Um dos temas abordados no American College of Surgeons Clinical Congress (ACSCC 2020), no início dessa semana, trouxe ao debate um assunto que aflora o questionamento no tratamento padrão para apendicite: seria a apendicite realmente uma doença cirúrgica? Tratamentos apenas a base de antibióticos podem trazer uma solução confiável? Há a obrigatoriedade de exposição à radiação para diagnóstico? Em um painel extremamente interessante, os moderadores e palestrantes trouxeram os prós e contras a essas intervenções alternativas.
Antibióticos ou intervenção cirúrgica em casos não complicados?
Em sua apresentação, a Dra. Sonlee West, após fazer uma revisão histórica da doença, ilustrou diferentes estudos randomizados comparativos entre grupos de tratamento com intervenção cirúrgica e grupos de tratamento apenas com antibióticos para apendicite aguda não complicada.
Os dados demonstraram que apesar de vantagens, como ser menos invasivo e facilitar o retorno do paciente ao seu cotidiano de maneira mais rápida, o tratamento apenas com antibióticos apresentou índices de recorrência ligeiramente elevados, variando de 12,5% a 37% nos primeiros 12 meses. Quando cumulativos em cinco anos, essa taxa pode chegar a 40%.
Apesar de a maioria dos pacientes com apendicite não complicada terem apresentado quadro de melhora somente com antibióticos, esses testes foram feitos apenas em grupos de controle e, como a própria professora salienta, o tratamento padrão ainda continua sendo a apendicectomia.
E no caso de ruptura da apendicite, o que fazer após a drenagem do abscesso?
Na sequência, o Dr. Mario A. Cerame discutiu sobre a utilização de apendicectomia de intervalo no caso de presença de abscessos no apêndice e sobre a necessidade de medicina baseada em evidências para prever casos de recorrência após tratamento bem-sucedidos ou através de imagem para aqueles casos que ainda se encontram em estágio inicial.
Outro ponto que fez parte da discussão foi o fato de que a malignidade deve ser descartada ao decidir por conduta conservadora. Para isso, a idade foi fator fundamental. Em pacientes acima de 45 anos, deve ser aventada a hipótese de câncer em uma apendicite. Portanto, a clínica, anamnese e exames devem ser individualizados na hora da decisão.
Ultrassom como alternativa para diagnóstico é viável?
O debate relativo a superexposição a radiação por exames como a tomografia computadorizada ou ressonância magnética, principalmente em crianças, como ferramentas de diagnóstico primário para apendicite foi o principal ponto levantado pela Dra. Norma T. Walks.
Em sua apresentação, a professora ponderou que o manuseio do ultrassom é relativamente fácil e, com o devido treinamento, pode ser direcionado para o diagnóstico de apendicite sem muita dificuldade. Outro ponto foi em relação a facilidade de acesso à ferramenta, uma vez que, mesmo em hospitais em regiões rurais ou com pouco recurso, o equipamento pode ser encontrado. Por último, a utilização do ultrassom abre espaço para que o próprio cirurgião possa realizar o exame a beira leito, o que reduziria custos e agilizaria o diagnóstico.
Conclusão
O debate em cima de alternativas à intervenção cirúrgica trouxe pontos interessantes, mostrando que, nos casos não complicados, a possibilidade de tratamento apenas com antibióticos pode ser factível. Entretanto, o cirurgião deverá informar ao paciente que a possibilidade de complicação futura pode chegar a 40% em até cinco anos.
A utilização de ressonância também se mostra como mais uma alternativa, porém, em casos mais complicados, torna-se secundário.
Veja mais do congresso:
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Referência bibliográfica:
- American College of Surgeons Clinical Congress. https://www.facs.org/clincon2020
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