A nova Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) atualiza a abordagem das doenças cardiovasculares na população idosa, incorporando evidências recentes e valorizando uma avaliação que ultrapassa a idade cronológica.
O documento sucede a atualização de 2019 e estabelece como princípio central a individualização das decisões terapêuticas conforme fragilidade, funcionalidade, cognição, multimorbidade, expectativa de vida e preferências do paciente.
Uma das novidades estruturais é a inclusão de um capítulo específico sobre síncope na pessoa idosa. A diretriz também enfatiza a integração entre cardiologia e geriatria, com participação multidisciplinar e decisões compartilhadas.

Avaliação cardiovascular da pessoa idosa
A avaliação geriátrica ampla (AGA) é um dos principais pilares do documento. A presença de doença cardiovascular, isoladamente, não determina a intensidade do tratamento. É necessário identificar fatores que modificam o benefício esperado, o risco de complicações e a capacidade de recuperação após intervenções.
A avaliação deve contemplar:
| Domínio | Aspectos avaliados |
| Fragilidade | Reserva fisiológica, vulnerabilidade e risco de eventos adversos |
| Funcionalidade | Independência para atividades básicas e instrumentais |
| Cognição | Comprometimento cognitivo e capacidade de participação nas decisões |
| Nutrição | Desnutrição, perda ponderal e sarcopenia |
| Multimorbidade | Interação entre doenças e prioridades terapêuticas |
| Polifarmácia | Interações, efeitos adversos e adequação das prescrições |
| Contexto social | Rede de apoio, cuidador e acesso ao tratamento |
A identificação dessas condições permite reconhecer pacientes que podem se beneficiar de tratamentos intensivos e aqueles nos quais a estratégia deve priorizar segurança, preservação funcional e qualidade de vida.
Implicação prática: dois pacientes de 85 anos com a mesma doença cardiovascular podem ter indicações terapêuticas distintas conforme seu estado funcional, fragilidade e prognóstico global.
Fragilidade, funcionalidade e polifarmácia
A fragilidade é uma condição de maior vulnerabilidade a eventos adversos decorrente da redução das reservas fisiológicas. Não deve ser confundida com idade avançada, multimorbidade ou incapacidade funcional, embora frequentemente coexistam.
Sua identificação é especialmente relevante antes de procedimentos invasivos, internações e decisões terapêuticas complexas.
Na prática, podem ser utilizados instrumentos como a Clinical Frailty Scale (CFS), o fenótipo de Fried e escalas multidimensionais, conforme o contexto clínico. A avaliação deve considerar também velocidade da marcha, força muscular, quedas, perda de peso e dependência funcional.
A polifarmácia constitui outro desafio central. A revisão periódica das prescrições deve identificar medicamentos sem indicação atual, duplicidades terapêuticas, interações, efeitos adversos e oportunidades de desprescrição. O objetivo não é simplesmente reduzir o número de medicamentos, mas preservar aqueles com benefício clínico relevante.
Ponto importante: a fragilidade deve modificar a avaliação de riscos e benefícios, mas não deve ser utilizada isoladamente para negar tratamentos potencialmente benéficos.
Prevenção cardiovascular no idoso
A prevenção cardiovascular exige ponderar o risco absoluto de eventos, a expectativa de vida, o tempo necessário para obter benefício terapêutico e a possibilidade de efeitos adversos.
Na prevenção primária, a idade elevada aumenta o risco cardiovascular estimado, mas também reduz a precisão de algumas ferramentas tradicionais de estratificação. A presença de fragilidade, limitações funcionais e multimorbidade deve participar da decisão.
A diretriz dedica atenção à investigação de aterosclerose subclínica, ao escore de cálcio coronariano, à prevenção primária da dislipidemia e ao papel da angiotomografia de coronárias.
O escore de cálcio pode contribuir para esclarecer decisões terapêuticas em situações selecionadas, mas sua interpretação requer cautela, já que a calcificação coronariana é muito prevalente em idades avançadas. Um resultado positivo não determina automaticamente a necessidade de investigação invasiva ou de tratamento adicional.
Também são abordados como componentes da prevenção a atividade física, a vacinação, o estado nutricional e o manejo adequado das doenças metabólicas.
Doença arterial coronariana no idoso
A diretriz aborda separadamente a doença coronariana crônica e as síndromes coronarianas agudas, destacando as particularidades diagnósticas e terapêuticas da população idosa.
Na doença coronariana crônica, a investigação deve considerar a capacidade funcional, as limitações dos testes provocativos, as comorbidades e a possibilidade de diagnósticos alternativos para os sintomas.
A decisão de revascularização deve integrar a extensão da doença, a intensidade dos sintomas, a resposta ao tratamento clínico, o risco do procedimento e a expectativa de benefício. Fragilidade e risco de perda funcional precisam ser avaliados antes da intervenção.
Nas síndromes coronarianas agudas, o documento contempla apresentações clínicas, biomarcadores, tratamento antitrombótico, fibrinólise, intervenção coronariana percutânea e cirurgia de revascularização.
