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Cirurgia1 outubro 2026

Índice de Charlson estima prognóstico no câncer de pâncreas

Mudança no escore após observação estratificou casos de apendicite aguda e concentrou a indicação de imagem no grupo intermediário.
Por Jader Ricco

O câncer de pâncreas frequentemente ocorre em pacientes com múltiplas comorbidades, o que torna relevante quantificar a carga de doenças coexistentes ao avaliar o prognóstico. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 investigou se o Índice de Charlson, ou CCI, e sua versão ajustada por idade, o CACI, se associam à sobrevida em pacientes com câncer de pâncreas. O trabalho reuniu evidências observacionais para esclarecer resultados anteriormente conflitantes sobre o valor prognóstico desses escores. 

O CCI atribui pesos a diferentes comorbidades e gera uma pontuação da carga global de doença; o CACI acrescenta pontos conforme a idade. O objetivo principal foi verificar a associação desses índices com a sobrevida global, além de explorar a mortalidade e outros desfechos. 

pâncreas

Meta-análise reúne coortes observacionais em câncer de pâncreas 

Os autores seguiram o PRISMA 2020 e registraram a revisão no PROSPERO. As buscas abrangeram Cochrane Library, Embase, PubMed e Web of Science até maio de 2025. Foram elegíveis coortes prospectivas ou retrospectivas com pacientes em qualquer estágio do câncer de pâncreas e avaliação do CCI ou CACI. 

A sobrevida global foi o desfecho primário, e a mortalidade, o desfecho secundário. Sobrevida livre de progressão, sobrevida livre de recidiva, sobrevida livre de doença e recorrência foram avaliadas como desfechos exploratórios. Dois revisores realizaram a seleção, a extração e a avaliação da qualidade pela Newcastle-Ottawa Scale. A síntese utilizou modelos de efeitos aleatórios com hazard ratios e intervalos de confiança de 95%. 

Foram incluídos 28 estudos com 548.660 participantes; 26 eram retrospectivos e dois, prospectivos, com idade média aproximada de 65 anos. Vinte e seis receberam classificação de alta qualidade e dois, de qualidade moderada. A maior parte avaliou adenocarcinoma ductal pancreático, com modalidades terapêuticas que incluíram principalmente cirurgia, além de quimioterapia e radioterapia. 

 

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Como o CCI se relacionou à sobrevida global? 

Nove estudos avaliaram o CCI categórico. Pontuações mais altas se associaram a pior sobrevida global, com HR de 1,26 (IC95% 1,09-1,47; p=0,002). A heterogeneidade foi substancial, com I² de 63,6%, e o intervalo de predição de 95% variou de 0,843 a 1,848, cruzando o valor nulo. Os autores, portanto, tratam o resultado como uma tendência global, e não como uma estimativa uniforme para todos os cenários. 

Em três estudos com CCI contínuo, cada aumento de um ponto se associou a uma elevação de 14% no risco de mortalidade, com HR de 1,14 (IC95% 1,05-1,24; p=0,001). A heterogeneidade foi de 64,9%, e o intervalo de predição incluiu a possibilidade de efeito nulo. 

Para o CACI categórico, cinco estudos mostraram associação com pior sobrevida global, com HR de 1,40 (IC95% 1,17-1,67; p<0,001) e I² de 0%. Já o CACI contínuo, em dois estudos, não alcançou significância estatística, com HR de 1,10 (IC95% 0,99-1,23; p=0,078). A diferença numérica entre CCI e CACI não demonstra superioridade de um índice sobre o outro. 

 

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Considere a carga de comorbidades junto ao risco prognóstico 

Nos desfechos secundários, o CCI categórico mais alto se associou a maior mortalidade, com HR de 1,82 (IC95% 1,26-2,63; p=0,001) e I² de 98,2%. Para o CACI categórico, o HR foi de 3,34 (IC95% 2,39-4,68; p<0,001), com I² de 61,6%. Nos dois casos, os intervalos de predição cruzaram o valor nulo, reforçando a incerteza em cenários futuros. 

As análises de sensibilidade não alteraram de forma relevante a direção dos principais resultados. Entretanto, progressão, recorrência e sobrevida livre de doença tiveram dois estudos elegíveis ou menos, impedindo conclusões robustas. O viés de publicação também não foi testado formalmente porque cada análise reuniu menos de dez estudos. 

 

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Se houver heterogeneidade, evite usar o CACI isoladamente 

A principal limitação clínica é que 26 dos 28 estudos foram retrospectivos. Os pontos de corte variaram de valores iguais ou superiores a 1 a valores iguais ou superiores a 5, e o ajuste para estágio, tratamento e performance status foi inconsistente. Também pode haver viés de seleção, porque pacientes com mais comorbidades podem ter recebido terapias menos intensivas, dificultando separar o efeito das comorbidades do efeito do tratamento. 

Por essas razões, a meta-análise não recomenda CCI ou CACI como determinantes independentes do tratamento. Os índices podem funcionar como marcadores de associação prognóstica e variáveis de estratificação em estudos futuros, mas ainda precisam de pontos de corte padronizados e validação prospectiva. Os autores propõem avaliá-los em conjunto com ECOG, classificação ASA, características tumorais e marcadores laboratoriais. 

Para a prática brasileira, a própria base analisada não incluiu coortes do Brasil entre os países descritos, e o estudo não validou um ponto de corte específico para aplicação local. Assim, o Índice de Charlson pode acrescentar contexto sobre a carga de comorbidades no câncer de pâncreas, mas os achados sustentam cautela e não justificam decisões terapêuticas baseadas apenas no escore. 

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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