A correção laparoscópica transabdominal pré-peritoneal de hérnias inguinais (TAPP) tem se consolidado na prática cirúrgica com menor incidência de dor no pós-operatório quando comparada às técnicas abertas convencionais. Durante este procedimento, o método de fixação da tela é um componente técnico que pode influenciar diretamente a dor pós-operatória, sendo o uso de grampos de titânio, suturas intracorpóreas e adesivos teciduais as opções mais prevalentes.
A fixação mecânica, embora promova estabilidade imediata, é frequentemente associada a queixas dolorosas devido à penetração tecidual e ao risco de lesão em estruturas nervosas subjacentes.
Diante da escassez de evidências comparativas diretas e randomizadas que avaliem simultaneamente três modalidades distintas de fixação na técnica TAPP, torna-se necessário investigar qual estratégia otimiza a relação entre eficácia, conforto do paciente e custo-efetividade. O objetivo da pesquisa conduzida por Aziz e colaboradores foi avaliar a intensidade da dor no pós-operatório inicial e a qualidade de vida relacionada à hérnia utilizando cola de cianoacrilato, suturas de polipropileno e grampos metálicos.
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Quais métodos foram utilizados?
Trata-se de um ensaio clínico prospectivo e randomizado, de centro único, que incluiu setenta e cinco pacientes adultos na faixa etária de vinte e um a sessenta anos, todos com diagnóstico de hérnia inguinal primária com indicação de reparo eletivo.
Os participantes foram alocados de forma aleatória em três braços de intervenção com vinte e cinco indivíduos em cada, correspondendo aos grupos de fixação com cola cirúrgica, suturas e grampos helicoidais. O procedimento padronizado empregou telas macroporosas de polipropileno de baixo peso. No primeiro grupo, a fixação foi realizada com adesivo tecidual à base de cianoacrilato aplicado em gotas nos vértices da prótese. No segundo grupo, utilizaram-se dois pontos simples de fio inabsorvível fixando a tela ao ligamento de Cooper e ao trato iliopúbico. No terceiro grupo, aplicaram-se cinco a sete grampos de titânio na periferia da malha, respeitando a anatomia dos triângulos de perigo.
O desfecho primário consistiu na avaliação da dor pela escala visual analógica no primeiro dia, bem como no primeiro, terceiro e sexto meses de acompanhamento, em conjunto com a mensuração da qualidade de vida. Os desfechos secundários englobaram o tempo operatório, o período de internação, o retorno às atividades laborais, o custo dos materiais e as taxas de complicações e recidivas.
Principais achados
A análise demográfica e das características das hérnias não revelou diferenças entre os três grupos na linha de base. No que tange à dor pós-operatória no primeiro dia, o grupo submetido à fixação com grampos apresentou uma mediana de 3 na escala visual analógica, valor acima do observado nos grupos de cola e sutura, que registraram mediana de 2, com p < 0,001.
Ao final do primeiro mês, a dor permaneceu em níveis rastreáveis no grupo dos grampos, com mediana 1, em contraste com a mediana 0 dos demais grupos, mantendo o valor de p < 0,001. Nos meses três e seis, os escores de dor foram nulos em todos os grupos, sem diferenças estatísticas, apresentando p = 0,809 e p = 1,000, respectivamente.
Em relação à qualidade de vida mensurada pela escala Carolinas Comfort Scale, o escore total no primeiro mês foi de 11,28 no grupo da cola, 14,48 no grupo da sutura e 15,56 no grupo dos grampos, com p < 0,001. Este padrão de adaptação com o uso da cola persistiu aos três e seis meses.
O retorno ao trabalho ocorreu em 5,56 dias no grupo da cola, 8,08 dias no grupo da sutura e 9,60 dias no grupo dos grampos, com p < 0,001. O tempo operatório e a permanência hospitalar não variaram entre as coortes, com p = 0,098 e p = 0,775. A incidência de complicações precoces, como seroma, hematoma e infecção, assim como a taxa de recidiva em seis meses, que variou de quatro a oito por cento, não demonstraram variações estatísticas, com p = 0,917 e p = 1,000.
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Pontos de discussão mais relevantes
Os achados do presente ensaio clínico indicam que a fixação atraumática reduz a estimulação dolorosa aguda, promovendo um período de convalescença inicial pautado em maior conforto analgésico. A percepção do implante e o desconforto geral demonstraram uma adaptação clínica consolidada nos pacientes que receberam o adesivo tecidual, fator primariamente secundário à ausência de material de fixação transfixante responsável por perpetuar a irritação local ou agravar a resposta de corpo estranho.
Observou-se que os tempos cirúrgicos não sofreram prolongamento com o uso de cola ou suturas, o que contrapõe a percepção empírica de que os grampos seriam estritamente mandatórios para a agilidade técnica. As complicações locais e as recidivas mantiveram-se em níveis aceitáveis entre os métodos de fixação, sinalizando que a ancoragem biomecânica da prótese pré-peritoneal foi eficaz nas três vertentes de estudo.
O componente econômico associado ao material utilizado determinou que o emprego da cola apresenta custo financeiro intermediário em contrapartida ao custo mais elevado dos grampos helicoidais de titânio. A transposição destes resultados para a prática corrobora a busca por uma menor agressão tecidual focal durante o procedimento laparoscópico.
Em suma, a adoção de cola cirúrgica para a fixação da tela no reparo TAPP de hérnias inguinais favorece o controle álgico precoce, aprimora a qualidade de vida ao longo dos primeiros seis meses e antecipa o retorno às atividades ocupacionais em comparação ao uso de grampos e suturas. O método operatório com adesivo não eleva a ocorrência de complicações locais ou a recidiva estrutural precoce, constituindo uma abordagem terapêutica equilibrada do ponto de vista do custo material para a rotina cirúrgica.
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O que podemos levar para casa?
Novas tecnologias e entendimento da anatomia da cirurgia de hérnia tem alterado a percepção que o cirurgião atua no tratamento. Inclusive a não fixação da tela é discutida com boa aceitação. As colas cirúrgicas têm surgido como uma boa alternativa entre a não fixação e a fixação traumática, com provável benefício de menor dor em curto prazo.
Autoria

Felipe Victer
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Cirurgia Geral (2007) e Cirurgia Geral - Programa Avançado (2009) pela mesma instituição. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sobracil. Coordena área de esôfago/estômago com ênfase em cirugia minimanente invasiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.
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