartadas. 

Posteriormente, no século XVI, o tabaco tornou-se um importante item comercial entre a América e a Europa, disseminando-se rapidamente por diferentes regiões do mundo. 

Quais fatores contribuíram para a popularização do cigarro? 

No início do século XX, existiam aproximadamente 300 mil marcas diferentes de cigarros. 

Diversos fatores impulsionaram seu consumo, incluindo: 

  • campanhas agressivas de marketing; 
  • forte atuação da indústria do tabaco; 
  • lobby econômico e político; 
  • falsificações e adulterações; 
  • redução dos preços; 
  • ampliação do acesso da população. 

Esses elementos contribuíram para a massificação do consumo de cigarros e de outros produtos derivados do tabaco. 

Quando os efeitos do tabagismo sobre a saúde pública foram reconhecidos? 

Por volta da década de 1950, os efeitos do tabagismo começaram a se tornar mais evidentes na saúde pública, especialmente pelo aumento expressivo da incidência de câncer de pulmão. 

Entre 1922 e 1947, as mortes provocadas por essa neoplasia aumentaram cerca de 15 vezes. 

A partir de 1950, os estudos conduzidos por Richard Doll e Austin Bradford Hill identificaram uma forte associação entre tabagismo e câncer de pulmão. 

Com o acúmulo de evidências, importantes sociedades médicas norte-americanas, como a American Cancer Society, a American Heart Association e a American Public Health Association, criaram, em 1961, uma comissão específica para investigar os crescentes problemas de saúde relacionados ao tabaco. 

Desde então, políticas públicas de controle do tabagismo ajudaram a conscientizar a população e a reduzir, em diferentes graus, o consumo desses produtos. 

Todas as formas de consumo de tabaco aumentam o risco de câncer? 

O teor de nicotina, a toxicidade e o potencial carcinogênico variam entre os diferentes produtos derivados do tabaco. 

Entretanto, estudos demonstram associação entre o desenvolvimento de neoplasias e diversas formas de consumo, incluindo: 

  • cigarros; 
  • charutos; 
  • cachimbos; 
  • narguilé; 
  • tabaco de mascar; 
  • gomas de tabaco; 
  • outros produtos sem fumaça. 

A combustão das folhas desidratadas produz diversas substâncias tóxicas e carcinogênicas. Contudo, produtos sem combustão também não são seguros. 

Cigarro eletrônico é uma alternativa segura ao cigarro convencional? 

Os cigarros eletrônicos podem transmitir uma falsa impressão de segurança. 

Embora não produzam a mesma fumaça decorrente da combustão do cigarro convencional, esses dispositivos expõem o usuário à nicotina e a outras substâncias potencialmente nocivas. 

Além disso, estudos que avaliam os efeitos de médio e longo prazo do uso de cigarros eletrônicos ainda estão em andamento. Portanto, esses produtos não devem ser considerados isentos de riscos. 

Quanto o tabagismo aumenta o risco de câncer de cabeça e pescoço? 

Estudos indicam que pessoas tabagistas apresentam risco aproximadamente 2,1 vezes maior de desenvolver câncer de cabeça e pescoço quando comparadas às pessoas que nunca fumaram. 

Algumas pesquisas sugerem que, após a cessação do tabagismo, o risco pode levar até 20 anos para se aproximar daquele observado entre pessoas não tabagistas. 

A relação entre tabagismo e câncer também apresenta efeito dose-resposta. Isso significa que a frequência do consumo, sua duração e o número acumulado de cigarros ao longo dos anos influenciam o risco de desenvolvimento da doença. 

Qual é o impacto da combinação entre tabaco e álcool? 

Pelo menos 75% dos casos de câncer de cabeça e pescoço registrados em países industrializados da Europa e nos Estados Unidos são atribuídos à combinação entre tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas. 

A associação entre álcool e tabaco apresenta efeito sinérgico: o risco decorrente da exposição combinada é maior do que a soma dos riscos quando cada fator está presente isoladamente. 

Essa interação foi demonstrada em diferentes estudos epidemiológicos. 

Entre tabagistas que não consomem álcool, estima-se que aproximadamente 24% dos casos de câncer poderiam ter sido evitados caso esses indivíduos não fumassem. 

Quais substâncias do cigarro estão relacionadas à carcinogênese? 

A fumaça do cigarro contém mais de 70 substâncias reconhecidamente carcinogênicas. 

Entre os compostos mais estudados estão: 

  • nitrosaminas específicas do tabaco; 
  • hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. 

Essas substâncias podem estar presentes tanto nos produtos combustíveis quanto nas formas de tabaco sem fumaça. 

Estudos experimentais demonstraram que a exposição às nitrosaminas específicas do tabaco pode induzir tumores de cabeça e pescoço. Os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos também foram associados ao aumento do risco dessas neoplasias. 

Por que nem todo tabagista desenvolve câncer? 

Nem todas as pessoas expostas ao tabaco desenvolverão câncer de cabeça e pescoço. 

Isso ocorre porque a carcinogênese resulta da interação entre a exposição aos agentes tóxicos e fatores individuais, como: 

  • suscetibilidade genética; 
  • capacidade de metabolizar e eliminar substâncias carcinogênicas; 
  • eficiência dos mecanismos de reparo do DNA; 
  • resposta imunológica; 
  • regulação da apoptose; 
  • intensidade e duração da exposição ao tabaco. 

Esses fatores ajudam a explicar por que indivíduos com níveis semelhantes de exposição podem apresentar desfechos diferentes. 

