Logotipo Afya
Anúncio
Cirurgia9 junho 2026

Temos solução para hérnia paraestomal?

Hérnia paraestomal pode ser reduzida com tela profilática em funil durante colostomia definitiva, mas achados radiológicos seguem frequentes.
Por Felipe Victer

A prevenção e o manejo da hérnia paraestomal continuam como alguns dos problemas mais desafiadores na cirurgia. A incidência após a confecção de uma colostomia definitiva pode atingir níveis elevados de até cinquenta porcento, enquanto as recidivas após a tentativa de reparo cirúrgico também é alta.

Diante deste disto, foi publicado os resultados de 3 anos de seguimento do estudo denominado “Chimney Trial” no JAMA Surgery. A introdução de uma tela intra-abdominal específica em formato de funil demonstrou superar as limitações das abordagens anteriores, oferecendo uma opção viável que pode alterar as diretrizes estabelecidas e a prática cirúrgica de rotina para pacientes com diagnóstico de adenocarcinoma retal.

Materiais e Métodos

Ensaio clínico randomizado, cego para os avaliadores radiológicos e multicêntrico, conduzido em quatro hospitais universitários na Finlândia e em um hospital na Suécia. Os pacientes selecionados foram alocados de modo cego na proporção 1:1 utilizando uma sequência de randomização gerada por computador e estratificada por blocos, sendo específica para cada centro participante.

O desfecho primário estabelecido foi a incidência de hérnia paraestomal detectada por exames de tomografia computadorizada aos doze meses de acompanhamento pós-operatório. Os desfechos secundários propostos englobaram a incidência de hérnia diagnosticada clinicamente ao longo de cinco anos de seguimento, a sobrevida livre de reoperação decorrente da hérnia, a taxa geral de reoperações e as complicações relacionadas ao estoma. Outros desfechos secundários incluíram a avaliação contínua da qualidade de vida, o tempo total de internação hospitalar e os custos associados aos tratamentos.

Resultados

No estudo inicial foram incluídos aproximadamente 70 participantes em cada grupo, com as perdas observadas em todos os estudos, ao final de 3 anos havia dados de 50 pacientes do grupo tela e 51 do grupo controle. Desses grupos 44 pacientes do grupo tela e 39 do grupo controle realizaram tomografia.

A avaliação tomográfica no acompanhamento de três anos revelou que a incidência de hérnia paraestomal foi de 57% (25/44) no grupo submetido à implante da tela, e de 82% (32/39) no grupo controle, p=0,001. Em relação ao diagnóstico puramente clínico, a incidência registrada foi de 10% (5/50) no grupo que utilizou a tela, contra 39% (20/51) no grupo controle, p< 0,001.

Os volumes medianos das hérnias diagnosticadas radiologicamente alcançaram 185,9 mL no grupo controle em contrapartida aos 86,8 mL no grupo tela,p 0,003. O reparo cirúrgico tornou-se imperativo para 8% dos pacientes do braço controle e apenas para 2% dos pacientes do grupo tela. É essencial ressaltar que as avaliações de qualidade de vida, taxas de reoperação por obstrução intestinal e complicações estomais não apresentaram quaisquer diferenças estatisticamente significativas entre os braços de estudo em questão, denotando a segurança do material protético.

Discussão

Os investigadores sintetizam que a utilização profilática da tela intra-abdominal em formato de funil reduz de modo significativo as taxas radiológicas e clínicas do desenvolvimento da hérnia paraestomal em longo prazo, sem acarretar elevação nas complicações estomais. A notável discrepância observada entre os achados radiológicos objetivos e as manifestações clínicas indica que grande parte das hérnias detectadas por exames de imagem persiste assintomática, sinalizando que a prótese consegue impedir a progressão da patologia para formas anatômicas mais complexas.

No que tange às limitações metodológicas, o ensaio clínico teve que ser interrompido prematuramente por questoes éticas devido às acentuadas taxas de herniação ocorridas no braço controle, fato que reduziu o poder estatístico da coorte final. A inviabilidade de um cegamento total de médicos e pacientes após a alta hospitalar pode ter introduzido vieses de detecção no curso do monitoramento.

Além disso, o baixo índice de massa corporal médio da coorte estudada, oscilando em torno de 26, restringe a generalização das conclusões para contingentes com incidências elevadas de obesidade severa, a qual constitui um risco primordial para a formação herniária. Conclui-se que a inserção desta tela em formato de funil perfaz um método preventivo clinicamente eficaz e seguro no decorrer da confecção de colostomias definitivas, justificando a sua adoção seletiva no arsenal terapêutico.

Para levar para casa

O melhor tratamento da hérnia paraestomal continua sendo a reconstrução do trânsito, mas nem sempre isto é possível, como no caso do estudo. Uma taxa 57% de incidência tomográfica nos pacientes com tela sugerem que não impede a formação e talvez seja uma questão de tempo para esta hérnia aumentar e se tornar clinicamente detectável. De qualquer forma retardar o crescimento de uma hérnia pode ser uma ótima opção em diversos cenários.

Autoria

Foto de Felipe Victer

Felipe Victer

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Cirurgia Geral (2007) e Cirurgia Geral - Programa Avançado (2009) pela mesma instituição. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sobracil. Coordena área de esôfago/estômago com ênfase em cirugia minimanente invasiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Cirurgia