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Carreira24 agosto 2026

Jargão médico no prontuário: precisão clínica ou ruído para o paciente?

Jargão médico no prontuário pode gerar julgamento e reduzir a confiança. Entenda como a linguagem clara preserva a precisão clínica e o vínculo.

Ana Cláudia foi ao consultório para uma consulta de rotina, sem nenhuma novidade. Por curiosidade, pediu para levar uma cópia do registro para casa.

Ao ler “paciente nega uso de álcool”, comentou com o marido:

— Será que eu tinha cara de quem bebia muito? Será que ele pensou isso? Não percebi nada durante a consulta.

Não havia sido essa a intenção do médico. Ainda assim, a palavra “nega” fez com que ela se sentisse investigada, e não cuidada. Uma consulta que havia transcorrido bem transformou-se, de repente, em incômodo.

O prontuário foi tradicionalmente escrito para a comunicação entre médicos. No entanto, desde a Lei Cures de 2016, nos Estados Unidos, e de avanços legislativos semelhantes no Brasil, os pacientes passaram a ter acesso direto a esses registros.

Mas, convenhamos: o médico nem sempre escreve como se o paciente também precisasse compreender o documento.

paciente lactente com dificuldade para evacuar quiz

O que os pacientes pensam sobre o jargão médico

Um estudo publicado em 2026 no Journal of General Internal Medicine avaliou essa questão. Os pesquisadores apresentaram a 276 adultos nove cenários clínicos, com duas opções de redação: o jargão médico tradicional e uma alternativa em linguagem clara.

Os resultados mostraram ampla preferência pelas formulações mais diretas:

Termo tradicionalPreferênciaAlternativaPreferência
“Nega uso de álcool”16%“Não bebe álcool”82%
“Queixa principal”20%“Motivo da consulta”79%
“Falha no tratamento ambulatorial”2%“Não melhorou”70%
“Não aderente”2%“Incapaz de tomar”56%
“Não adesivo”2%“Parou de tomar”39%
“Recusou antibióticos”6%“Preferiu não tomar”43%
“Recusou antibióticos”6%“Recusou”43%

A análise temática das justificativas identificou oito categorias principais:

  • comunicação clara e detalhada;
  • informação objetiva e precisa;
  • mensagem direta e concisa;
  • linguagem empática e pessoal;
  • respeito à autonomia do paciente;
  • sensibilidade aos aspectos financeiros;
  • reconhecimento da dependência;
  • tom formal e profissional.

A categoria mais frequente foi a preferência por uma linguagem empática, pessoal e afirmativa. De modo geral, os participantes rejeitaram expressões que pudessem sugerir culpa, julgamento ou responsabilização do paciente.

Três pilares para tornar a documentação clínica mais clara

Os autores propõem três pilares para a revisão da linguagem utilizada nos registros médicos.

1. Empatia e afirmação

A recomendação é substituir formulações potencialmente acusatórias ou impessoais por termos mais diretos:

  • “queixa principal” por “motivo da consulta”;
  • “nega” por “não”;
  • “não aderente” por “incapaz de tomar devido a…”.

2. Clareza e simplicidade

Alguns termos técnicos podem ser substituídos ou acompanhados por expressões compreensíveis:

  • “dispneia” por “dificuldade para respirar”;
  • “precauções rigorosas de retorno” por “você deve retornar pelos seguintes motivos”.

3. Respeito à autonomia do paciente

A escolha das palavras também pode reconhecer a participação do paciente nas decisões.

“Recusou” pode soar como rebeldia ou oposição. Dependendo do contexto, “preferiu não tomar” comunica uma decisão de maneira menos punitiva.

Nenhuma dessas mudanças sacrifica a precisão clínica. Elas apenas reposicionam o tom da documentação.

Inteligência artificial é solução ou evidencia um problema?

O estudo menciona que ferramentas de inteligência artificial integradas ao prontuário podem oferecer sugestões de redação em tempo real. Embora a aplicação seja prática, ela também expõe uma questão mais profunda.

Precisamos de um algoritmo para lembrar que devemos escrever considerando a pessoa que vivencia aquela realidade e poderá ler o registro?

Talvez a dificuldade esteja relacionada à própria socialização profissional. Médicos passam anos em ambientes acadêmicos, residências e consultórios, comunicando-se principalmente com outros profissionais. Nesse contexto, o jargão médico torna-se automático, embora não seja universal.

Escrevemos “nega uso de álcool” sem refletir sobre como a expressão pode ser recebida. Até recentemente, poucos além dos próprios profissionais leriam a anotação, e todos no ambiente clínico compreenderiam o sentido pretendido.

A intenção não é ofender. Ainda assim, a interpretação do paciente pode ser diferente.

A inteligência artificial pode resolver operacionalmente parte do problema, mas não necessariamente sua origem: profissionais de saúde pouco habituados a escrever considerando o paciente como um dos leitores do prontuário.

Implicações clínicas e éticas do jargão médico

A discussão não se limita a uma preferência de estilo. Tornar a linguagem mais clara pode repercutir em diferentes dimensões do cuidado.

Compreensão e adesão ao tratamento

Pacientes que compreendem sua documentação podem entender melhor a própria condição e as orientações terapêuticas.

Confiança na relação médico-paciente

Uma linguagem percebida como punitiva pode reduzir a confiança, mesmo quando não existe intenção de julgamento.

Equidade na comunicação

Termos como “não aderente” podem adquirir um significado diferente fora do meio médico. A escolha de outra formulação pode ajudar o paciente a compreender com maior fidelidade o que o profissional pretende comunicar.

A mudança deve começar na formação médica

O caminho não é simplesmente recorrer à inteligência artificial para traduzir a documentação, nem substituir imediatamente todos os termos técnicos. O desafio é repensar a formação médica ao longo dos próximos anos.

Quando ensinamos diagnóstico diferencial, discutimos prognóstico ou supervisionamos residentes, por que não incluir a seguinte pergunta?

“Como você documentaria essa informação sabendo que o paciente poderá lê-la?”

Se Ana Cláudia terá acesso ao próprio prontuário, talvez o registro devesse ser escrito considerando-a desde o início.

Uma documentação clara é melhor. Na medicina, porém, algo permanece fundamental: a relação médico-paciente. A língua e os jargões podem mudar, mas confiança e clareza são universais — e não deveriam depender da tecnologia.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Editora médica na Afya. Médica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Camp), com residência médica em Clínica Médica e Nefrologia pelo Hospital Santa Marcelina (2016). Além da atuação na Afya, também atenda em consultório particular e clínica de diálise.

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