Logotipo Afya
Anúncio
Carreira28 janeiro 2026

Aprenda a reconhecer quando a liderança ultrapassa limites no hospital

Entenda quando a cobrança na formação médica vira abuso e como identificar os limites entre exigência profissional e agressividade
Por Ester Ribeiro

A residência médica não é um spa. Espero que todos que estão prestando uma residência saibam que ninguém entra nesse caminho esperando conforto, horários flexíveis ou aplausos. Por outro lado, qualquer pessoa, em qualquer área de trabalho ou doméstica, não deveria encontrar gritos, humilhações ou medo.

A linha entre autoridade e abuso, entre cobrança e desrespeito, pode ser confusa para quem não está acostumado a ter responsabilidades, mas também precisa ser bem compreendida por quem lidera e por quem é liderado.

A formação médica é, por natureza, exigente. Salvar vidas exige excelência técnica, agilidade, tomada de decisão sob pressão e muita resiliência. Ser corrigido, cobrado, ficar de plantão no final de semana, ter que revisar condutas e ouvir feedbacks diretos faz parte do processo. Mas quando a liderança ultrapassa o limite da cobrança saudável e entra no terreno da agressividade, da ameaça e do desprezo, acende-se um alerta: pode haver abuso.

 Leia mais: Aspectos da saúde mental a serem trabalhados em hospitais e clínicas

O que caracteriza uma liderança abusiva?

Nem toda cobrança é abuso. Mas há atitudes que, sim, comprometem a integridade emocional da equipe e o ambiente de trabalho. Atenção para os sinais:

  1. Clima constante de medo ou tensão
  • Médicos subordinados têm medo excessivo de errar ou de expressar opiniões, mesmo que estejam certos ou apenas em dúvidas.
  • Conversas informais são raras ou carregadas de fofocas defensivas.
  1. Assédio moral disfarçado de “pressão por resultados”
  • Gritos, humilhações públicas ou cobranças em tom agressivo. Uma boa correção é feita em privado, não de forma público em tom de chacota.
  • Comparações constantes e desnecessárias entre colegas (“Fulano faz melhor que você”).
  1. Comunicação autoritária e unilateral
  • Falta de escuta ativa.
  • Reuniões são apenas para dar ordens – apenas o chefe falar – não para ouvir ideias.
  1. Limites pessoais não são respeitados
  • Mensagens fora do expediente se tornam rotina. Os horários não são respeitados e há a impressão de estar sempre devendo algo.
  • Férias e folgas são ignoradas ou dificultadas.
  1. Desigualdade de tratamento
  • “Queridinhos” do gestor recebem vantagens não justificadas.
  • Erros de uns são punidos, de outros são ignorados.
  1. Alta rotatividade e absenteísmo
  • Colegas pedem demissão com frequência ou vivem afastados por questões emocionais.
  1. Feedbacks negativos em excesso (ou inexistentes)
  • Só se fala quando algo está errado.
  • Ou então, nunca se fala nada — o silêncio é usado como forma de controle.
  1. Falta de reconhecimento e valorização
  • Esforços extras são ignorados ou atribuídos a outras pessoas.
  • Elogios são escassos, desconfiança é constante.

 

Mas… e quando é só parte do trabalho?

Muitos residentes, especialmente nos primeiros anos, têm dificuldade de lidar com a intensidade do ambiente hospitalar. O salto da faculdade para a prática real é grande — e nem sempre dá tempo de se adaptar com calma. Por isso, também é preciso honestidade:

  • Ser cobrado para entregar um plantão bem feito não é abuso.
  • Receber feedbacks diretos sobre erros clínicos é necessário.
  • Assumir tarefas que parecem “menores” (como colher gaso, dar alta, passar visita) faz parte do seu crescimento.
  • Trabalhar sob pressão, com supervisão firme, é desejado.

A maturidade profissional também se mede pela capacidade de receber orientação sem se ofender, de assumir responsabilidades e de não esperar aplausos o tempo todo.

Então, como saber se estou sendo abusado ou apenas sendo formado?

Pergunte-se:

  • Isso está me ajudando a crescer ou me paralisando de medo?
  • Existe diálogo ou apenas ordens unilaterais?
  • Há respeito, mesmo nas correções?
  • Estou sendo tratado como alguém em formação ou como alguém descartável?

Se a resposta for sempre negativa, talvez não seja só cobrança. Mas se há espaço para escuta, mesmo com firmeza, é sinal de que você está num ambiente formativo — exigente, mas saudável.

Caminhos práticos

  1. Desenvolva autocrítica: avalie se a sua reação é proporcional ou se está sendo guiada pela insegurança comum a qualquer início.
  2. Converse com colegas mais experientes: eles podem te ajudar a interpretar melhor as situações e diferenciar exigência de desrespeito.
  3. Busque escuta institucional: quando há padrão de desvalorização e abuso, acione os canais oficiais com maturidade e provas.
  4. Aprenda a liderar com o que vive: mesmo em ambientes difíceis, há lições a serem levadas adiante. Um dia você estará no papel de líder.

Conclusão

Formar-se médico envolve aprender a agir sob pressão, aceitar correções, desenvolver autonomia e, sim, lidar com conflitos. Mas isso não significa aceitar tudo calado. O respeito deve ser base — tanto para quem cobra quanto para quem aprende. A boa liderança forma com firmeza e humanidade. A boa formação sabe ouvir, refletir e crescer com as experiências.

No fim, a pergunta-chave é: isso está me formando ou me desanimando num caminho sem esperança?
E a resposta, quase sempre, envolve escuta, maturidade e coragem de ajustar a rota — dos dois lados.

 

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Graduada em Medicina pela PUC  de Campinas. Médica Nefrologista pelo Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Título em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Gestão