O câncer de mama feminino é o mais frequente no Brasil, sem considerar os cânceres de pele não melanoma, de acordo com a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Para o triênio 2026–2028, o INCA estima no Brasil uma incidência anual de 78.610 novos diagnósticos de câncer de mama, o que corresponde a uma taxa bruta de 71,57 casos a cada 100 mil mulheres.
Ao longo dos anos, o tratamento do câncer de mama vem mudando paradigmas com o objetivo de melhorar o prognóstico das pacientes. Uma das frentes importantes no combate a essa doença é o Grupo de Trabalho em Cânceres Ginecológicos (Working Group on Gynecologic Cancers -AGO) do Comitê de Diretrizes da Alemanha. Anualmente a AGO publica atualizações no manejo do câncer de mama. Esse estudo aborda as principais recomendações da AGO em 2026.

Métodos
A atualização AGO 2026 segue o processo anual padronizado do painel do AGO Breast Committee, baseado em revisão estruturada e sistemática de evidências recentes, classificadas segundo o sistema de graduação AGO (AGO grading system).
Recomendações
Para doença em estágio inicial, a cirurgia up front, sem neoadjuvância, pode ser realizada por meio de cirurgia conservadora (seguido por radioterapia) ou mastectomia, com ou sem reconstrução imediata. A escolha entre essas opções é baseada na relação do tamanho do tumor e o tamanho da mama, na possibilidade de obter margens cirúrgicas livres, na preferência da paciente, no risco genético (por exemplo, mutação BRCA) e por eventuais contraindicações à radioterapia.
A principal mudança em relação à publicação de 2025 é a omissão da biópsia do linfonodo sentinela (SLNB) isolada como estadiamento preferido em pacientes com câncer de mama linfonodo-positivo (cN+) submetidas a quimioterapia neoadjuvante. As novas recomendações incluem:
- Dissecção axilar direcionada (targeted axillary dissection – TAD) é considerada o método de escolha em pacientes que convertem de cN+ para ycN0 após quimioterapia neoadviante [AGO ++].
- A pesquisa do linfonodo sentinela permanece como opção possível, mas com grau de recomendação menor [AGO +]. No entanto, a linfadenectomia axilar não é mais recomendada como padrão para o estadiamento axilar [AGO +/-].
- Após a quimioterapia adjuvante, a linfadenectomia axilar completa só é indicada quando há doença identificada no linfonodo sentinela.
- A linfadenectomia axilar é indicada para pacientes que permanecem com linfonodos clinicamente positivos após quimioterapia neoadjuvante [AGO +].
Essa atualização se soma às recomendações já incorporadas em 2025 (baseadas nos ensaios INSEMA e SOUND), que permitem omitir a pesquisa de linfonodo sentinela em pacientes de baixo risco (≥50 anos, pós-menopausa, RH+/HER2-negativo, G1-2, tumor ≤2 cm, axila clinicamente/ultrassonograficamente negativa) submetidas a cirurgia conservadora com radioterapia, e que já haviam abolido a linfadenectomia axilar de complementação em casos com 1-2 linfonodos sentinela macrometastáticos submetidos a mastectomia com radioterapia pós-operatória.
Ressalva a essas recomendações são para casos com 4 ou mais linfonodos clinicamente comprometidos na ocasião do diagnóstico. Nessas situações, o grau de recomendação para TAD em detrimento de outras técnicas como pesquisa de linfondos sentinela é menor [AGO +].
Outro ponto importante é que em pacientes com doença clinicamente negativa para linfonodos mas com linfonodo sentinela ou linfonodo alvo positivo (≥ypN1a), a linfadenectomia axilar é a modalidade de tratamento preferencial (AGO +).
Não houve mudanças na indicação da cirurgia nas recomendações de tratamento atualizadas da AGO 2026. Essa modalidade refere-se ao uso de técnicas de cirurgia plástica no momento da remoção do tumor, com o objetivo de melhorar os resultados estéticos e a qualidade de vida das pacientes, sem comprometer a segurança oncológica, com foco no posicionamento favorável da cicatriz, na formação adequada de tecidos moles, na seleção de uma técnica reconstrutiva apropriada (considerando a radioterapia) e na simetrização contralateral.
O que podemos levar para a prática?
As principais mudanças na atualização de 2026 das recomendações do Comitê de Mama da AGO foram direcionadas para a redução da extensão do tratamento cirúrgico nas axilas. As diretrizes apontam casos em que a omissão da biópsia do linfonodo sentinela pode ser realizada com segurança. Além disso, sugerem condutas menos invasivas, como a TAG em casos de regressão após quimioterapia neoadjuvante.
Vale notar que essas recomendações do AGO são específicas do contexto alemão, mas amplamente utilizadas como referência europeia e que podem influenciar o manejo do câncer de mama em nível mundial.
Autoria

Jader Ricco
Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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