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Carreira29 junho 2026

Periódicos científicos e os obstáculos para jovens médicos pesquisadores

Periódicos científicos podem se tornar mais acessíveis a jovens médicos com mentoria, método e tempo protegido para pesquisa

Muitos médicos ainda em formação ou no início da carreira têm a ideia de que fazer pesquisas ou publicar em periódicos científicos de alto impacto é algo distante da realidade dos primeiros anos de atuação profissional, reservado a médicos com mais tempo de experiência.

Essa visão provavelmente ocorre pelo excesso de limitações encontradas pelos jovens pesquisadores. No entanto, esse não é um caminho inacessível para quem deseja seguir carreira científica logo após a formação.

Barreiras que afastam jovens médicos dos periódicos científicos

Uma revisão feita por Mokhwelepa et al. (2026), com 57 estudos publicados entre 2010 e 2025 em diversos países, analisou as barreiras enfrentadas por estudantes de medicina na área da pesquisa. Restrições de tempo, falta de mentoria, treinamento e recursos, além de obstáculos institucionais, foram as queixas mais frequentes entre esses médicos em início de trajetória científica.

Isso é comum porque estudantes de medicina costumam ter dificuldades para conciliar exigências acadêmicas, estágios clínicos e compromissos pessoais. O currículo sobrecarregado deixa pouco espaço disponível para a pesquisa (Mokhwelepa et al., 2026).

Outro estudo, feito por Bakhshi et al. (2023) com 333 residentes, mostrou que apenas 18% haviam feito publicações em periódicos locais e 11% em revistas internacionais, mesmo reconhecendo a importância da pesquisa científica na carreira médica.

Os principais obstáculos também foram a limitação de tempo por demandas clínicas, a falta de apoio financeiro e a ausência de infraestrutura para pesquisa.

Mais de 57% dos residentes que responderam ao questionário tiveram pontuação abaixo de 33% em questões básicas sobre metodologia científica. Esse dado sugere que o problema de acesso de jovens pesquisadores a grandes periódicos científicos começa antes mesmo da tentativa de escrever um artigo.

E como mudar isso?

O que acontece nas redações dos grandes periódicos científicos

Uma visão importante sobre o caminho até a publicação de alto impacto para jovens pesquisadores veio de uma experiência prática relatada por Mensah et al. (2025), em editorial do JAMA. O texto descreve a participação de oito pesquisadores em início de carreira como fellows editoriais do JAMA entre 2023 e 2024.

O relato publicado na revista descreve o que eles aprenderam durante essa experiência. Entre os pontos observados, manuscritos bem-sucedidos geralmente apresentam novidade metodológica ou de população estudada, utilizam métodos rigorosos e comunicam os resultados de forma compreensível também para leitores não especialistas.

Desigualdade estrutural no processo editorial

Um ponto de atenção no texto sobre a experiência dos jovens pesquisadores é a constatação de desigualdade estrutural no processo editorial, algo bastante comum para quem está começando na pesquisa.

Os autores descrevem a tendência de pesquisadores já consolidados acumularem vantagens de citação, atenção editorial e colaborações, enquanto iniciantes partem de uma posição desfavorável.

Como resposta, Mensah et al. (2025) propõem medidas que vão desde a criação de fellowships editoriais para pesquisadores em início de carreira até a inclusão de consideração especial a manuscritos submetidos por autores jovens.

Programas de mentoria e tempo protegido para pesquisa

Esse tipo de iniciativa não é novo nem exclusivo de um periódico. Lançado em 2018, o Stimulating Access to Research in Residency (StARR) é um programa do NIH norte-americano que financia instituições para oferecer a residentes entre um e dois anos de tempo protegido para pesquisa, com mentoria estruturada.

Segundo Rapoza et al. (2022), uma avaliação preliminar publicada na Academic Medicine mostrou bons resultados do programa. A proporção de residentes que consideravam muito provável seguir carreira como médicos-pesquisadores subiu de 52% para 80% após a participação.

Além disso, 88% dos participantes descreveram que a direção de pesquisa ficou mais clara ao final do programa, contra 52% no início.

Roteiro para jovens médicos pesquisadores

Enquanto o acesso a programas de fellowships editoriais ou mentorias em pesquisa não está disponível para a maioria dos médicos nos últimos anos da faculdade ou no início da carreira, algumas estratégias podem ajudar a reduzir as dificuldades de acesso aos periódicos científicos.

O artigo publicado por Akefe et al. (2025) no Postgraduate Medical Journal contribui para isso ao apresentar um roteiro com 12 estratégias para realizar pesquisas com sucesso. Algumas sugestões se aplicam bem ao contexto brasileiro.

Comece cedo e escolha um foco

Médicos que começam a ter contato com pesquisa ainda durante a formação têm mais tempo para desenvolver competências e construir um portfólio antes de submeterem ao mercado de trabalho acadêmico ou a programas de pós-graduação.

Busque um mentor compatível, não apenas disponível

A compatibilidade entre os interesses de pesquisa e o mentor é mais importante do que a simples disponibilidade de tempo para orientações.

Mentores podem ser buscados dentro e fora da própria instituição, em conferências, redes profissionais e plataformas acadêmicas.

Domine a gestão do tempo

A pesquisa não precisa competir com as atividades clínicas. Na prática, pode ser integrada a elas.

Estudos retrospectivos de prontuários, participação em iniciativas de melhoria de qualidade e revisões sistemáticas são formatos de pesquisa que se adaptam à rotina de quem ainda está em treinamento clínico.

Use ferramentas de inteligência artificial com critério

Plataformas e recursos de IA generativa podem agilizar revisões de literatura, apoiar análises e ajudar na estruturação de manuscritos.

No entanto, o uso deve respeitar as diretrizes éticas de cada periódico.

Vá além dos artigos

Apresentações em congressos, podcasts, posts em redes profissionais e participação em grupos de pesquisa também são formas válidas de construir reputação científica para quem está começando.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora-assistente médica na Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com MBA em Gestão Estratégica pela mesma instituição (2022).

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