O câncer de pâncreas frequentemente ocorre em pacientes com múltiplas comorbidades, o que torna relevante quantificar a carga de doenças coexistentes ao avaliar o prognóstico. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 investigou se o Índice de Charlson, ou CCI, e sua versão ajustada por idade, o CACI, se associam à sobrevida em pacientes com câncer de pâncreas. O trabalho reuniu evidências observacionais para esclarecer resultados anteriormente conflitantes sobre o valor prognóstico desses escores.
O CCI atribui pesos a diferentes comorbidades e gera uma pontuação da carga global de doença; o CACI acrescenta pontos conforme a idade. O objetivo principal foi verificar a associação desses índices com a sobrevida global, além de explorar a mortalidade e outros desfechos.

Meta-análise reúne coortes observacionais em câncer de pâncreas
Os autores seguiram o PRISMA 2020 e registraram a revisão no PROSPERO. As buscas abrangeram Cochrane Library, Embase, PubMed e Web of Science até maio de 2025. Foram elegíveis coortes prospectivas ou retrospectivas com pacientes em qualquer estágio do câncer de pâncreas e avaliação do CCI ou CACI.
A sobrevida global foi o desfecho primário, e a mortalidade, o desfecho secundário. Sobrevida livre de progressão, sobrevida livre de recidiva, sobrevida livre de doença e recorrência foram avaliadas como desfechos exploratórios. Dois revisores realizaram a seleção, a extração e a avaliação da qualidade pela Newcastle-Ottawa Scale. A síntese utilizou modelos de efeitos aleatórios com hazard ratios e intervalos de confiança de 95%.
Foram incluídos 28 estudos com 548.660 participantes; 26 eram retrospectivos e dois, prospectivos, com idade média aproximada de 65 anos. Vinte e seis receberam classificação de alta qualidade e dois, de qualidade moderada. A maior parte avaliou adenocarcinoma ductal pancreático, com modalidades terapêuticas que incluíram principalmente cirurgia, além de quimioterapia e radioterapia.
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Como o CCI se relacionou à sobrevida global?
Nove estudos avaliaram o CCI categórico. Pontuações mais altas se associaram a pior sobrevida global, com HR de 1,26 (IC95% 1,09-1,47; p=0,002). A heterogeneidade foi substancial, com I² de 63,6%, e o intervalo de predição de 95% variou de 0,843 a 1,848, cruzando o valor nulo. Os autores, portanto, tratam o resultado como uma tendência global, e não como uma estimativa uniforme para todos os cenários.
Em três estudos com CCI contínuo, cada aumento de um ponto se associou a uma elevação de 14% no risco de mortalidade, com HR de 1,14 (IC95% 1,05-1,24; p=0,001). A heterogeneidade foi de 64,9%, e o intervalo de predição incluiu a possibilidade de efeito nulo.
Para o CACI categórico, cinco estudos mostraram associação com pior sobrevida global, com HR de 1,40 (IC95% 1,17-1,67; p<0,001) e I² de 0%. Já o CACI contínuo, em dois estudos, não alcançou significância estatística, com HR de 1,10 (IC95% 0,99-1,23; p=0,078). A diferença numérica entre CCI e CACI não demonstra superioridade de um índice sobre o outro.
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Considere a carga de comorbidades junto ao risco prognóstico
Nos desfechos secundários, o CCI categórico mais alto se associou a maior mortalidade, com HR de 1,82 (IC95% 1,26-2,63; p=0,001) e I² de 98,2%. Para o CACI categórico, o HR foi de 3,34 (IC95% 2,39-4,68; p<0,001), com I² de 61,6%. Nos dois casos, os intervalos de predição cruzaram o valor nulo, reforçando a incerteza em cenários futuros.
As análises de sensibilidade não alteraram de forma relevante a direção dos principais resultados. Entretanto, progressão, recorrência e sobrevida livre de doença tiveram dois estudos elegíveis ou menos, impedindo conclusões robustas. O viés de publicação também não foi testado formalmente porque cada análise reuniu menos de dez estudos.
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Se houver heterogeneidade, evite usar o CACI isoladamente
A principal limitação clínica é que 26 dos 28 estudos foram retrospectivos. Os pontos de corte variaram de valores iguais ou superiores a 1 a valores iguais ou superiores a 5, e o ajuste para estágio, tratamento e performance status foi inconsistente. Também pode haver viés de seleção, porque pacientes com mais comorbidades podem ter recebido terapias menos intensivas, dificultando separar o efeito das comorbidades do efeito do tratamento.
Por essas razões, a meta-análise não recomenda CCI ou CACI como determinantes independentes do tratamento. Os índices podem funcionar como marcadores de associação prognóstica e variáveis de estratificação em estudos futuros, mas ainda precisam de pontos de corte padronizados e validação prospectiva. Os autores propõem avaliá-los em conjunto com ECOG, classificação ASA, características tumorais e marcadores laboratoriais.
Para a prática brasileira, a própria base analisada não incluiu coortes do Brasil entre os países descritos, e o estudo não validou um ponto de corte específico para aplicação local. Assim, o Índice de Charlson pode acrescentar contexto sobre a carga de comorbidades no câncer de pâncreas, mas os achados sustentam cautela e não justificam decisões terapêuticas baseadas apenas no escore.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Jader Ricco
Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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