Apesar de esforços consideráveis, a taxa de sobrevivência para parada cardiorrespiratória extra-hospitalar até a alta hospitalar continua extremamente baixa, variando de 8,6% para 9,9%. A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) eficaz tornou-se um foco central de pesquisas, com estudos indicando que o aumento da participação de espectadores e a desfibrilação precoce estão associados a melhores taxas de sobrevivência. Consequentemente, a atenção voltou-se para aprimorar o reconhecimento da parada cardíaca, expandir a educação pública sobre RCP e promover o uso de desfibriladores externos automáticos (DEAs).
Apesar dos investimentos substanciais em treinamentos públicos, as taxas de RCP realizada por espectadores permanecem decepcionantemente baixas. Desde que o conceito foi documentado pela primeira vez em 2007, os aplicativos móveis vêm sendo cada vez mais reconhecidos por seu potencial para enfrentar esses desafios. Essas tecnologias utilizam recursos de smartphones, como localização móvel e serviços de mensagens curtas, para notificar prontamente voluntários próximos a fornecer RCP ou assistência com DEA antes da chegada dos serviços médicos de emergência.
Diante do surgimento de novas evidências nos últimos anos, foi publicada uma meta-análise que teve como objetivo revisar as características técnicas dos aplicativos móveis e avaliar seu impacto nos desfechos de pacientes com PCR extra-hospitalar sob diferentes estratégias de resposta emergencial. Foram incluídos 25 estudos.
Entre 2006 e 2021, diversos aplicativos móveis foram desenvolvidos em países como Holanda, Suécia, Estados Unidos e China. Ao detectar uma PCR, esses aplicativos enviavam alertas para voluntários próximos via smartphones, com três sistemas utilizando mensagens de texto, oito baseando-se em aplicativos móveis e dois migrando de mensagens de texto para notificações em aplicativos.
A localização dos voluntários era determinada por GPS. Os alcances dos alertas variaram entre 300 e 5.000 metros, com cada incidente gerando entre duas e 30 notificações. O alcance para recuperação de DEA se estendia até 750 metros, exibindo as localizações dos DEAs disponíveis nas proximidades.
A mobilização dos voluntários ocorreu por meio de três abordagens:
- Resposta prioritária à RCP: Voluntários eram enviados prioritariamente ao local da parada cardíaca para administrar a RCP, ocasionalmente buscando um DEA quando necessário. Isso reduziu significativamente os tempos de resposta e acelerou o início da RCP.
- Prioridade na recuperação do DEA: Os voluntários mais próximos eram priorizados para buscar um DEA antes de se dirigirem ao local do incidente, enquanto outros respondentes focavam no paciente. Isso garantiu um rápido acesso ao equipamento de desfibrilação.
- Resposta coordenada em equipe: Equipes de voluntários eram organizadas para dividir as tarefas entre ressuscitação no local e recuperação do DEA, facilitando uma resposta coordenada e eficiente à emergência.
A taxa mediana de ativação foi de 35,3%, com 53,3% dos voluntários chegando ao local do incidente. A Dinamarca demonstrou um desempenho excepcional, com mais de 85,1% dos voluntários chegando antes dos serviços médicos de emergência.
Resultados
Doze estudos demonstraram uma melhora significativa na taxa de sobrevivência até a alta hospitalar ou em 30 dias com a ativação dos aplicativos móveis. A resposta coordenada em equipe apresentou taxas significativamente mais altas.
Houve uma melhora significativa nas taxas de retorno à circulação espontânea (RCE) com a ativação dos aplicativos móveis (24,8% vs. 22,0%; RR = 1,23, IC 95%: 1,09–1,40; P < 0,05).
A análise estratificada por tipo de aplicativo revelou que aplicativos para smartphones melhoraram significativamente as taxas de sobrevivência até a alta hospitalar, as taxas de RCP por espectadores e as taxas de desfibrilação, em comparação com sistemas baseados em mensagens de texto.
A análise de subgrupos revelou que os aplicativos móveis com GPS tiveram um impacto significativo na melhora das taxas de sobrevivência até a alta hospitalar. Em contrapartida, os sistemas sem GPS demonstraram benefícios notáveis no aumento das taxas de RCP por espectadores. No entanto, nenhum dos grupos apresentou diferença significativa nas taxas de desfibrilação por espectadores em comparação com os serviços médicos de emergência.
Essa discrepância pode ser atribuída à baixa efetividade da desfibrilação em áreas com uso relativamente reduzido de DEAs. Além disso, fatores como a falta de conscientização pública sobre o uso do DEA e a disponibilidade insuficiente desses dispositivos podem impactar negativamente os desfechos de desfibrilação.
Outro fator limitante é que, devido a restrições de privacidade, a maioria dos sistemas não consegue rastrear voluntários em tempo real, dependendo de endereços residenciais ou de contato pré-registrados para emitir alertas. Isso pode comprometer a precisão e a confiabilidade das respostas.
Influência do raio de ativação dos voluntários
A análise estratificada com base no raio de ativação dos voluntários revelou que aplicativos móveis com um raio de alerta de ≤ 500 m melhoraram significativamente as taxas de sobrevivência e as taxas de RCP por espectadores. Já aplicativos com um raio de alerta superior a 500 m foram associados a um aumento significativo nas taxas de RCE.
Atualmente, não há um consenso internacional sobre o número ideal de voluntários ativados ou sobre o raio de ativação mais eficaz. Estudos existentes relatam um raio mínimo de ativação de 300 m e um máximo de 5.000 m.
Limitações
Os principais desafios desta pesquisa incluem:
- Heterogeneidade entre os estudos – As diferenças no desenho dos estudos, características populacionais e metodologias contribuíram para a variabilidade nos resultados da metanálise.
- Risco de viés – Apesar do uso de avaliações rigorosas do risco de viés, alguns estudos apresentaram riscos moderados ou altos, o que pode ter afetado a qualidade global das evidências.
Diante disso, pesquisas futuras devem priorizar a realização de estudos padronizados e de alta qualidade para fortalecer a confiabilidade dos achados e fornecer diretrizes mais robustas para a implementação de aplicativos móveis no atendimento a PCR extra-hospitalar.
Conclusão
Os resultados destacaram o potencial significativo de aplicativos para melhorar as intervenções realizadas por espectadores em PCR extra-hospitalar e os desfechos dos pacientes. Além disso, os achados fornecem direcionamentos valiosos para enfrentar desafios, como o aumento do acesso a DEAs e a conscientização pública sobre primeiros socorros.
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