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Cirurgia27 agosto 2026

Cintas abdominais vs. coletes lombares semirrígidos pós-hernioplastia aberta

Estudo comparou os desfechos funcionais e a preferência global pelo uso de cintas abdominais ou coletes semirrígidos pós-hernioplastia

As grandes hérnias ventrais representam um importante desafio para a prática atual dos cirurgiões e tem sido recomendado o uso de dispositivos abdominais em pós-operatório no intuito de reduzir a chance de recidiva e garantir a eficácia do procedimento cirúrgico. As cintas abdominais elásticas têm sido amplamente utilizadas, por oferecerem um conforto e segurança no pós-operatório, auxílio na cicatrização e facilidade na recuperação. Além disso, são flexíveis e facilitam a adaptação. Os coletes lombares semirrígidos também podem ser recomendados e utilizados como dispositivos de suporte, porém há uma percepção que dispositivos mais rígidos causam mais desconforto no pós-operatório, reduzindo sua adesão e consequentemente, interferir na recuperação do paciente.

Um estudo prospectivo, randomizado, cruzado e de medidas repetidas (intrassujeito), foi realizado entre fevereiro e dezembro de 2025, em um centro terciário referência especializada em cirurgias da parede abdominal. Diante da escassez de estudos comparando diretamente estes dispositivos, o objetivo deste foi comparar a adaptação e tolerabilidade das cintas abdominais elásticas com os coletes semirrígidos após o reparo de grandes hérnias ventrais abertas, analisando o estado de saúde percebido, os resultados funcionais, a preferência geral e a disposição em recomendar cada dispositivo. 

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Cintas abdominais vs. coletes lombares semirrígidos pós-hernioplastia aberta

O estudo e os métodos utilizados

Foi reunida uma amostra de 23 pacientes, sendo 10 do sexo masculino e 13 do sexo feminino, com mediana de idade de 67 e mediana de IMC de 30,4 kg/m². Os pacientes foram avaliados no segundo e terceiro dia pós-operatório de reparo aberto de grandes hérnias ventrais, pela técnica sublay (posicionamento da tela pré-peritoneal e retromuscular).

Cada paciente utilizou os dois dispositivos (cinta abdominal elástica e colete lombar semirrígido) em ordem de aplicação randomizada. A avaliação da qualidade de vida e a funcionalidade foram mensurados pela escala visual analógica (EVA) e o questionário EQ-5D-5L, respectivamente. A análise foi comparada pelos testes de Wilcoxon e exato de McNemar. O valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

Principais achados

Após a aplicação do EVA, com pontuações variando de 0 a 100, obteve-se um resultado de 70 após o uso da cinta abdominal e 80 após o uso do colete semirrígido. Isso significa que o uso do colete ofereceu melhor qualidade de saúde, porém não houve diferença estatística entre eles (p = 0,36).

Em relação à funcionalidade, o questionário EQ-5D-5L analisou cinco parâmetros: mobilidade, autocuidado, atividades habituais, dor ou desconforto e ansiedade/depressão. O resultado do questionário varia de 1 (nenhum problema) a 5 (problemas extremos ou incapacidade).

As cintas abdominais, comparadas ao colete semirrígido, obtiveram resultados piores em relação às atividades habituais e ansiedade e depressão, obtendo pontuação 2 (p = 0,032 e p= 0,028). Os demais parâmetros foram semelhantes entre elas, não havendo diferença estatística.

Analisando a preferência global entre os dispositivos, a maioria dos pacientes (69,9%) consideraram o colete semirrígido como o preferido e também foi recomendado pela maioria (95,7%), em relação à cinta abdominal (p = 0,039).

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Quais foram os pontos de discussão?

O tratamento das grandes hérnias ventrais tem evoluído nas últimas décadas, acompanhando o desenvolvimento da laparoscopia e da cirurgia robótica. Nesse contexto, estratégias voltadas ao período pós-operatório também vêm sendo discutidas, incluindo a utilização de dispositivos de suporte da parede abdominal.

O estudo em questão demonstrou alguns aspectos importantes. Primeiramente, destaca-se o seu desenho do tipo cruzado, que permitiu que cada participante fosse exposto aos dois dispositivos avaliados. Dessa forma, o próprio paciente atuou como seu controle, aumentando a confiabilidade da comparação e reduzindo a influência da variabilidade individual sobre a percepção de conforto, tolerabilidade e preferência.

Um dos principais achados foi a maior preferência dos participantes pelo uso do colete lombar semirrígido. Este resultado apresentou uma quebra de um paradigma prévio em que dispositivos semirrígidos ofereciam pior tolerância e menor adesão no pós-operatório que dispositivos elásticos.

Uma possível explicação para a maior preferência pelo colete pode estar relacionada ao maior suporte proporcionado durante a mobilização. Após grandes reconstruções da parede abdominal, a sensação de maior estabilidade e sustentação pode transmitir ao paciente maior segurança para realizar movimentos e atividades habituais.

Apesar dos resultados favoráveis ao colete semirrígido em relação à preferência e recomendação, é importante interpretar os achados com cautela. Os pacientes foram comparados apenas à um tipo de abordagem cirúrgica (correção aberta pela técnica sublay) e não foi comparada nenhum outro tipo de abordagem.

Além disso, foram avaliados apenas no segundo e terceiro dias pós-operatórios, não sendo avaliados à longo prazo e nem impacto dos dispositivos no desenvolvimento ou não de complicações tais como seroma, infecção de sítio cirúrgico, deiscência de ferida operatória, retorno às atividades ou recidiva da hérnia.

Assim, o principal achado do estudo é que a maior rigidez do dispositivo não parece representar, necessariamente, menor conforto ou tolerabilidade. O colete semirrígido mostrou-se uma alternativa bem aceita pelos pacientes no pós-operatório imediato, embora ainda não exista evidências suficientes para afirmar sua superioridade clínica em relação às cintas abdominais elásticas.

O que podemos levar para a prática?

  • Coletes semirrígidos ou cintas abdominais elásticas podem ser utilizadas no pós-operatório de cirurgias de parede abdominal.
  • A rigidez do dispositivo não significa necessariamente baixa tolerância ao dispositivo.

Entenda: Temos solução para hérnia paraestomal?

Autoria

Foto de Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Rodolfo Kalil de Novaes Santos

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Ipatinga. Residência médica em Cirurgia Geral pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (SCMBH). Residência médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo pelo Hospital Governador Israel Pinheiro (IPSEMG). Docente e coordenador do Núcleo de Cirurgia Geral, Urgência e Emergência da Faculdade de Minas (FAMINAS - Muriaé).

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