Era fim de plantão, mas o corredor dizia o contrário. Macas encostadas nas paredes, monitores improvisados, familiares em pé havia várias horas e uma equipe que já não perguntava se haveria leito, apenas qual paciente perderia menos com a espera.
No centro da emergência, o Dr. Álvaro, clínico experiente, avaliava Dona Célia, 72 anos, diabética, hipertensa, viúva, trazida pela filha por febre baixa, tosse e cansaço havia três dias.
A saturação era de 94% em ar ambiente, a pressão estava estável, não havia confusão mental, o lactato era normal e a radiografia mostrava infiltrado discreto em base direita. Pela estratificação clínica, o quadro parecia compatível com pneumonia de baixo a moderado risco, com possibilidade de tratamento ambulatorial, desde que houvesse retorno garantido e boa compreensão das orientações.
A filha, porém, não aceitava.
— Doutor, a senhora do lado está internada com menos que isso. Minha mãe trabalhou a vida inteira, pagou imposto, plano, tudo. Agora vão mandar para casa porque não tem cama?
A frase atravessou a sala. O residente, ao lado, olhou para o preceptor como quem perguntava sem falar: a decisão seria técnica ou administrativa?
Na tela do sistema, a resposta da regulação era a mesma havia seis horas: sem vaga clínica, sem previsão. Na sala vermelha, dois pacientes aguardavam UTI. Na observação, uma senhora com insuficiência cardíaca descompensada utilizava o último ponto de oxigênio disponível.

Falta de leitos hospitalares não pode ser o único critério
Dr. Álvaro pediu alguns minutos. Reexaminou Dona Célia, conferiu os exames, ligou para a atenção domiciliar do município e confirmou que a filha morava com a paciente e que havia telefone ativo.
Depois, voltou. Não disse apenas que não havia leito.
— Neste momento, pela avaliação clínica, sua mãe não tem critérios fortes de internação. Internar alguém também tem riscos: infecção, delirium, queda e imobilidade. O hospital está cheio, sim, mas a minha decisão não pode ser tomada apenas pela falta de cama. Ela precisa ser segura. Por isso, proponho antibiótico, hidratação, antitérmico, retorno em 24 horas ou antes, caso haja piora. Vou deixar tudo registrado e explicado.
A filha chorou, ainda desconfiada.
— E se ela piorar?
O médico respondeu sem defensiva:
— Essa possibilidade existe. Por isso, a alta médica não deve ser vista como abandono. Vou escrever os sinais de alarme, falar com a senhora sem pressa e registrar o plano. Se a saturação ficar abaixo de 92%, se ela ficar sonolenta, se a febre persistir, se a falta de ar aumentar ou se não conseguir se alimentar, vocês devem voltar imediatamente. Se, na reavaliação, ela preencher critérios, eu mesmo defenderei a internação.
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A falta de leitos pode influenciar a decisão médica?
Depois que a paciente saiu, o residente perguntou se aquela não seria uma forma elegante de racionamento.
Dr. Álvaro não negou a dureza do cenário. Explicou que a escassez de recursos existe e deve ser reconhecida, mas não pode ser escondida atrás de uma falsa certeza clínica.
A autonomia médica, prevista como princípio do exercício profissional, não autoriza arbitrariedade. Ela exige independência técnica, responsabilidade, registro adequado e compromisso com o melhor interesse do paciente.
O Código de Éttica Médica afirma que a Medicina está a serviço da saúde do ser humano e da coletividade, sem discriminação. O documento organiza o exercício profissional em princípios, direitos e deveres que incluem prudência, responsabilidade e respeito à dignidade do paciente.
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Alta segura não é sinônimo de liberação de vaga
O ponto ético central não é transformar todo paciente inseguro em paciente internado, nem converter a falta de leitos hospitalares em critério de alta.
A decisão correta nasce da integração entre:
- risco clínico;
- benefício esperado da internação;
- alternativas assistenciais disponíveis;
- capacidade de acompanhamento;
- compreensão do paciente e da família;
- comunicação honesta;
- possibilidade concreta de reavaliação.
Ao decidir não internar, o médico deve ser capaz de responder a quatro perguntas:
- O paciente está clinicamente elegível para tratamento fora do hospital?
- Há uma rede mínima de suporte?
- A família compreendeu o plano e os sinais de alarme?
- O prontuário demonstra raciocínio clínico, e não apenas a necessidade de desocupar uma vaga?
Alta médica segura é uma conduta ativa
Na formação médica, o caso ensina que alta é uma conduta, não a ausência dela.
Uma alta segura requer diagnóstico provável, estratificação de gravidade, terapêutica inicial, orientação verbal e escrita, plano de contingência e uma via concreta de reavaliação.
Também exige humildade. Diante de incerteza relevante, piora clínica, vulnerabilidade social extrema ou impossibilidade de retorno, a internação pode ser eticamente necessária mesmo em um hospital lotado.
Comunicação e registro fazem parte do cuidado
Os textos da série “Histórias de Cuidado”, do Portal Afya, reforçam justamente essa dimensão subjetiva da prática médica: por trás do diagnóstico, há medo, vínculo, linguagem e confiança.
A técnica não se opõe à empatia. Ao contrário, depende dela para ser compreendida.
Naquele plantão, Dr. Álvaro não venceu a superlotação. No entanto, ensinou algo mais útil ao residente: sob pressão, o médico não deve ser mero porteiro do hospital nem cúmplice silencioso da escassez.
Deve ser guardião de uma decisão justificável, proporcional e humana.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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