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Clínica Médica18 abril 2026

ACP 2026: Terapia antiplaquetária na doença arterial coronariana - o que mudou?

Guia prático atualizado sobre antiagregantes após SCA e ICP, com foco em risco de sangramento e anticoagulação concomitante.

Em aula apresentada no ACP Internal Medicine Meeting 2026, o Dr. Stanislav Henkin, da Mayo Clinic, revisou as principais evidências sobre o uso de antiagregantes plaquetários em pacientes com doença arterial coronariana. O foco esteve em decisões que mudam a conduta: quando iniciar, como desescalonar e como reduzir o risco de sangramento sem perder proteção isquêmica.

Por que isso importa

A dupla antiagregação plaquetária (DAPT) salva vidas após síndrome coronariana aguda, mas também aumenta o risco de sangramento grave. O equilíbrio entre proteção trombótica e exposição hemorrágica exige abordagem individualizada, considerando o perfil do paciente, o tipo de apresentação clínica e o contexto do procedimento realizado. Sem uma estratégia estruturada, o resultado pode ser tanto trombose de stent quanto hemorragia com impacto direto na mortalidade.

Antiagregação inicial na SCA

Na SCA sem supradesnivelamento do ST, o esquema preferencial antes da cinecoronariografia é aspirina 325 mg + ticagrelor 180 mg. O ticagrelor se destaca pela maior potência e pelo perfil de segurança em relação ao clopidogrel, além de não criar a mesma limitação do prasugrel caso o paciente precise de cirurgia de revascularização.

O prasugrel segue contraindicado em pacientes com histórico de AVC ou AIT, enquanto o clopidogrel permanece como primeira escolha quando a estratégia for trombólise. Na manutenção, a aspirina deve ser mantida em 81 mg/dia, já que não houve diferença relevante em mortalidade, IAM, AVC ou sangramento em comparação com 325 mg no estudo ADAPTABLE.

DAPT por 12 meses ainda é o padrão

Após SCA, o regime padrão continua sendo DAPT por 12 meses. O estudo CURE mostrou redução relativa de 20% no risco combinado de IAM, AVC e morte cardiovascular com a adição de clopidogrel à aspirina por até um ano, embora às custas de aumento de 38% no risco de sangramento maior. Esse balanço ajuda a definir quando manter o padrão e quando considerar desescalonamento em pacientes com maior risco hemorrágico.

Estratégias para reduzir o risco hemorrágico

Em pacientes com risco de sangramento mais alto, a retirada precoce da aspirina pode ser considerada. No estudo T-PASS, a suspensão da aspirina após 1 mês e manutenção de ticagrelor em monoterapia esteve associada a maior benefício clínico líquido e menor sangramento maior em comparação com o esquema convencional de 12 meses.

Outro ponto prático importante é a adição de inibidor de bomba de prótons em pacientes com risco gastrointestinal aumentado. O estudo COGENT mostrou que o omeprazol reduz hemorragia digestiva sem aumentar eventos cardiovasculares.

Anticoagulação crônica e tripla terapia

Quando o paciente já usa anticoagulante por fibrilação atrial, prótese valvar ou tromboembolismo venoso e precisa de antiagregação após ICP, a tripla terapia representa o cenário de maior risco hemorrágico. A estratégia atual é minimizar essa exposição. Nesses casos, a aspirina deve ser suspensa em 1 a 4 semanas, mantendo-se clopidogrel como inibidor do P2Y12 de escolha, já que prasugrel e ticagrelor aumentam mais o sangramento. Sempre que possível, os NOACs são preferíveis ao antagonista da vitamina K.

O estudo AFIRE reforçou essa lógica ao mostrar que, após 1 ano de ICP em pacientes com fibrilação atrial, a rivaroxabana em monoterapia foi superior à terapia combinada, com menos sangramento maior e menos eventos cardiovasculares.

O que muda no consultório

Na prática, quatro decisões se destacam: usar aspirina 81 mg na manutenção, considerar desescalonamento da DAPT após 1 mês em pacientes com alto risco hemorrágico, associar IBP quando houver risco gastrointestinal e suspender a aspirina precocemente em quem faz DAPT junto com anticoagulação oral. Mais do que seguir esquemas fixos, o objetivo passa a ser ajustar intensidade e duração da terapia ao perfil real de risco de cada paciente.

Autoria

Foto de Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella

Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.

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