Uma das mais frequentes queixas no pós-operatório de qualquer procedimento gastrointestinal é a presença de íleo pós-operatório. O íleo quando prolongado retarda a alta hospitalar, aumenta o custo da interação e está relacionado a outras complicações que podem levar à morbimortalidade de pacientes.
Uma das questões mais discutidas atualmente após colectomias é o retorno precoce à ingestão de alimentos, cirurgia sem opioide e deambulação precoce. Um retorno imediato aos hábitos e necessidades diárias está relacionado a uma diminuição de morbidade e complicações hospitalares, conforme projeto ERAS (Enhanced Recovery After Surgery). Porém, nem todos os pacientes evoluem da forma almejada e, mesmo com o retorno precoce, evoluem com íleo pós-operatório.
Dois ensaios clínicos publicados recentemente no British Journal of Surgery, analisaram o uso de substâncias que podem diminuir o tempo de retorno da função intestinal. O primeiro artigo utilizou prucalopride de forma randomizada e duplo cega comparada com placebo, multicêntrica e paralela. O prucalopride é uma agonista de receptores de serotonina 4, que aumentam a acetilcolina pré-sináptica do vago e assim aumentando a motilidade gástrica e colônica.
O critério de inclusão foram pacientes submetidos a colectomia, e o desfecho primário a ser observado foi o tempo para aceitação de dieta e presença de evacuação. O segundo artigo, com desenho bastante semelhante ao primeiro, utilizou a cafeína como substância ativa e comparou com placebo. Uma diferença interessante deste segundo artigo que analisou apenas colectomias videolaparoscópicas, o que historicamente já está associada a um menor íleo pós-operatório.

Métodos e resultados
Ao final e com as exclusões necessárias foram alocados 75 pacientes em cada grupo. Houve perda em ambos os grupos e o no final foi de 74 para cada grupo e assim, estatisticamente analisados.
A diferença entre os grupos não apresentou diferença estatística para o tempo da primeira evacuação com 3,5 dias para o grupo prucalopride e 4,0 dias para o grupo controle (p=0,124). O tempo para a ingestão alimentar adequada foi o mesmo dos dois grupos (2 dias 0,5-3,5 p=0,669). Na análise das complicações pós-operatórias também não apresentou nenhuma diferença estatística.
Já no estudo da cafeína, foram criados três grupos para análise e cada um com 20 pacientes, sendo a diferença a dose da cafeína 100 mg, 200 mg ou placebo. O tempo médio para o primeiro movimento evacuatório foi 67,9h, 69,2h e 67,3h respectivamente para 200mg, 100mg e placebo (p=0,887).
Assim, este protocolo determinou que a cafeína não diminuiu o tempo para a primeira evacuação do paciente.
Mensagem prática
O uso regular de pró-cinéticos muitas vezes é extrapolado como uma forma que irá “diminuir” o íleo pós-operatório. A função teórica de um fármaco pode não apresentar benefícios na prática clínica.
Interessante notar que no segundo estudo, que utilizou apenas laparoscopia, o tempo médio para a primeira função intestinal foi menor. A menor manipulação dos métodos minimamente invasivos se reflete drasticamente na recuperação dos pacientes.
O retorno precoce à alimentação e os métodos preconizados pelo protocolo ERAS já estão provados de serem mais eficazes que o uso isolado de um (ou múltiplos) fármacos.
Autoria

Felipe Victer
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Cirurgia Geral (2007) e Cirurgia Geral - Programa Avançado (2009) pela mesma instituição. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sobracil. Coordena área de esôfago/estômago com ênfase em cirugia minimanente invasiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.
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