Sistemas de documentação clínica por inteligência artificial que escutam consultas em tempo real e geram automaticamente o registro no prontuário já fazem parte do cotidiano médico. Mas como avaliar seus resultados?
Para que serve um sistema de saúde? Essa é uma pergunta que deveria estar presente em todas as etapas da carreira médica, independentemente de o profissional estar no primeiro ano da faculdade ou no décimo ano de formado, atuando como gestor de uma rede hospitalar.
A resposta pode parecer óbvia. No entanto, quando traduzida em metas mensuráveis, torna-se mais complexa.
É nessa discussão que nasce o conceito do Quintuple Aim, ou Objetivo Quíntuplo, que define cinco metas fundamentais para um sistema de saúde considerado de qualidade. É também com base nesses objetivos que devem ser avaliadas as ferramentas de IA generativa na prática clínica, incorporadas em ritmo crescente ao cotidiano da medicina.
Para quem ainda está pouco familiarizado com o Quintuple Aim, este texto apresenta seus fundamentos. Para quem já conhece o conceito, propõe uma perspectiva sobre como ele vem sendo testado — e, em alguns casos, negligenciado — pela rápida adoção da inteligência artificial.

Do Triple Aim ao Quintuple Aim
Em 2008, Donald Berwick et al. publicaram o artigo “The Triple Aim: Care, Health, and Cost”, que se tornaria uma referência na gestão em saúde.
O Triple Aim, ou Objetivo Triplo, estabeleceu três metas para os sistemas de saúde:
- melhorar a experiência individual de cuidado dos pacientes;
- melhorar a saúde das populações;
- reduzir o custo per capita da assistência.
A estrutura foi ousada para a época porque buscava integrar objetivos de saúde que, até então, eram frequentemente tratados de maneira separada.
A inclusão da experiência dos profissionais de saúde
Em 2014, os médicos Thomas Bodenheimer e Christine Sinsky identificaram uma ausência nessa formulação e publicaram o artigo “From Triple to Quadruple Aim: Care of the Patient Requires Care of the Provider”.
A proposta inicial do Triple Aim não contemplava diretamente os profissionais responsáveis por alcançar aqueles objetivos.
Na época, o burnout médico ainda era pouco discutido, embora já ameaçasse a capacidade de funcionamento dos sistemas de saúde. Os autores argumentaram que, sem cuidar de quem cuida, o Objetivo Triplo não poderia ser alcançado.
Surgiu, assim, o Quadruple Aim, ou Objetivo Quádruplo, que acrescentou à lista a melhoria da experiência de trabalho dos profissionais de saúde.
Equidade em saúde torna-se o quinto objetivo
A pandemia amplificou uma percepção estrutural e antiga sobre as desigualdades em saúde.
Dados do APM Research Lab, citados por Farrell et al. (2023), mostram que populações indígenas, latinas, afro-americanas e das ilhas do Pacífico apresentaram taxas de mortalidade por Covid-19 significativamente maiores do que populações brancas ou asiáticas, mesmo após o ajuste para diferenças etárias.
Em 2022, Nundy, Cooper e Mate publicaram no JAMA o artigo “The Quintuple Aim for Health Care Improvement: A New Imperative to Advance Health Equity”. O trabalho consolidou a inclusão da equidade em saúde como o quinto objetivo do modelo.
O argumento era que, quando a equidade é incorporada às demais metas sem ocupar um espaço próprio, tende a ser tratada como um subproduto de boas políticas, e não como um objetivo com métricas e responsabilidades definidas.
Nomeá-la como um objetivo foi, portanto, um ato político e estratégico no campo das políticas públicas e da gestão em saúde.
Quais são os cinco objetivos do Quintuple Aim?
O Quintuple Aim reúne cinco dimensões que devem orientar a avaliação dos sistemas de saúde.
1. Melhorar a experiência individual de cuidado
O objetivo é garantir que cada encontro clínico seja centrado na pessoa, de modo que o paciente se sinta visto, ouvido e respeitado e que o cuidado faça sentido em sua vida.
2. Melhorar a saúde das populações
Os sistemas de saúde precisam considerar prevenção, rastreamento, dados epidemiológicos e intervenções capazes de alcançar grupos inteiros, e não apenas os pacientes que conseguem chegar à consulta.
3. Reduzir o custo per capita da assistência
Essa dimensão envolve evitar desperdícios, reduzir hospitalizações evitáveis, otimizar o uso de recursos e considerar modelos de remuneração que incentivem a qualidade, em vez do volume.
4. Melhorar a experiência de trabalho dos profissionais
Um sistema que esgota médicos, enfermeiros e outros profissionais não consegue oferecer cuidado de qualidade por períodos prolongados.