Quais alterações genéticas aumentam a suscetibilidade ao câncer? 

Polimorfismos e mutações em genes envolvidos na biotransformação de substâncias carcinogênicas podem aumentar o risco de desenvolvimento de câncer. 

Entre os genes e as vias potencialmente envolvidos estão: 

  • citocromos P450; 
  • glutationa S-transferase; 
  • aldeído desidrogenase; 
  • TP53; 
  • EGFR; 
  • PI3K; 
  • mTOR; 
  • NOTCH. 

Alterações nos genes responsáveis pelo reparo do DNA também podem comprometer a capacidade celular de corrigir danos provocados pelas substâncias presentes no tabaco. 

Como o tabaco provoca danos ao DNA? 

Um dos principais mecanismos moleculares da carcinogênese relacionada ao tabaco é a formação de adutos de DNA. 

Essas estruturas surgem quando substâncias carcinogênicas presentes no tabaco se ligam diretamente ao material genético das células. 

Quando esses danos não são corretamente reparados, podem ocorrer mutações permanentes capazes de: 

  • ativar oncogenes; 
  • inativar genes supressores tumorais; 
  • alterar a proliferação celular; 
  • comprometer os mecanismos de apoptose; 
  • favorecer o crescimento tumoral. 

O acúmulo dessas alterações contribui para o desenvolvimento e a progressão do câncer. 

Continuar fumando afeta o tratamento do câncer? 

O tabagismo também influencia negativamente a resposta ao tratamento do câncer de cabeça e pescoço. 

Evidências indicam que a manutenção do tabagismo durante a radioterapia está associada a: 

  • menor sobrevida global; 
  • pior controle locorregional da doença; 
  • redução da sobrevida livre de doença em cinco anos; 
  • maior risco de recorrência; 
  • aumento da toxicidade relacionada ao tratamento. 

Por esse motivo, a cessação do tabagismo deve ser abordada como parte integrante do tratamento oncológico. 

O tabagismo aumenta as complicações após a cirurgia? 

Fumantes atuais e ex-fumantes submetidos à cirurgia curativa podem apresentar risco até seis vezes maior de complicações pós-operatórias, além de maior tempo de internação hospitalar. 

Entre os mecanismos relacionados ao aumento das complicações estão: 

  • redução da oxigenação dos tecidos; 
  • vasoconstrição; 
  • trombose microvascular; 
  • prejuízo da cicatrização; 
  • aumento do risco de infecção; 
  • comprometimento da função pulmonar. 

Níveis elevados de cotinina, um metabólito da nicotina, mostraram-se melhores preditores de complicações do que o autorrelato de tabagismo feito pelos pacientes. 

Como abordar a cessação do tabagismo na prática clínica? 

A prevenção e a cessação do tabagismo devem fazer parte da rotina de atendimento de todos os profissionais de saúde. 

Pacientes que nunca fumaram devem ser orientados a não iniciar o consumo de cigarros, cigarros eletrônicos, narguilé ou qualquer outro produto derivado do tabaco. 

Para pacientes tabagistas, recomenda-se: 

  • explicar claramente os riscos relacionados ao consumo; 
  • avaliar o grau de dependência à nicotina; 
  • oferecer tratamento farmacológico quando indicado; 
  • associar intervenções comportamentais; 
  • acompanhar regularmente as tentativas de cessação; 
  • reforçar os benefícios de parar de fumar; 
  • evitar abordagens culpabilizadoras; 
  • retomar a orientação mesmo após tentativas malsucedidas. 

A recaída pode fazer parte do processo de cessação e não deve ser interpretada como falha definitiva. 

Quais sinais de câncer devem ser valorizados em pacientes tabagistas? 

Pessoas com histórico de tabagismo apresentam risco aumentado de câncer de cabeça e pescoço. Por isso, queixas persistentes devem ser avaliadas cuidadosamente. 

Entre os sinais e sintomas de alerta estão: 

  • ferida na boca que não cicatriza; 
  • rouquidão persistente; 
  • dificuldade ou dor para engolir; 
  • nódulo cervical; 
  • dor de garganta prolongada; 
  • sangramento oral sem causa aparente; 
  • perda de peso não intencional; 
  • dor de ouvido persistente; 
  • obstrução nasal unilateral; 
  • alteração na voz; 
  • lesões brancas ou avermelhadas na mucosa oral. 

A valorização desses achados favorece o diagnóstico precoce e a realização de intervenções em estágios potencialmente mais tratáveis. 

Mensagem para a prática clínica 

Todas as formas de consumo de tabaco estão associadas a riscos importantes para a saúde e podem contribuir para o desenvolvimento do câncer de cabeça e pescoço. 

A cessação do tabagismo deve ser incentivada mesmo após o diagnóstico da neoplasia, pois pode melhorar a resposta ao tratamento, reduzir complicações e favorecer o prognóstico. 

O profissional de saúde deve abordar o tabagismo de maneira ativa, oferecer tratamento e manter o acompanhamento do paciente ao longo do processo de cessação. 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Gustavo Borges Manta

Gustavo Borges Manta

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela FAMEMA, Cirurgião de Cabeça e Pescoço pelo HC-FMUSP e Pós-graduação em Cirurgia Robótica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Além do Afya atua como Cirurgião de Cabeça e Pescoço do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP HC-FMUSP), como Cirurgião Geral em Pronto Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein.

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Referências bibliográficas

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