Logotipo Afya
Anúncio
Carreira5 novembro 2026

Erro de julgamento clínico: como médicos experientes lidam com a falha

Aos 67 anos, um cirurgião renomado erra uma decisão simples e precisa enfrentar o paciente, a equipe e a própria imagem.

Aos 67 anos, o cirurgião era uma referência dentro do hospital. Mais de três décadas de prática, centenas de operações complexas, ex-residentes espalhados por diferentes serviços e uma reputação construída sobre segurança e capacidade de decisão. Era a referência solicitada quando os casos se tornavam difíceis.

Por isso, talvez tenha sido tão perturbador perceber que seu erro de julgamento clínico não ocorreu durante uma cirurgia excepcionalmente complexa, mas diante de uma situação relativamente cotidiana.

O caso é fictício, elaborado para discussão educacional.

Uma paciente de 72 anos havia sido submetida a uma colectomia sem intercorrências intraoperatórias. No segundo dia de pós-operatório, apresentou taquicardia persistente, dor abdominal um pouco mais intensa e discreta piora do estado geral.

O cirurgião avaliou a paciente e interpretou os achados como parte da resposta pós-operatória associada à hipovolemia. Indicou hidratação e observação.

Um residente sugeriu ampliar a investigação e considerar tomografia de abdome. O cirurgião não viu indicação naquele momento. Conhecia aquele tipo de evolução, disse.

Algumas horas depois, porém, a paciente apresentou deterioração clínica. A tomografia demonstrou sinais compatíveis com complicação abdominal, exigindo reabordagem cirúrgica.

A paciente se recuperou. Para o médico, entretanto, o episódio não terminou na sala de operação.

“Eu nunca tinha errado assim”, disse a um colega.

A frase revelava algo maior do que a análise daquele caso. Durante décadas, sua identidade profissional havia sido construída também em torno da capacidade de reconhecer situações graves antes dos outros. O episódio ameaçava não apenas sua confiança em uma decisão, mas a imagem que tinha de si mesmo como médico e de uma reputação construída ao longo de muitos anos.

A forma de fixar a tela nas hérnias provoca mudança no padrão de dor?

Quando o medo reputacional pode levar ao silêncio

É nesse momento que surge um risco adicional: transformar o medo reputacional em silêncio.

O Código de Ética Médica estabelece que a responsabilidade profissional é pessoal e não pode ser presumida. Também veda ao médico deixar de assumir responsabilidade por atos que tenha praticado ou indicado e atribuir insucessos a terceiros sem que isso possa ser comprovado.

Ao mesmo tempo, determina o dever de informar o paciente sobre diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento.

Portanto, reconhecer que houve um desfecho adverso ou uma decisão que merece revisão não equivale, automaticamente, a emitir uma conclusão jurídica sobre negligência. Significa assumir o dever de cuidar também depois que algo não ocorreu como esperado.

Leia também: Erro médico ou complicação? Como diferenciar falhas e eventos adversos.

Como conversar com o paciente após um evento adverso

A conversa com a paciente deve partir dessa distinção. O médico pode explicar, com linguagem compreensível, o que aconteceu, qual foi sua avaliação inicial, o que posteriormente foi identificado e quais são as consequências para o tratamento.

Quando a investigação do evento ainda não estiver concluída, não é necessário especular nem antecipar causas e resultados desconhecidos.

Transparência não significa improvisar uma sentença sobre culpa, mas comunicar fatos conhecidos, reconhecer o sofrimento provocado e manter o paciente informado à medida que novas informações surjam.

Estratégias estruturadas de resposta a eventos adversos, como o modelo CANDOR da Agency for Healthcare Research and Quality, recomendam justamente comunicação transparente, investigação do evento, cuidado com paciente e profissionais envolvidos e aprendizado institucional.

Leia também: Segurança do Paciente: legislação e regulação.

Experiência clínica não elimina vieses ou decisões equivocadas

Para um médico com longa carreira, existe ainda uma segunda conversa necessária: aquela com seus pares.

A experiência é um patrimônio clínico, mas não torna ninguém imune a vieses cognitivos, pressão assistencial ou decisões equivocadas. Também não seria ético concluir que o erro ocorreu simplesmente porque o cirurgião tem 67 anos.

A análise deve se concentrar no evento:

  • Quais informações estavam disponíveis?
  • Houve ancoragem na hipótese inicial?
  • A opinião do residente foi adequadamente considerada?
  • Fadiga, carga de trabalho ou condições institucionais interferiram?
  • Havia critérios objetivos que poderiam ter acionado uma reavaliação?

É dessa revisão que nasce a prevenção.

Do erro de julgamento clínico à prevenção

O caso pode levar à adoção de gatilhos para investigação de deterioração pós-operatória, maior valorização de segunda opinião diante de discordâncias da equipe e discussão do episódio em reunião de morbidade e mortalidade com abordagem educativa, não humilhante.

O próprio Código de Ética Médica afirma que cabe ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e agir com zelo e sua melhor capacidade profissional.

Leia também: Métodos de detecção de eventos adversos em terapia intensiva.

Apoio ao médico após o erro também integra a segurança do cuidado

Também é legítimo que o cirurgião procure apoio.

Programas de resposta a eventos adversos incluem suporte aos profissionais envolvidos porque sofrimento, culpa e perda de confiança podem interferir no exercício subsequente da Medicina.

Autocuidado, nesse contexto, não significa minimizar o dano causado ao paciente. Significa impedir que vergonha, isolamento ou hipercompensação produzam novos riscos e novas sequências danosas.

Maturidade médica também é saber revisar decisões

Talvez a principal lição para os residentes esteja justamente naquele especialista que sempre pareceu infalível.

Maturidade profissional não é chegar a um ponto da carreira em que os erros deixam de existir. É conseguir reconhecê-los sem escondê-los, analisá-los sem procurar culpados convenientes e transformar uma experiência dolorosa em mudanças concretas no cuidado.

A discussão também reforça o valor de uma tomada de decisão estruturada, especialmente diante de discordâncias, sinais clínicos evolutivos ou necessidade de reavaliar uma hipótese inicial.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Relacionamento Médico-Paciente