A associação entre anestesia geral e alterações cognitivas vem sendo alvo de intenso debate científico nas últimas décadas. O envelhecimento e o aumento da longevidade da população mundial, associados ao crescimento do número de procedimentos cirúrgicos realizados em pacientes idosos e portadores de múltiplas comorbidades, impulsionaram pesquisas sobre os possíveis efeitos neurocognitivos dos agentes anestésicos.
Atualmente, entende-se que a anestesia geral, isoladamente, raramente é a causa exclusiva de comprometimento cognitivo persistente. O desenvolvimento de distúrbios cognitivos está relacionado à interação entre fatores ligados ao paciente, ao procedimento cirúrgico, à resposta inflamatória sistêmica e aos próprios anestésicos.
Saiba mais: Exposição à anestesia geral e o declínio cognitivo
O que são os distúrbios neurocognitivos perioperatórios?
Diversas sociedades médicas internacionais propuseram uma mudança na nomenclatura, substituindo o termo disfunção cognitiva pós-operatória, do inglês Postoperative Cognitive Dysfunction (POCD), por distúrbios neurocognitivos perioperatórios, ou Perioperative Neurocognitive Disorders (PND).
Essa classificação abrange o delirium pós-operatório, a recuperação neurocognitiva tardia e os transtornos neurocognitivos diagnosticados em até 12 meses após a realização do procedimento cirúrgico.
A padronização permite maior uniformidade metodológica entre os estudos, além de facilitar a comparação dos resultados científicos.
Existe relação entre anestesia geral, Alzheimer e demência?
Existe grande preocupação sobre uma possível relação entre a anestesia geral e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, especialmente a doença de Alzheimer. Entretanto, as evidências epidemiológicas disponíveis não demonstraram uma relação causal direta e consistente entre a exposição à anestesia e o aumento da incidência de demência.
A maior parte dos estudos sugere que fatores como idade avançada, vulnerabilidade cerebral prévia e impacto fisiológico da cirurgia exercem influência significativamente maior so bre a função cognitiva do que a exposição aos agentes anestésicos empregados.
O que é delirium pós-operatório e quais são seus principais sintomas?
O delirium pós-operatório representa a alteração cognitiva aguda mais frequente após procedimentos cirúrgicos, especialmente em pacientes idosos. A condição é caracterizada por alterações flutuantes da consciência, da atenção e da cognição durante o período pós-operatório imediato.
Sua incidência varia entre 10% e 50%, dependendo do tipo de cirurgia e das características individuais de cada paciente.
Quais fatores aumentam o risco de delirium após uma cirurgia?
Entre os fatores de risco mais relacionados ao delirium pós-operatório estão:
- idade avançada;
- fragilidade;
- comprometimento cognitivo prévio;
- baixo grau de escolaridade;
- doenças cardiovasculares;
- sedentarismo;
- baixa reserva funcional;
- dor intensa ou inadequadamente controlada;
- distúrbios do sono;
- infecções;
- uso de medicamentos como benzodiazepínicos;
- cirurgias longas ou de grande porte.
Nesses casos, a resposta inflamatória desencadeada pelo próprio procedimento cirúrgico parece exercer papel mais relevante no desenvolvimento do delirium do que a exposição isolada aos agentes anestésicos.
Quais fatores intraoperatórios podem afetar a função cerebral?
Alguns fatores potencialmente modificáveis durante a cirurgia também contribuem para o aumento da incidência de alterações da função cerebral no período pós-operatório. Entre eles estão:
- hipotensão intraoperatória;
- hipoxemia;
- hipoglicemia;
- anemia;
- distúrbios metabólicos;
- profundidade anestésica excessiva.
O reconhecimento e o manejo precoce dessas alterações podem ajudar a reduzir o risco de complicações neurocognitivas, sobretudo em pacientes mais vulneráveis.
Anestésicos como propofol e sevoflurano prejudicam a cognição?
Estudos experimentais realizados em modelos animais demonstraram apoptose neuronal e alterações sinápticas após exposição prolongada a agentes anestésicos voláteis, como sevoflurano, isoflurano e desflurano, assim como a agentes intravenosos, como o propofol.
Entretanto, esses achados não foram reproduzidos de maneira significativa e consistente em seres humanos.
Anestesia venosa ou inalatória apresenta menor risco cognitivo?
Ensaios clínicos randomizados recentes não demonstraram superioridade definitiva da anestesia venosa total em relação à anestesia inalatória, ou vice-versa, na prevenção do declínio cognitivo persistente.
A escolha da técnica anestésica deve considerar as características clínicas do paciente, o tipo de cirurgia, as comorbidades e os riscos envolvidos no procedimento, em vez de se basear exclusivamente em um possível efeito neurocognitivo de determinado anestésico.
Como prevenir os distúrbios neurocognitivos perioperatórios?
A prevenção dos distúrbios neurocognitivos perioperatórios é fundamental e baseia-se, inicialmente, na identificação e na estratificação dos fatores de risco de cada paciente.
Também são importantes o manejo clínico adequado durante o procedimento cirúrgico e a implementação de protocolos multimodais de neuroproteção e recuperação pós-operatória.
Essas estratégias podem incluir:
- avaliação cognitiva pré-operatória em pacientes de risco;
- controle adequado da dor;
- redução do uso de medicamentos potencialmente associados ao delirium;
- manutenção da estabilidade hemodinâmica e metabólica;
- prevenção de hipóxia e hipotensão;
- estímulo à mobilização precoce;
- preservação do ciclo de sono e vigília;
- reorientação frequente do paciente;
- uso de aparelhos auditivos e óculos quando necessários.
Qual é o impacto real da anestesia geral sobre a cognição?
A anestesia geral isoladamente não pode ser considerada responsável pelo desenvolvimento de comprometimento cognitivo persistente na maioria dos pacientes.
Os distúrbios neurocognitivos perioperatórios apresentam natureza multifatorial e estão relacionados principalmente às características individuais do paciente, à vulnerabilidade cerebral prévia, às condições clínicas, à complexidade da cirurgia e à resposta inflamatória ao trauma cirúrgico.
Portanto, a avaliação pré-operatória individualizada, a redução dos fatores de risco modificáveis e o acompanhamento adequado no período pós-operatório são medidas essenciais para preservar a função cognitiva.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Gabriela Queiroz
Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA). Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). Membro da American Academy of Pain Medicine.
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