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CardiologiaABR 2024

Ressuscitação cardiopulmonar: apenas compressões ou compressões e ventilação? 

Estudo sueco avaliou a hipótese de que ressuscitação cardiopulmonar (RCP) apenas com compressões torácicas é não inferior à RCP padrão
A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) aumenta a sobrevida após parada cardiorrespiratória (PCR) extra-hospitalar. O atendimento inicial é feito de acordo com o suporte básico de vida (SBV), que compreende a realização de compressões torácicas e ventilações de resgate.  Existem algumas preocupações em relação à realização de ventilações boca a boca por leigos, que acabam se tornando uma barreira ou atrasando o início da RCP. Assim, começou-se a realizar RCP apenas com compressões (hands-only) por leigos não treinados e essa passou ser a recomendação. Esse tipo de atendimento é mais fácil, tanto de ensinar quanto realizar e tem sido associado a melhores resultados da RCP e sobrevida geral. Porém, um ponto negativo pode ser a dessaturação mais rápida e hipóxia cerebral.  Estudos observacionais sobre o assunto mostraram resultados controversos e uma metanálise de três estudos randomizados parece favorecer a ressuscitação cardiopulmonar (RCP) com compressões apenas. Porém, nenhum estudo randomizado comparou o impacto desse atendimento em sobrevida. Recentemente foram publicados resultados de um estudo piloto sobre o assunto. Abaixo seguem os principais pontos.  

Métodos do estudo e população envolvida 

O estudo TANGO2 é estudo randomizado 1:1, aberto, multicêntrico, realizado na Suécia, com hipótese de que RCP apenas com compressões torácicas por pessoas leigas treinadas é não inferior à RCP padrão no desfecho de sobrevida em 30 dias. Foi feito então um estudo piloto que avaliou a segurança, factibilidade e desfechos intermediários.  Na Suécia, a incidência anual de PCR extra-hospitalar é 56/100.000 e o treinamento do SBV é obrigatório nas escolas desde 2011, com o ensino de RCP padrão (30 compressões intercaladas com duas ventilações). Porém, desde 2011, quando o contato telefônico é feito com o serviço de emergência e a vítima encontra-se inconsciente e com respiração anormal, orienta-se início da RCP com compressões apenas (exceto nos casos de suspeita de asfixia ou PCR em crianças).  A partir daí 2 ambulâncias com enfermeiros treinados em emergência e anestesiologia são encaminhados ao local para assistência de suporte avançado de vida. Em algumas áreas o atendimento é iniciado por bombeiros ou policiais treinados em SBV.   Para a realização do estudo foram incluídos todos os atendimentos que preenchiam todos os critérios: PCR presenciada, pessoa treinada no local, vítima maior de 18 anos, causa clínica provável (ausência de trauma, afogamento, asfixia, intoxicação ou gestação). O paciente era então randomizado para o grupo intervenção (apenas compressões) ou controle (compressões intercaladas com ventilações). O atendimento era acompanhado por telefone e mantido até a chegada da ambulância.    Os objetivos do estudo foram avaliar a factibilidade do estudo maior, segurança e desfecho clínico de sobrevida em um dia. 

Resultados 

Durante o período do estudo houve 11.838 ligações, sendo randomizadas 1.250 pacientes (640 no grupo intervenção e 610 do grupo controle). A idade média foi de 73 anos no grupo intervenção e 74 no grupo controle e a proporção de mulheres foi de 35,8% e 34% respectivamente.  Em relação ao atendimento, a ocorrência de PCR ocorreu em casa em 72,9% e 69,5%, o tempo para chegada do serviço de emergência foi de 12 e 11,6 minutos, o início da RCP ocorreu em 90,4% e 88,7% e o número de pessoas com taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular foi de 27,9% e 29,9% nos grupos intervenção e controle respectivamente.   Em relação a segurança, o tempo médio desde a ligação até o início da RCP foi 1,5 e 1,7 minutos, o tempo para enviar a ambulância de 1,6 e 1,5 minutos, o tempo da ligação para a primeira checagem das instruções de compressão foi de 3,4 e 3,5 minutos e o tempo médio para a randomização foi 4,5 e 4,6 minutos nos grupos intervenção e controle respectivamente. Houve algumas inclusões de pacientes com asfixia, trauma ou intoxicação (4,8%).  O número de sobreviventes após um dia foi 29,5% no grupo intervenção e 28,9% no controle.  Veja mais: Pulmão versus Coração: quem é o culpado pela dispneia? [VIDEOCAST]

Estudo sobre ressuscitação cardiopulmonar (RCP): comentários e conclusão 

Esse estudo piloto de não inferioridade mostrou que um estudo maior é factível, com randomização possível e segura. Não houve diferença no tempo para enviar as ambulâncias, para orientar a RCP e na proporção de sobreviventes em um dia.   Algumas limitações são que o número de ligações no período foi menor que o esperado, porém pode ter ocorrido um problema de screening e inclusão, o que pode levar a viés de seleção. Pode ser que tenha sido incluído apenas quem tinha treinamento e sabia como agir na situação.   No geral, o início para ressuscitação cardiopulmonar (RCP) foi mais longo que o esperado e pode ser que tenha havido tempo perdido na detecção da PCR ou barreiras da própria ligação ou da língua. O início da RCP antes da ligação ocorreu apenas em 10% dos casos, que pode ter sido em decorrência de o socorrista aguardar a confirmação via telefone para começar o atendimento. Além disso, houve quase 20% de crossover entre os grupos.  Em relação a segurança, os tempos foram aceitáveis e não foi maior em um grupo comparado ao outro. A proporção de pacientes com asfixia, intoxicação ou trauma ocorreu, mas foi baixa e já esperada, já que em algumas situações é difícil definir a causa da PCR.  O estudo piloto mostrou que esse é um estudo factível e seguro e os pacientes seguem sendo inclusos com objetivo de avaliar se há diferença na sobrevida em 30 dias entre as duas técnicas. Algumas medidas foram tomadas para otimizar o screening e incluir mais pacientes, além de tentar reduzir o crossover.
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Referências bibliográficas

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