Um aspecto particularmente relevante é o equilíbrio entre proteção isquêmica e risco hemorrágico, sobretudo em pacientes com insuficiência renal, anemia, fragilidade ou necessidade concomitante de anticoagulação.
Insuficiência cardíaca no idoso
A insuficiência cardíaca apresenta desafios diagnósticos específicos no envelhecimento. Dispneia, intolerância ao exercício, fadiga e edema podem coexistir com doenças pulmonares, anemia, descondicionamento físico e limitações osteoarticulares.
A diretriz discute a interpretação dos peptídeos natriuréticos, o papel do ecocardiograma e as dificuldades para diagnosticar insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.
No tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, são abordados os quatro pilares farmacológicos, com atenção especial à tolerabilidade no paciente idoso.
| Classe terapêutica | Principal cuidado geriátrico |
| IECA/BRA/ARNI | Hipotensão, função renal e potássio |
| Betabloqueadores | Bradicardia, hipotensão e tolerabilidade à titulação |
| Antagonistas mineralocorticoides | Hipercalemia e deterioração da função renal |
| Inibidores de SGLT2 | Estado volêmico, função renal e tolerabilidade |
| Diuréticos | Hipovolemia, distúrbios eletrolíticos e hipotensão |
A presença de idade avançada não constitui, isoladamente, contraindicação às terapias modificadoras de prognóstico. Entretanto, a velocidade de titulação, a intensidade da monitorização e os objetivos terapêuticos devem ser individualizados.
Hipertensão arterial no idoso
O envelhecimento vascular está associado ao aumento da rigidez arterial, à elevação da pressão sistólica e ao alargamento da pressão de pulso. Ao mesmo tempo, alterações autonômicas e redução da sensibilidade barorreflexa aumentam a vulnerabilidade à hipotensão ortostática.
A avaliação deve incluir medidas adequadas da pressão arterial, considerando a utilidade da monitorização ambulatorial ou residencial e a investigação de hipotensão postural.
A diretriz dedica atenção específica à escolha dos anti-hipertensivos, às metas terapêuticas e às situações em que o tratamento pode aumentar o risco de eventos adversos, como demência, fragilidade, polifarmácia e pressão diastólica muito baixa.
Implicação prática: o controle pressórico deve buscar proteção cardiovascular sem comprometer perfusão, segurança e autonomia. As metas numéricas e os ajustes para diferentes perfis de fragilidade precisam ser extraídos das tabelas específicas da diretriz.
Valvopatias na população idosa
A doença valvar degenerativa representa parcela importante da morbidade cardiovascular no envelhecimento, especialmente a estenose aórtica e a insuficiência mitral.
A diretriz incorpora a avaliação de fragilidade, expectativa de vida, anatomia e risco de intervenção à escolha entre procedimentos cirúrgicos e transcateter.
Na estenose aórtica, a decisão entre substituição valvar cirúrgica e TAVI deve ser compartilhada no contexto do Heart Team. Há preferência condicional por TAVI em pacientes mais idosos ou com risco cirúrgico aumentado, enquanto a cirurgia permanece preferível em pacientes mais jovens, com maior expectativa de vida ou anatomia desfavorável à intervenção transcateter.
Quanto à escolha da prótese cirúrgica, o documento sugere preferência por biopróteses em pacientes acima de 65 anos, individualização entre 50 e 65 anos e preferência por próteses mecânicas em pacientes mais jovens selecionados.
A diretriz também aborda insuficiência mitral primária e secundária, métodos de imagem, intervenções transcateter e a influência da fragilidade nos resultados.
Arritmias e síncope
A inclusão de um capítulo específico sobre síncope representa uma das novidades da diretriz de 2026.
Na pessoa idosa, a investigação deve considerar a possibilidade de mecanismos concomitantes, incluindo hipotensão ortostática, efeitos medicamentosos, alterações autonômicas e causas cardíacas.
A avaliação inicial deve integrar história clínica, exame físico, aferição da pressão arterial em diferentes posições e eletrocardiograma, com investigação adicional direcionada pelos achados e pelo risco clínico.
O documento também contempla as taquiarritmias e outras alterações do ritmo, considerando as particularidades do envelhecimento cardiovascular.
Como aplicar a diretriz na prática
Primeiro: caracterizar o paciente. Avaliar doença cardiovascular, fragilidade, cognição, funcionalidade e multimorbidade.
Segundo: estimar riscos e benefícios. Considerar prognóstico, efeitos adversos, tempo até o benefício e impacto na autonomia.
Terceiro: decidir conjuntamente. Incorporar preferências do paciente, suporte familiar e objetivos de cuidado.
Quarto: reavaliar continuamente. Revisar prescrições, tolerabilidade, capacidade funcional e necessidade de novas intervenções.
Considerações finais
A Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria 2026 reforça a transição de uma abordagem centrada exclusivamente na doença para um modelo orientado pelas características e prioridades da pessoa idosa. O objetivo é proporcionar tratamentos cardiovasculares eficazes sem desconsiderar a fragilidade, a funcionalidade e a qualidade de vida.
Autoria

Juliana Avelar
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.
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