O câncer de endométrio é uma neoplasia relativamente comum entre mulheres com estimativa de incidência de cerca de 471.000 casos novos por ano em âmbito mundial. A chance de diagnóstico em estágios iniciais não é rara e, por esse motivo, o tratamento cirúrgico tem papel relevante no tratamento dessa doença.
Com a evolução nas técnicas cirúrgicas, a tendência atual é direcionada para técnicas minimamente invasivas sem comprometer os resultados oncológicos. Isso significa menos dor pós-operatória, recuperação mais rápida, redução do tempo de internação e aceleração da recuperação ao trauma.
Estudos comparando diferentes técnicas cirúrgicas – aberta (laparotomia), videolaparoscopia e robótica – especialmente, ensaios randomizados ainda são limitados, mas promissores para definição dos reais benefícios das técnicas minimamente invasivas.
Metanálise publicada em julho de 2026 comparou ensaios clínicos randomizados comparando as três modalidades cirúrgicas.

Métodos utilizados
O presente estudo consiste em uma revisão sistemática com metanálise focada exclusivamente em ensaios clínicos randomizados que avaliaram a cirurgia robótica em comparação com a laparoscopia convencional e a laparotomia no tratamento do câncer de endométrio. A busca bibliográfica foi conduzida seguindo as diretrizes PRISMA.
A seleção incluiu 8 estudos randomizados abrangendo um total de 647 pacientes. Dentre os desfechos analisados, a taxa de conversão para laparotomia foi o único relatado com consistência suficiente para permitir a realização de metanálise, calculada por meio de odds ratios (OR).
Principais achados
Entre os 647 pacientes incluídos no estudo, 322 (49,8%) foram submetidos a cirurgia robótica, 244 (37,7%) a videolaparoscopia e 81 (12,5%) a cirurgia aberta (laparotomia). O subtipo histológico mais comum foi o carcinoma endometrióide, encontrado em 320 (49,5%), enquanto 109 (17,0%) pacientes apresentavam o subtipo não endometrióide. Vale ressaltar que em 218 casos (33,5%) a histologia não foi citada. O estádio FIGO foi relatado em 327 pacientes, sendo estádio I-II em 298 (46,0%) pacientes e estádio III-IV em 29 (4,5%). As informações sobre o estadiamento estavam ausentes para 320 pacientes (49,5%).
Alguns desfechos tiveram resultados controversos. O tempo de cirurgia, por exemplo, foi maior na cirurgia robótica (319,5 min via robótica vs. 248 min via laparoscopia; p < 0,001) em um estudo, mas menor em outros dois (197 min via robótica vs. 228 min via laparoscopia; p < 0,001). Já em comparação com a laparotomia, a cirurgia robótica apresentou maior tempo operatório (233 vs 187 min; p <0,001).
A avaliação em relação a perda sanguínea não apresentou diferença estatisticamente significativa entre a cirurgia robótica e videolaparoscópica, mas um estudo demonstrou perda significativamente menor na cirurgia robótica em relação à laparotomia (78 vs. 200 mL, respectivamente; p < 0,001). Resultados semelhantes foram observados em relação ao tempo de internação hospitalar, sem diferença estatística em relação a robótica e videolaparoscopia, mas significativamente menor quando comparado robótica e laparotomia (2 vs. 5 dias, respectivamente; p < 0,001).
A taxa de conversão de cirurgia minimamente invasiva para laparotomia foi o resultado mais consistente encontrado no presente estudo. A cirurgia robótica foi associada a um risco significativamente menor de conversão. Em três casos clínicos randomizados e controlados, que englobaram um total de 285 pacientes, a conversão ocorreu em 0,7% dos pacientes submetidos à cirurgia robótica, em comparação com 8,4% dos que foram submetidos à laparoscopia convencional (OR 0,17; p = 0,03).
A redução nas taxas de conversão é significativa importância, uma vez que a morbidade associada à laparotomia não planejada é relevante. A cirurgia robótica pode reduzir as conversões pelo fato de aprimorar a destreza, a estabilidade e a visualização, particularmente em pacientes com características anatômicas que dificultam o procedimento, como obesidade ou pelve profunda e estreita. Em casos tecnicamente complexos, a melhor visualização, a articulação dos instrumentos e o controle ergonômico proporcionado pelo robô podem favorecer uma dissecção pélvica mais precisa e reduzir a necessidade conversão.
O que podemos levar para a prática?
A cirurgia robótica é uma modalidade cirúrgica cada vez mais crescente e com propostas de resultados melhores. Tais desfechos correspondem a uma combinação de fatores como visão tridimensional, instrumentos articulados, filtragem de tremor e ergonomia aprimorada que, juntos, tendem a favorecer resultados oncológicos.
No entanto, esses benefícios da via robótica demandam análises científicas e estudos randomizados para se ter, de fato, comprovação dos resultados. Além da necessidade de comprovação de melhores resultados, uma questão ainda sempre levantada é em relação aos custos desse procedimento, que são muito distantes da maior parte da população e, especialmente no Brasil, onde a grande parte dos procedimentos oncológicos são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS)
Autoria

Jader Ricco
Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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