5. Avançar a equidade em saúde
Barreiras estruturais, como pobreza, discriminação institucional, segregação residencial, insegurança alimentar e preconceito implícito, podem determinar os resultados em saúde de maneira mais intensa do que fatores genéticos individuais ou a qualidade técnica do cuidado (Farrell et al., 2023).
Por que o Quintuple Aim importa para o médico?
Independentemente do momento da carreira, o Quintuple Aim oferece uma estrutura para refletir sobre o que o médico faz e para quem o faz.
Para o estudante de medicina, o modelo mostra que curar não significa apenas tratar, mas também considerar quem tem acesso ao tratamento e em quais condições.
Para o médico em início de carreira, ajuda a nomear tensões presentes na prática cotidiana, como a pressão por produtividade em conflito com o tempo necessário para um cuidado de qualidade.
Para o médico gestor, oferece vocabulário e estrutura para avaliar políticas, tecnologias e investimentos.
Como avaliar a IA generativa na prática clínica?
Um editorial publicado no JAMA em abril de 2026, assinado por Tierney, Lee e Liu, analisa os limites do conhecimento disponível sobre o uso da inteligência artificial na prática clínica.
O texto se concentra especialmente nos chamados ambient AI scribes: sistemas de documentação clínica por IA que escutam as consultas em tempo real e geram automaticamente o registro no prontuário.
Essas ferramentas passaram a integrar a rotina de hospitais e clínicas em ritmo acelerado.
Os autores reconhecem os ganhos de eficiência, mas apontam um desequilíbrio importante. A pesquisa sobre IA em saúde tornou-se eficiente em medir o que é mais simples de quantificar, como minutos de documentação, cliques no sistema, volume de consultas e métricas financeiras.
Ainda é limitada, porém, na avaliação das dimensões exigidas pelo Quintuple Aim.
IA e experiência dos profissionais de saúde
As ferramentas de documentação por IA parecem reduzir o burnout e aumentar a satisfação com o trabalho clínico.
Uma questão ainda pouco respondida, porém, é o efeito dessas tecnologias sobre a formação dos médicos residentes.
Se a geração que aprendeu medicina com o prontuário eletrônico modificou sua relação com o registro clínico, a geração que aprende ao lado de uma IA que escreve toda a documentação poderá modificar sua relação com o próprio raciocínio clínico?
Custos e produtividade com a documentação por IA
Os ganhos financeiros observados são modestos e decorrem principalmente do aumento do volume de consultas.
O editorial alerta para o risco de os sistemas de saúde justificarem o investimento em IA apenas pelo ganho de produtividade. Nesse cenário, o tempo liberado pela automação poderia ser preenchido por mais consultas, em vez de ser utilizado para melhorar o cuidado.
Como a IA afeta a experiência do paciente?
Há evidências iniciais de que os pacientes percebem os médicos como mais presentes e atentos quando a inteligência artificial assume a documentação da consulta.
A confiança, entretanto, permanece como um ponto não resolvido, uma vez que pesquisas ainda mostram que quase metade dos norte-americanos desconfia das ferramentas de IA.
Ao mesmo tempo, os sistemas de transcrição podem ampliar a confiança e melhorar a experiência do paciente ao facilitar o acesso às informações clínicas.
Ainda faltam evidências sobre os desfechos populacionais
Até o momento, não há evidência robusta de que a IA aplicada à documentação melhore resultados de saúde, como controle de doenças crônicas, adesão aos tratamentos ou redução de hospitalizações evitáveis.
Existe a hipótese de que a redução do burnout médico possa se traduzir em melhor cuidado, mas essa relação ainda não constitui uma evidência estabelecida.
IA generativa e equidade em saúde
Sistemas de reconhecimento de fala e de sumarização de textos, que constituem a base dos ambient AI scribes, apresentam desempenho variável de acordo com sotaque, idioma, nível de letramento, presença de deficiências de fala e complexidade das consultas com múltiplos participantes.
Assim, as populações que mais precisam de cuidado qualificado, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social, podem ser também aquelas com maior risco de atendimento inadequado por essas ferramentas.
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Eficiência não deve ser o único critério
A análise da IA generativa na prática clínica não deve se limitar ao tempo economizado na documentação ou ao número de consultas realizadas.
O Quintuple Aim oferece uma estrutura para avaliar se essas ferramentas melhoram a experiência do paciente, a saúde das populações, os custos da assistência, as condições de trabalho dos profissionais e a equidade em saúde.
Enquanto essas dimensões não forem avaliadas de forma consistente, ganhos operacionais não poderão ser interpretados automaticamente como melhoria do cuidado.
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Autoria

Juliana Karpinski
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