A estimativa mundial de complicações cirúrgicas atinge um montante de 25% ou mais, o que aumenta a sobrecarga nos sistemas de saúde e prolonga o período de internação hospitalar. Grande parte dessa monta é influenciado pelo estado clínico pré-operatório e por fatores de risco modificáveis como limitação da capacidade física, tabagismo, diabetes não controlado, desnutrição e saúde mental afetada. Nesse contexto, a pré-reabilitação cirúrgica é uma estratégia que surge com o objetivo de promover a otimização pré-operatória, acelerando a recuperação após o trauma e mitigando os riscos associados a cirurgia. Vários estudos estão sendo realizados para avaliar os reais benefícios da pré-habilitação cirúrgica. Cascavita CT et al. publicaram em junho de 2026 uma avaliação dos resultados no pós-operatório da pré-habilitação cirúrgica com foco em nutrição e preparo físico.

Como a meta-análise avaliou exercício e nutrição antes da cirurgia
O presente estudo trata-se de uma revisão sistemática e metanálise, que foi realizada em conformidade com as diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Foram analisados 23 ensaios clínicos randomizados englobando um total de 2.182 pacientes.
Os autores definiram dois desfechos primários, sendo o primeiro o tempo de internação hospitalar e, o segundo desfecho primário, qualquer complicação pós-operatória ocorrida em um período de 12 semanas após a cirurgia. Os desfechos secundários foram definidos como resultados relatados pelos pacientes em relação a qualidade de vida, dor e saúde mental.
Pré-habilitação reduz complicações e tempo de internação após a cirurgia?
Dos 2.182 pacientes envolvidos nos ensaios clínicos avaliados, 1.082 (49,6%) foram submetidos pré-habilitação cirúrgica com nutrição ou exercícios físicos e 1.100 (50,4%) não realizaram pré-habilitação ou receberam placebo. Os procedimentos envolvidos nos 23 estudos foram artroplastia de joelho ou quadril (34,8%), cirurgia cardíaca (21,7%), cirurgia abdominal (21,7%) e cirurgia de coluna (8,7%).
A pré-habilitação baseada apenas em exercícios foi avaliada em ensaios que incluíram cirurgias ortopédicas (44,4%), abdominais (16,7%) e cardíacas (16,7%). Por outro lado, a pré-habilitação baseada unicamente em nutrição foi avaliada principalmente em participantes submetidos a cirurgias gastrointestinais e cardíacas.
A análise dos resultados revelou que a pré-habilitação baseada em exercício e nutrição, em conjunto, reduziu significativamente as complicações pós-operatórias (odds ratio 0,52; IC 95% 0,35–0,78; p < 0,002; I² = 47,1%) e o tempo de internação hospitalar (diferença média de -0,44 dias; IC 95% -0,78 a -0,11; p = 0,01; I² = 44,8%) em comparação com o tratamento padrão.
O estudo de Cascavita CT et al. também avaliou os efeitos isoladamente de nutrição e exercício físico. A nutrição isolada reduziu significativamente a permanência hospitalar (MD = -1.09 dias; IC 95%: -1.72 a -0.47; p < 0.001). No entanto, não houve redução estatisticamente significativa dessa modalidade em relação às complicações pré-operatórias (OR = 0.66; IC 95%: 0.34 a 1.28; p = 0.22).
Já a pré-habilitação baseada em exercício físico isoladamente demonstrou redução significativa das complicações pós-operatórias em 55,0% (OR = 0.45; IC 95%: 0.28 a 0.74; p < 0.002). Em relação ao tempo de internação, houve apenas uma tendência à redução, sem significância estatística isolada (MD = -0.21 dias; IC 95%: -0.51 a 0.09; p = 0.18).
Houve também melhora significativa da qualidade de vida nos escores pós-operatórios reportados pelos pacientes (SMD = 0.94; IC 95%: 0.24 a 1.64; p = 0.01). Por fim, a avaliação da dor e saúde mental demonstrou apenas tendências de melhora mas sem diferença estatisticamente significativa.
Esses resultados indicam que a pré-reabilitação baseada em nutrição reduziu o tempo de permanência hospitalar, mas não as complicações. Por outro lado, a pré-reabilitação baseada em exercícios reduziu as complicações, mas não o tempo de permanência hospitalar.
Ao comparar os resultados entre as duas modalidades de pré-habilitação do presente estudo, a intervenção nutricional foi superior ao exercício na redução do tempo de internação (MD -1.09 vs -0.21 dias; p = 0.01). Por outro lado, não houve diferença estatisticamente significativa entre nutrição e exercício na redução de complicações pós-operatórias (p = 0.36).
Uma das causas aventadas pelas diferenças dos resultados nas duas modalidades de pré-habilitação pode ser o tipo de cirurgia. A maioria dos programas de pré-reabilitação baseados em exercícios concentrou-se em cirurgias ortopédicas. Já os estudos baseados em nutrição envolveram predominantemente cirurgias gastrointestinais e cardíacas.
O que os resultados mostram sobre pré-habilitação antes da cirurgia?
A pré-habilitação baseada em nutrição e exercício físico apresenta resultados promissores no desfecho cirúrgico de pacientes submetidos a procedimentos de grande porte. Embora cada modalidade atue por vias complementares — com a nutrição impactando predominantemente o tempo de internação e o exercício a redução de complicações —, a associação dessas duas modalidades potencializa a recuperação perioperatória ao unir a alta precoce à menor morbidade.
Autoria

Jader Ricco
Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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