As hérnias inguinais são condições frequentes na prática clínica do médico cirurgião geral, e pode envolver dor e limitação das atividades diárias dos pacientes.
O tratamento definitivo envolve a correção cirúrgica (hernioplastia inguinal), que pode ser realizado de forma convencional ou aberta; por via laparoscópica ou por via robótica. Cada vez se utiliza menos a via convencional e dá-se preferência às vias minimamente invasivas, pois cursam com menor dor pós-operatória e crônica, menor taxa de complicações (hematomas, infecções de sítio cirúrgico) e retorno mais rápido ao trabalho.
Existem basicamente duas formas de correção minimamente invasiva: totalmente extraperitoneal (TEP) ou técnica transabdominal pré-peritoneal (TAPP). A utilização da via robótica nestes casos ainda não apresentou um benefício claro, principalmente em estudos prévios, tais como estudo RIVAL, que comparou a hernioplastia inguinal por TAPP sendo realizada por laparoscopia versus por via robótica.
Um estudo recente sobre o tema foi multicêntrico, simples-cego, e não apresentou nenhum benefício ou superioridade da via robótica, sendo evidenciado apenas maior tempo cirúrgico e maior custo financeiro.
Baseando-se neste e outros estudos prévios, o objetivo deste estudo foi comparar a abordagem minimamente invasiva das hérnias inguinais por via laparoscópica pela técnica TEP versus por via robótica pela técnica TAPP (rTAAP), em relação à dor pós-operatória.

Métodos
Trata-se de estudo prospectivo, randomizado, controlado, duplo-cego, unicêntrico, conduzido na Suíça entre 2022 e 2024. A amostra incluía 182 pacientes portadores de hérnia inguinal unilateral ou bilateral sintomáticas, sendo divididos em dois grupos. A dor pós-operatória ao tossir 24 horas após a intervenção cirúrgica foi o desfecho primário.
A mensuração da dor pós-operatória foi realizada através da Escala Numérica de Dor (NRS) e a carga de trabalho cirúrgica foi avaliada pelo Índice de Carga de Trabalho da NASA (TLX). O valor de p inferior a 0,05 indicava significância estatística.
Resultados
Após a randomização feita, os 182 pacientes foram divididos em 2 grupos, sendo 91 pacientes submetidos a hernioplastia inguinal pela técnica TEP por via laparoscópica e rTAPP por via robótica. Várias variáveis foram comparadas, tais como sexo, idade, IMC, tipo de trabalho, ASA, lateralidade, porém não houve significância estatística.
A dor pós-operatória ao tossir 24 horas após o procedimento foi mensurada pela escala NRS, sendo o grupo TEP com valor de 5 e o grupo rTAPP com valor de 4 (p = 0,431).
O tempo cirúrgico médio entre os grupos também foi avaliado. Analisando-se as hérnias inguinais unilaterais, o grupo TEP apresentou tempo cirúrgico médio de 64,2 minutos, enquanto o grupo rTAPP demonstrou tempo médio de 80,3 minutos (p < 0,001). Já nas hérnias inguinais bilateral, o grupo TEP apresentou tempo cirúrgico médio de 102,7 minutos, enquanto o grupo rTAPP demonstrou tempo médio de 126,6 minutos (p = 0,002).
Em relação às complicações pós-operatórias, 10 complicações foram descritas no grupo TEP e 9 complicações no grupo rTAPP, porém sem relevância estatística (p > 0,999).
Já o Índice de Carga de Trabalho da NASA (TLX) pontuou um valor de 34 no grupo TEP e 18,4 no grupo rTAPP (p < 0,001).
Discussão
O estudo em questão (ROGER) trouxe uma análise comparativa entre as principais vias de abordagem minimamente invasivas para tratamento de hérnias inguinais. A rTAPP não demonstrou superioridade em relação a TEP por via laparoscópica no que se diz respeito a dor pós-operatória, tanto em curto quanto médio prazo, nem em relação às complicações.
A via robótica apresentou maior tempo cirúrgico, que pode ter sido influenciado por três pontos principais na correção de hérnias: acoplamento do robô (docking); realização de sutura do peritônio e fixação da tela utilizando sutura. Apesar do tempo elevado, o índice TLX mostrou-se menor no grupo robótico, refletindo um maior conforto, menor estresse e menor cansaço do cirurgião.
Embora a via robótica não tenha trazido demais benefícios, oferece melhor ergonomia para o cirurgião, à custa de maior tempo operatório e maior custo financeiro para as instituições, trazendo ainda questionamentos para sua utilização e aplicação diária.
A hernioplastia inguinal realizada por via robótica por TAPP, comparada à via laparoscópica por TEP, não apresenta superioridade na redução da dor pós-operatória e complicações, porém concede um conforto mais apurado para o cirurgião durante o procedimento cirúrgico, refletindo na diminuição do cansaço, mesmo com tempo cirúrgico mais elevado.
Mensagem prática
1 – A hernioplastia por via robótica (rTAPP) não apresentou superioridade na redução de dor e nem de complicações comparando com a via laparoscópica (TEP).
2 – A cirurgia robótica apresentou menor índice TLX comparada à via laparoscópica e oferece maior conforto ao cirurgião para realização do procedimento, mesmo sendo mais demorada.
Autoria

Rodolfo Kalil de Novaes Santos
Graduado em Medicina pelo Instituto Metropolitano de Ensino Superior (IMES), em Ipatinga (MG), no ano de 2017. Residência Médica em Cirurgia Geral no ano de 2020 pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG) e Residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo no ano de 2024 pelo Hospital Governador Israel Pinheiro - IPSEMG. • Cirurgião geral na Casa de Caridade Hospital São Paulo; Casa de Saúde Santa Lúcia e Prontocor. Docente da disciplina de anatomia II da Faculdade de Minas (FAMINAS) de Muriaé (MG).
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