Um detalhe que torna a medicina especial é reparar em uma sala de aula da faculdade, algumas delas com mais de cem alunos reunidos, como cada colega da turma pensa, aprende e age de um jeito individual. Algumas pessoas aprendem melhor ouvindo, outras precisam desenhar para entender ou precisam de um tempo maior para organizar as ideias, e algumas até funcionam melhores em ambientes caóticos.
Isso não é um problema. Trata-se de uma variação natural das formas de funcionamento neurológico — todas igualmente válidas. Essa pluralidade recebe o nome de neurodiversidade.
Condições como autismo, TDAH, dislexia, discalculia, síndrome de Tourette e outras diferenças cognitivas e comportamentais que, embora algumas vezes sejam estigmatizadas como deficiências, podem trazer habilidades valiosas, principalmente dentro de ambientes como a medicina, que são tão complexos.
Um artigo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) reforça isso. Os autores Hamilton, Williams e Brodkin apresentam um ponto de vista sobre os passos, ainda pequenos, que têm sido dados em direção à inclusão de profissionais neurodivergentes na Medicina.

Por que incluir a neurodiversidade é bom para a Medicina?
Equipes diversas são melhores para resolver problemas
Ambientes com profissionais que enxergam o mundo de formas diferentes costumam ser mais criativos na solução de problemas. Um residente com TDAH, por exemplo, pode ter raciocínio rápido em situações de emergência, ou uma colega com autismo pode ser mais atenta aos detalhes na revisão de prontuários.
Maior conexão com os pacientes
Pacientes com autismo, TDAH ou dislexia, por exemplo, muitas vezes se sentem mais compreendidos quando atendidos por médicos que compartilham experiências parecidas. Isso cria confiança e melhora a comunicação.
Maior sensibilidade para exclusões
Quem vive na pele o desafio de “ser diferente” tem mais sensibilidade para perceber injustiças intencionais e inadvertidas que acontecem no ambiente de trabalho.
O papel das escolas médicas
Para que a neurodiversidade seja mais bem acolhida na medicina, precisamos começar por mudanças na base da formação. Algumas sugestões práticas sugeridas por Hamilton, Williams e Brodkin são:
- Avaliar não só pelas notas. Não dá para resumir o potencial de alguém só por notas ou provas. É preciso olhar para a trajetória pessoal, os desafios superados, os talentos individuais de cada estudante.
- Oferecer suporte real. Adaptações acadêmicas devem ser mais do que o tempo extra de prova. Pode ser um acompanhamento com tutor, ajustes no ambiente de prova, acesso a recursos visuais ou auditivos, entre outros.
- Incluir a neurodiversidade no currículo. Falar sobre o tema ajuda a diminuir o preconceito e prepara futuros médicos para lidarem melhor com pacientes e colegas neurodivergentes.
Ainda há desafios a superar
Incluir a neurodiversidade na medicina exige algumas mudanças. Hamilton, Williams e Brodkin explicam que um dos grandes obstáculos ainda é o estigma. Muitos médicos ou estudantes neurodivergentes acabam escondendo seus diagnósticos com medo de serem julgados, excluídos ou vistos como menos capazes. Isso acaba afetando sua autoestima, saúde mental e até desempenho profissional.
Além disso, ainda existem dificuldades em adaptar a formação médica, que exige multitarefa, inteligência emocional, comunicação empática e assimilação rápida de grandes volumes de informação. Vale refletir se todas essas habilidades precisam ser exercidas da mesma forma por todos.
Um estudante com dislexia, por exemplo, pode não ter o melhor desempenho em provas longas, mas pode ser muito bom em atendimentos clínicos, com mais empatia e escuta atenta. Um residente com TDAH talvez precise de estratégias de organização mais visuais, mas pode se sair bem em situações que precisam de pensamento mais rápido.
Conclusão
Reconhecer a neurodiversidade é permitir que diferentes talentos ocupem seu espaço na medicina. Nem todos os profissionais precisam se destacar em todas as áreas para serem bons médicos.
Ao abrir espaço para múltiplas formas de pensar e aprender, fortalecemos equipes, ampliamos a qualidade do cuidado e tornamos a profissão mais inclusiva, humana e preparada para lidar com a complexidade da vida real.
Autoria

Juliana Karpinski
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