Se você ainda não foi tentado a usar a inteligência artificial como um leigo — descrevendo sintomas, sem desenvolver o raciocínio, e esperando receber uma lista de diagnósticos certeiros —, provavelmente um dia será.
Não precisa esconder nem fingir que nunca fará isso. Quem usa IA com frequência pode, em algum momento, recorrer a esse atalho. Eu também já fiz.
O desconforto que vem depois não é apenas moral. É, principalmente, profissional.
Quando digitamos uma queixa e esperamos a resposta pronta, não estamos exercendo plenamente a medicina. Estamos fazendo algo que o próprio paciente poderia tentar realizar. E não é só isso: pense que você levou 10, 15 ou 20 anos para construir o que sabe e está deixando que uma IA faça por você — provavelmente sem fazer tão bem.

A tecnologia nunca pediu licença — e nem sempre destruiu
A imprensa de Gutenberg foi acusada de matar a memória e a escrita à mão. Não matou. Fez o oposto: retirou o conhecimento do monopólio de quem copiava manuscritos e o espalhou por um continente. Foi uma verdadeira revolução.
A escrita continuou existindo. Apenas deixou de ser o gargalo para a distribuição da informação e do conhecimento.
A calculadora prometeu acabar com o cálculo mental. Em parte, acabou mesmo: hoje, quase ninguém extrai uma raiz quadrada no papel. Mas nenhum engenheiro ficou sem emprego por isso. A calculadora deslocou o esforço humano da aritmética para a modelagem e para tarefas que exigem capacidades humanas.
E o GPS? A navegação guiada, com instruções passo a passo, recruta menos o hipocampo do que a navegação baseada em mapas mentais. Quem sempre segue a seta constrói uma representação espacial menos desenvolvida.
Ainda assim, ninguém usa o Guia Quatro Rodas para se orientar. Aceitamos a troca: perdemos parte do senso de direção e ganhamos acesso à cidade inteira.
A IA não é outra coisa senão mais uma tecnologia. Ela não vai tirar o trabalho de todos, mas ressignificará muitas atividades.
Leia mais: Diagnósticos por IA na emergência: apoio à decisão ou risco ao raciocínio clínico.
Deskilling e never-skilling na medicina
Uma revisão publicada em março de 2026 no Journal of Experimental Orthopaedics apresentou dois riscos associados ao uso da inteligência artificial. Vale a pena compreender esses conceitos.
Deskilling: quando uma competência se perde pelo desuso
O primeiro risco é o deskilling: a perda, por desuso, de uma competência que o profissional já possuía.
É o caso do endoscopista que passa a depender da detecção automática de pólipos e percebe uma queda na própria taxa de detecção quando o algoritmo é desligado.
Essa perda pode ser reversível e costuma ser percebida por quem a vivencia, porque o profissional se lembra de como atuava antes.
Leia mais: Inteligência artificial na formação médica: como preparar os futuros médicos.
Never-skilling: quando a habilidade nunca chega a ser construída
O segundo risco é mais silencioso e potencialmente mais grave: o never-skilling.
É o residente que nunca chega a adquirir determinada competência porque a terceirizou para a máquina antes de construí-la. Nesse caso, não há nada para recuperar, pois a habilidade nunca esteve presente.
Esse profissional não perdeu o raciocínio clínico. Ele simplesmente não o desenvolveu e talvez nem saiba por onde começar sem aquela “muleta” virtual.
O deskilling é uma habilidade enferrujada. O never-skilling é uma habilidade que nunca nasceu. São problemas diferentes e exigem respostas distintas.
IA no raciocínio clínico deve ampliar, não substituir
A tese central do artigo propõe uma mudança de perspectiva: em vez de discutir apenas a substituição do médico, é necessário definir onde posicionar a IA para que ela amplie a atuação profissional.
Grande parte das aplicações de IA no meio médico funciona como assistência, e não como agente autônomo. Podemos associar esse movimento ao upskilling: a tecnologia libera o médico de tarefas repetitivas — como papelada, transcrição e preenchimento do prontuário — para que ele atue em um nível mais elevado.
Isso inclui decisões complexas, excelência procedimental e empatia.
Esse avanço é positivo, mas exige uma ressalva: seus benefícios dependem de mecanismos educacionais deliberados. É preciso desenhar, estudar e utilizar comandos adequados a cada necessidade.
O aprimoramento profissional não é consequência automática da adoção da IA. É consequência de planejamento. Há um ser humano por trás de todo uso responsável da ferramenta.
Leia mais: Inteligência artificial no currículo médico
O papel da IA na formação médica
A questão central é compreender qual deve ser o papel da inteligência artificial no aprendizado acadêmico.
Usar a IA para oferecer sugestões que o estudante ou o médico deve revisar, confirmar, contestar ou comparar com o desfecho pode produzir aprendizado real.
É no ato de revisar — e não simplesmente no de receber — que o aprendizado acontece. A sugestão do algoritmo torna-se uma pergunta, não uma resposta.
Mas essa disposição está presente no estudante? Ou ele deseja apenas responder à próxima prova e seguir em frente, sem desenvolver o senso crítico necessário para avaliar a ferramenta?
O uso da IA exige competências que ainda não estão presentes em muitas grades curriculares brasileiras:
- saber operar a ferramenta;
- decidir quando ela é aplicável;
- avaliar criticamente o resultado;
- validar eticamente o que ela apresenta.
A pergunta que fica
A imprensa não substituiu quem escrevia. A calculadora não substituiu quem pensava. O GPS não substituiu quem sabe para onde está indo — apenas revelou quem nunca soube.
A IA está no lugar dela quando resume, organiza, lembra, rastreia, verifica interações e redige a evolução ditada pelo médico.
Ela sai do lugar quando raciocina pelo profissional e ele assina a resposta sem saber por que chegou àquela conclusão.
Não devemos condenar a IA como algo ruim. Ela não é.
Mas precisamos permanecer, do lado de cá da mesa, como profissionais capazes de perceber quando uma resposta aparentemente impecável — bem escrita, estruturada e confiante — está errada.
Esse profissional não se forma pelo atalho.
Afya Summit
O Afya Summit 2026 reuniu, em São Paulo, médicos e especialistas para discutir os caminhos da inovação na saúde e os impactos da tecnologia sobre a prática médica.
A programação abordou inteligência artificial, decisões orientadas por dados, comunicação e posicionamento médico no ambiente digital, liderança, protagonismo profissional e humanização do cuidado.
Ao conectar transformação tecnológica e responsabilidade clínica, o encontro reforçou que o futuro da medicina depende não apenas da adoção de novas ferramentas, mas da capacidade de integrá-las com discernimento, ética e atenção ao paciente.
Não participou desta edição? Fique atento às novidades sobre o próximo Afya Summit e acompanhe os canais da Afya para conhecer, em primeira mão, a programação, a data e as informações sobre as inscrições do próximo ano.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Ester Ribeiro
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