Um grupo internacional de médicos, enfermeiros e pacientes, se reuniram para criar novas recomendações em relação ao jejum pré-operatório levando em consideração uma maior segurança e conforto para os pacientes que seriam submetidos a um procedimento anestésico.
Eles reviram evidências e realizaram um consenso onde foi reunido oito recomendações principais baseadas principalmente no fato de pacientes serem orientados a permanecer em jejum por períodos muito longos e desnecessários antes de um procedimento anestésico, com o intuito de promover proteção das vias aéreas contra uma possível broncoaspiração do conteúdo gástrico quando submetidos a níveis variados de sedação ou anestesia geral.
Em revisões científicas foram relatados períodos de jejum prolongados de 14 horas para alimentos sólida e de 9 horas para líquidos, muito além dos períodos usualmente recomendados pelas sociedades médicas atuais (6 a 8 horas e 2 horas respectivamente) o que poderia levar a sensação de fadiga, sede, ansiedade e fraqueza por parte dos pacientes, fatores estes que poderiam afetar a recuperação pós-operatória e alta hospitalar.
Períodos muito prolongados de jejum, especialmente de líquidos podem ser prejudiciais aos pacientes por comprometerem o metabolismo e a resposta inflamatória pós-operatória, por retardarem a função intestinal, por aumentarem casos de delírio pós-operatório e por diminuírem a força muscular e consequentemente a deambulação precoce, prejudicando a recuperação hospitalar.
Alguns centros ao longo do mundo já utilizam tempos de jejum mais otimizados em suas rotinas dependendo de cada caso e condição clínica de cada paciente e já foi observado que complicações graves como broncoaspiração são consideradas raras, com uma incidência de 2 a 3 casos por 10.000 casos com uma mortalidade de 0,1 para 10.000 casos.
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Método
Foram convidados 110 participantes divididos entre médicos, enfermeiros e pacientes que participaram de três rounds de análise, sendo 68 participantes no primeiro round, 67 no segundo e 40 no terceiro. O primeiro e segundo round constava em uma pesquisa eletrônica anônima com análise de recomendações sugeridas e o terceiro round constava em uma reunião presencial via plataforma digital onde as recomendações seriam analisadas e discutidas com a presença de um moderador experiente no tema.
Ao final uma lista de recomendações foi preparada baseada em todas as informações colhidas, discutidas e aceitas nos três rounds.
Resultados
No primeiro round foram apresentadas 13 recomendações para o jejum pré-operatório, sendo 9 recomendações aceitas e levadas para o segundo round. Após o segundo round, apenas 8 orientações foram colocadas como de maior relevância e estabelecidas como recomendações finais com um nível de aprovação entre 89 a 100% dos participantes.
Essas recomendações foram aplicadas exclusivamente a pacientes adultos que receberiam anestesia geral ou sedação para cirurgias eletivas, excluindo condições específicas de maior risco, como cirurgias onde é necessário o preparo de cólon, e pacientes que apresentassem condições clínicas que levassem ao maior risco de broncoaspiração, como refluxo grave. Nesses cenários, cada caso deveria ser analisado de forma isolada.
Também foi levado em consideração o fato de o tempo de esvaziamento gástrico diferir entre cada paciente, sendo mais rápido em pacientes jovens e adultos saudáveis, mas podendo ser mais demorado em pacientes com diabetes ou gastroparesia, por exemplo. Nesses casos também, as recomendações deveriam ser revistas e reconsideradas caso a caso.
Recomendações
Jejum de 6 horas para sólidos e de 8 horas para refeições maiores e com mais gordura.
Jejum de 6 horas para líquidos não claros como leite, derivados do leite e dietas enterais. Pacientes que estão sob nutrição enteral, não precisam ter a sua alimentação suspensa, desde que tenham uma via aérea segura com traqueostomia ou tubo traqueal.
Jejum de 2 horas para líquidos claros como água, chá, café com açúcar ou mel, sucos claros sem resíduos, limonada e carboidratos líquidos como maltrodexina. Nesse caso é recomendado que o paciente consuma esses líquidos até 2 horas antes do procedimento.
Instituições hospitalares devem implementar protocolos que diminuam ao máximo o jejum prolongado pré-operatório para líquidos claros.
Instituições hospitalares devem estimular o consumo de líquidos claros até duas horas antes do início do procedimento.
Realização de USG abdominal beira leito para verificação de conteúdo gástrico residual realizada por profissionais qualificados, devem ser solicitadas em casos em que há necessidade de maior investigação.
Estimulantes salivares como pirulitos ou gomas de mascar podem ser consumidos imediatamente antes da indução anestésica e devem ser indicado o seu consumo no pós-operatório imediato, assim que o paciente tiver condição, pois estimulam de forma positiva a peristalse precoce.
A liberação de deita líquida assim que o paciente estiver clinicamente estável após o despertar da anestesia geral ou sedação deve ser realizada, ao menos que haja situações específicas que contraindiquem.
Mensagem final
Para muitos pacientes, manter um jejum de sólidos, na grande maioria das vezes é bem tolerado, uma vez que esse jejum se dá na parte da noite, porém manter o jejum por longos períodos pode acabar sendo prejudicial à recuperação pós-operatória, por isso a necessidade de se implementar uma ingesta de calorias líquidas leves no período pré-operatório imediato de forma segura.
Esse consenso visando a implementação e prescrição de novas regras sobre o jejum pré-operatório foi desenvolvido por uma equipe internacional multidisciplinar sem o suporte de nenhuma sociedade médica convencional. As recomendações são baseadas em literatura científica e focam em diminuir com segurança, o tempo prolongado e desnecessário do jejum pré-operatório. Esse é o primeiro consenso que propõe a prescrição de dieta líquida livre antes da realização de um procedimento anestésico.
Esse consenso apresenta algumas limitações como por exemplo a escolha restrita de especialistas responsáveis e possuir bases de evidência limitadas, assim como poucos profissionais participando do terceiro round. Importante ressaltar e lembrar que esse consenso não possui o suporte de nenhuma organização ou sociedade médica.
As recomendações aqui dispostas são direcionadas a circunstâncias específicas, seguindo regras de segurança, podendo ser adotadas ou não, por instituições de saúde que se sentirem confortáveis em seguir tais diretrizes, uma vez que sua implementação necessita de mudanças sistemáticas envolvendo paciente e equipe profissional qualificada e treinada.
Autoria

Gabriela Queiroz
Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) ⦁ Membro da American Academy of Pain Medicine ⦁ Ênfase em cirurgias de trauma e emergência, obstetrícia, plástica estética reconstrutiva e reparadora e procedimentos endoscópicos ⦁ Experiência em trauma e cirurgias de emergência de grande porte, como ortopedia, vascular e neurocirurgia ⦁ Experiência em treinamento acadêmico e liderança de grupos em ambiente cirúrgico hospitalar ⦁ Orientadora acadêmica junto à classe de residentes em Anestesiologia ⦁ Orientadora e auxiliar em palestras regionais e internacionais na área de Anestesiologia.
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