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Anestesiologia4 agosto 2026

Impactos da anestesia geral sobre a função cognitiva

Entenda a relação entre anestesia geral, delirium e alterações cognitivas, além dos fatores de risco e das estratégias de prevenção perioperatória.
Por Gabriela Queiroz

A associação entre anestesia geral e alterações cognitivas vem sendo alvo de intenso debate científico nas últimas décadas. O envelhecimento e o aumento da longevidade da população mundial, associados ao crescimento do número de procedimentos cirúrgicos realizados em pacientes idosos e portadores de múltiplas comorbidades, impulsionaram pesquisas sobre os possíveis efeitos neurocognitivos dos agentes anestésicos. 

Atualmente, entende-se que a anestesia geral, isoladamente, raramente é a causa exclusiva de comprometimento cognitivo persistente. O desenvolvimento de distúrbios cognitivos está relacionado à interação entre fatores ligados ao paciente, ao procedimento cirúrgico, à resposta inflamatória sistêmica e aos próprios anestésicos. 

Saiba mais: Exposição à anestesia geral e o declínio cognitivo

O que são os distúrbios neurocognitivos perioperatórios? 

Diversas sociedades médicas internacionais propuseram uma mudança na nomenclatura, substituindo o termo disfunção cognitiva pós-operatória, do inglês Postoperative Cognitive Dysfunction (POCD), por distúrbios neurocognitivos perioperatórios, ou Perioperative Neurocognitive Disorders (PND). 

Essa classificação abrange o delirium pós-operatório, a recuperação neurocognitiva tardia e os transtornos neurocognitivos diagnosticados em até 12 meses após a realização do procedimento cirúrgico. 

A padronização permite maior uniformidade metodológica entre os estudos, além de facilitar a comparação dos resultados científicos. 

Existe relação entre anestesia geral, Alzheimer e demência? 

Existe grande preocupação sobre uma possível relação entre a anestesia geral e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, especialmente a doença de Alzheimer. Entretanto, as evidências epidemiológicas disponíveis não demonstraram uma relação causal direta e consistente entre a exposição à anestesia e o aumento da incidência de demência. 

A maior parte dos estudos sugere que fatores como idade avançada, vulnerabilidade cerebral prévia e impacto fisiológico da cirurgia exercem influência significativamente maior so bre a função cognitiva do que a exposição aos agentes anestésicos empregados. 

O que é delirium pós-operatório e quais são seus principais sintomas? 

O delirium pós-operatório representa a alteração cognitiva aguda mais frequente após procedimentos cirúrgicos, especialmente em pacientes idosos. A condição é caracterizada por alterações flutuantes da consciência, da atenção e da cognição durante o período pós-operatório imediato. 

Sua incidência varia entre 10% e 50%, dependendo do tipo de cirurgia e das características individuais de cada paciente. 

Quais fatores aumentam o risco de delirium após uma cirurgia? 

Entre os fatores de risco mais relacionados ao delirium pós-operatório estão: 

  • idade avançada; 
  • fragilidade; 
  • comprometimento cognitivo prévio; 
  • baixo grau de escolaridade; 
  • doenças cardiovasculares; 
  • sedentarismo; 
  • baixa reserva funcional; 
  • dor intensa ou inadequadamente controlada; 
  • distúrbios do sono; 
  • infecções; 
  • uso de medicamentos como benzodiazepínicos; 
  • cirurgias longas ou de grande porte. 

Nesses casos, a resposta inflamatória desencadeada pelo próprio procedimento cirúrgico parece exercer papel mais relevante no desenvolvimento do delirium do que a exposição isolada aos agentes anestésicos. 

Quais fatores intraoperatórios podem afetar a função cerebral? 

Alguns fatores potencialmente modificáveis durante a cirurgia também contribuem para o aumento da incidência de alterações da função cerebral no período pós-operatório. Entre eles estão: 

  • hipotensão intraoperatória; 
  • hipoxemia; 
  • hipoglicemia; 
  • anemia; 
  • distúrbios metabólicos; 
  • profundidade anestésica excessiva. 

O reconhecimento e o manejo precoce dessas alterações podem ajudar a reduzir o risco de complicações neurocognitivas, sobretudo em pacientes mais vulneráveis. 

Anestésicos como propofol e sevoflurano prejudicam a cognição? 

Estudos experimentais realizados em modelos animais demonstraram apoptose neuronal e alterações sinápticas após exposição prolongada a agentes anestésicos voláteis, como sevoflurano, isoflurano e desflurano, assim como a agentes intravenosos, como o propofol. 

Entretanto, esses achados não foram reproduzidos de maneira significativa e consistente em seres humanos. 

Anestesia venosa ou inalatória apresenta menor risco cognitivo? 

Ensaios clínicos randomizados recentes não demonstraram superioridade definitiva da anestesia venosa total em relação à anestesia inalatória, ou vice-versa, na prevenção do declínio cognitivo persistente. 

A escolha da técnica anestésica deve considerar as características clínicas do paciente, o tipo de cirurgia, as comorbidades e os riscos envolvidos no procedimento, em vez de se basear exclusivamente em um possível efeito neurocognitivo de determinado anestésico. 

Como prevenir os distúrbios neurocognitivos perioperatórios? 

A prevenção dos distúrbios neurocognitivos perioperatórios é fundamental e baseia-se, inicialmente, na identificação e na estratificação dos fatores de risco de cada paciente. 

Também são importantes o manejo clínico adequado durante o procedimento cirúrgico e a implementação de protocolos multimodais de neuroproteção e recuperação pós-operatória. 

Essas estratégias podem incluir: 

  • avaliação cognitiva pré-operatória em pacientes de risco; 
  • controle adequado da dor; 
  • redução do uso de medicamentos potencialmente associados ao delirium; 
  • manutenção da estabilidade hemodinâmica e metabólica; 
  • prevenção de hipóxia e hipotensão; 
  • estímulo à mobilização precoce; 
  • preservação do ciclo de sono e vigília; 
  • reorientação frequente do paciente; 
  • uso de aparelhos auditivos e óculos quando necessários. 

Qual é o impacto real da anestesia geral sobre a cognição? 

A anestesia geral isoladamente não pode ser considerada responsável pelo desenvolvimento de comprometimento cognitivo persistente na maioria dos pacientes. 

Os distúrbios neurocognitivos perioperatórios apresentam natureza multifatorial e estão relacionados principalmente às características individuais do paciente, à vulnerabilidade cerebral prévia, às condições clínicas, à complexidade da cirurgia e à resposta inflamatória ao trauma cirúrgico. 

Portanto, a avaliação pré-operatória individualizada, a redução dos fatores de risco modificáveis e o acompanhamento adequado no período pós-operatório são medidas essenciais para preservar a função cognitiva. 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Gabriela Queiroz

Gabriela Queiroz

Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA). Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). Membro da American Academy of Pain Medicine.

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Referências bibliográficas

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