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Cardiologia7 julho 2026

Qual a melhor relação risco-benefício entre prasugrel e ticagrelor?

Prasugrel e ticagrelor são comparados em meta-análise sobre MACE, trombose de stent e sangramento após ICP.
Por Ivson Braga

O prasugrel e o ticagrelor são inibidores do receptor P2Y12 que oferecem inibição plaquetária precoce e mais potente em relação ao clopidogrel. Apesar da ampla evidência de seus benefícios no tratamento das síndromes coronarianas agudas, ainda se discute se existe superioridade entre eles. Os ensaios ISAR-REACT 5 e TUXEDO-2 foram a favor de maiores benefícios com o uso do prasugrel. Já no PRAGUE-18, não houve diferenças estatisticamente significativas, o que foi justificado pela limitação do poder estatístico.

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Nesse contexto, uma revisão sistemática com meta-análise recentemente publicada, “Efficacy and Safety of Prasugrel, Ticagrelor, or Clopidogrel After Percutaneous Coronary Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis”, no JAMA Cardiology, comparou a eficácia e a segurança de prasugrel, ticagrelor e clopidogrel em pacientes submetidos à intervenção coronária percutânea (ICP). Entre os inibidores mais potentes do receptor P2Y12, qual apresenta uma relação risco-benefício mais favorável?

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A revisão sistemática incluiu 15 ensaios clínicos randomizados com mais de 48 mil pacientes. A idade média dos participantes foi de 63,2 anos, 27,3% eram mulheres, aproximadamente 94% apresentavam síndrome coronariana aguda e 28,2% eram portadores de diabetes mellitus. O seguimento médio foi de 12,1 meses. Entre os participantes, 12.120 (24,8%) receberam prasugrel, 16.049 (32,8%) ticagrelor e 20.735 (42,4%) clopidogrel.

O desfecho primário de eficácia foi a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores (MACE), enquanto o desfecho primário de segurança correspondeu ao sangramento maior. Também foram avaliados mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico, trombose de stent, hemorragia intracraniana e interrupção do tratamento por eventos adversos. As análises foram realizadas por meio de meta-análise em rede utilizando modelo de efeitos aleatórios, com os resultados expressos em odds ratio (OR) e respectivos intervalos de confiança de 95%. Adicionalmente, foi empregada análise de ranking pelo método SUCRA para estimar a probabilidade de cada estratégia terapêutica ocupar a melhor posição em relação à eficácia e à segurança.

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Como os desfechos de eficácia se comportaram?

Na análise dos desfechos de eficácia, entre os antiagregantes avaliados, o prasugrel foi o único associado à redução significativa de eventos cardiovasculares maiores. Em comparação ao clopidogrel, observou-se redução de 20% no risco de MACE (OR 0,80; IC95% 0,69–0,93), além de superioridade em relação ao ticagrelor, com redução adicional desse desfecho (OR 0,83; IC95% 0,70–0,98).

Esse benefício foi explicado principalmente pela menor incidência de infarto do miocárdio, uma vez que o prasugrel reduziu significativamente esse evento tanto em comparação ao clopidogrel (OR 0,71; IC95% 0,62–0,82) quanto ao ticagrelor (OR 0,78; IC95% 0,65–0,94). Em contrapartida, o ticagrelor não apresentou redução estatisticamente significativa desse desfecho em relação ao clopidogrel.

O prasugrel também promoveu redução expressiva da trombose de stent quando comparado ao clopidogrel (OR 0,48; IC95% 0,37–0,62), correspondendo a uma diminuição aproximada de 52% do risco. Embora o ticagrelor também tenha reduzido esse desfecho (OR 0,73; IC95% 0,59–0,91), a magnitude do benefício foi inferior, e a comparação direta entre os dois inibidores mais potentes manteve vantagem significativa para o prasugrel (OR 0,66; IC95% 0,49–0,88).

Não foram observadas diferenças significativas entre os tratamentos quanto à mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular ou acidente vascular cerebral isquêmico. Apesar de algumas análises de sensibilidade sugerirem possível benefício do ticagrelor sobre o clopidogrel em relação à mortalidade cardiovascular, esse resultado não foi confirmado na análise principal. Na classificação global dos tratamentos, o prasugrel ocupou a primeira posição para os principais desfechos isquêmicos, incluindo MACE, infarto do miocárdio e trombose de stent.

Segurança e tolerabilidade entre os antiagregantes

Quanto à segurança, apenas o ticagrelor esteve associado a aumento significativo do risco de sangramento maior, apresentando incremento de 24% em comparação ao clopidogrel (OR 1,24; IC95% 1,01–1,52). Em contraste, o prasugrel não aumentou significativamente esse risco (OR 1,08; IC95% 0,84–1,38).

O excesso de eventos hemorrágicos observado com o ticagrelor foi explicado principalmente pela maior incidência de hemorragia intracraniana, cujo risco foi aproximadamente 89% superior ao observado com clopidogrel (OR 1,89; IC95% 1,08–3,33). Não houve diferença significativa entre prasugrel e clopidogrel para esse desfecho. Além disso, o ticagrelor esteve associado a maior taxa de interrupção do tratamento por eventos adversos, com risco mais de duas vezes superior ao do clopidogrel (OR 2,07; IC95% 1,20–3,56), enquanto o prasugrel não apresentou aumento significativo nesse desfecho.

O que a relação risco-benefício sugere para a prática?

Considerando conjuntamente os resultados de eficácia e segurança, o prasugrel apresentou o perfil mais equilibrado entre proteção contra eventos isquêmicos e risco hemorrágico. O clopidogrel permaneceu como o tratamento com melhor desempenho nos desfechos de segurança, ao passo que o ticagrelor apresentou os resultados menos favoráveis quanto ao risco de sangramento e à tolerabilidade.

Em conjunto, esta meta-análise representa a avaliação mais abrangente disponível sobre a comparação entre os três principais inibidores do receptor P2Y12 após intervenção coronária percutânea. Os resultados indicam que o prasugrel foi o único agente associado à redução de eventos cardiovasculares maiores, infarto do miocárdio e trombose de stent, sem aumento significativo de sangramento maior. Em contrapartida, o ticagrelor não reduziu MACE em relação ao clopidogrel e esteve associado a maior incidência de sangramento maior, hemorragia intracraniana e interrupção do tratamento por eventos adversos.

Dessa forma, os achados reforçam os benefícios previamente sugeridos pelos estudos ISAR-REACT 5 e TUXEDO-2 e indicam que, entre os antiagregantes de terceira geração, o prasugrel apresentou a relação entre eficácia e segurança mais favorável, enquanto o clopidogrel manteve o melhor perfil de segurança e menor custo.

 

Autoria

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Ivson Braga

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Residência em Cardiologia pela Universidade de Pernambuco (UPE). Professor universitário e coordenador da Residência em Cardiologia.

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