As cirurgias ortopédicas podem ser eletivas ou urgências e podem vir acompanhadas de dor moderada à intensa no pós-operatório.
O controle adequado da dor permite que o paciente sofra menos com atrofia muscular, fique menos tempo imobilizado e evolua mais rapidamente a sua reabilitação. O controle farmacológico geralmente é multimodal com os anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs) sendo um componente importante da analgesia.
Essas substâncias têm propriedades antipiréticas, analgésicas e anti-inflamatórias, porém também estão associadas a eventos adversos cardiovasculares, disfunção renal, úlceras gastrointestinais e sangramento perioperatório.
Diante disso, foi publicado recentemente na revista “Acta Anaesthesiologica Scandinavica” um estudo com o objetivo de avaliar os riscos de eventos adversos graves associados ao tratamento com AINEs em comparação com placebo, nenhuma intervenção ou tratamento padrão em pacientes submetidos a cirurgias ortopédicas.

Métodos
O estudo foi uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados (ECR) com pesquisa nos bancos de dados MEDLINE, EMBASE, CENTRAL, Web of Science e BIOSIS até outubro de 2025. Foram incluídos ECRs que compararam o tratamento sistêmico com AINEs em qualquer forma, dose ou duração versus placebo, tratamento usual ou nenhuma intervenção em pacientes adultos submetidos a cirurgia ortopédica de urgência ou eletiva.
Foram excluídos ensaios com pacientes submetidos a cirurgia da coluna vertebral. Estudos observacionais extensivos identificados durante a busca foram planejados para inclusão em uma descrição narrativa de eventos adversos graves raros e de longo prazo.
O desfecho principal estudado foi proporção de participantes com um ou mais eventos adversos graves. Como desfechos secundários tivemos infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, úlcera gastrointestinal, insuficiência renal e não consolidação ou retardo na consolidação óssea.
Principais achados
Foram incluídos 38 ensaios clínicos com 6593 pacientes para o desfecho primário e a maioria dos ensaios clínicos apresentou alto risco de viés. A metanálise não mostrou diferença estatisticamente significativa entre AINEs e placebo quanto ao risco de eventos adversos graves, RR 0,83; IC 95%, 0,61 a 1,14; p = 0,26; certeza da evidência muito baixa.
Análises de sensibilidade de regressão beta-binomial post hoc, incluindo ECRs com zero eventos, não indicaram diferença nos riscos de eventos adversos graves entre AINEs e placebo (OR 0,89; IC 95%, 0,76 a 1,06; p = 0,19). A Análise Sequencial de Ensaios mostrou que as informações obtidas foram insuficientes para confirmar ou rejeitar uma mudança de risco relativo de 25%.
Mensagem final
O estudo concluiu que em pacientes adultos submetidos a cirurgia ortopédica, não foram encontradas evidências de diferença entre AINEs e placebo em relação ao risco de eventos adversos graves. No entanto, os dados disponíveis foram insuficientes para tirar conclusões definitivas, e a certeza das evidências foi geralmente muito baixa.
Na prática, o uso dos AINEs costuma ser essencial para o controle da dor em pacientes ortopédicos servindo para diminuir a necessidade do uso de opioides. Entretanto, o tempo de uso prolongado costuma estar mais associado a efeitos não desejáveis. Da mesma forma, é preciso entender o paciente que fará uso da medicação evitando a prescrição a idosos com maior risco cardiovascular ou disfunção renal, por exemplo.
Autoria

Giovanni Vilardo Cerqueira Guedes
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2016. Ortopedista, Cirurgião de Mão e Microcirurgião formado pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO). Mestre em Ciências Aplicadas ao Sistema Musculoesquelético. Atua como Staff do serviço de Cirurgia de Mão do INTO e Professor Substituto de Cirurgia de Mão na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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