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Terapia Intensiva15 setembro 2026

Traqueostomia precoce na UTI: o que realmente muda?

Procedimento pode reduzir tempo de ventilação mecânica, pneumonia associada à ventilação e tempo de permanência na UTI

O momento ideal para realizar traqueostomia em pacientes críticos permanece controverso. A principal dificuldade está em prever quais pacientes realmente precisarão de ventilação mecânica prolongada e, portanto, poderiam se beneficiar de uma estratégia mais precoce. 

Uma revisão sistemática guarda-chuva e meta-análise publicada em 2026 reuniu 9 revisões sistemáticas, incluindo 24 ensaios clínicos randomizados e 54 estudos não randomizados, comparando traqueostomia precoce com traqueostomia tardia ou manutenção prolongada da intubação orotraqueal.

O que a traqueostomia precoce muda? 

Considerando apenas os ensaios clínicos randomizados, a traqueostomia precoce esteve associada a uma redução de 3,76 dias na duração da ventilação mecânica (diferença média [DM] −3,76 dias; IC95% −6,01 a −1,52).  

Também houve redução de 6,64 dias na permanência na UTI (DM −6,64 dias; IC95% −9,92 a −3,35) e menor ocorrência de pneumonia associada à ventilação mecânica, com OR 0,66 (IC95% 0,46–0,94).  

Por outro lado, não houve diferença estatisticamente significativa no tempo de internação hospitalar (DM −8,72 dias; IC95% −22,95 a 5,52) nem na mortalidade (OR 0,84; IC95% 0,68–1,05). 

A certeza da evidência foi moderada para redução do tempo de ventilação mecânica e da pneumonia associada à ventilação, baixa para permanência na UTI e mortalidade e muito baixa para permanência hospitalar.  

Por que realizar a traqueostomia mais cedo pode ajudar? 

A traqueostomia apresenta algumas vantagens fisiológicas e práticas em relação à intubação orotraqueal prolongada. 

Ela pode reduzir espaço morto, resistência das vias aéreas e trabalho respiratório, além de facilitar redução da sedação, mobilização precoce, comunicação e manejo das secreções. Esses fatores podem contribuir para um desmame ventilatório mais rápido e menor permanência na UTI.  

A redução da pneumonia associada à ventilação também é biologicamente plausível, possivelmente pela melhora da higiene brônquica e pela menor exposição à ventilação mecânica prolongada. 

Afinal, o que significa traqueostomia “precoce”? 

Esse é um dos principais problemas da literatura. Os estudos utilizaram definições bastante heterogêneas. Alguns consideraram precoce a traqueostomia realizada até o sétimo dia, enquanto outros utilizaram pontos de corte de 10 ou até 14 dias.  

Na ausência de uma definição universal, os autores sugerem adotar como referência: 

  • Traqueostomia precoce: até sete dias;
  • Traqueostomia tardia: após sete dias ou manutenção da intubação. 

Esse ponto de corte é o que melhor se alinha com a maior parte da literatura disponível. 

Todos os pacientes se beneficiam? 

Provavelmente não. As análises específicas para traumatismo cranioencefálico, AVC, trauma, Covid-19 e lesão medular apresentaram resultados heterogêneos e, em muitos casos, foram baseadas em poucos ensaios clínicos. 

No traumatismo cranioencefálico, por exemplo, a traqueostomia precoce reduziu a duração da ventilação mecânica em 4,12 dias (IC95% −6,42 a −1,82), mas não demonstrou redução da mortalidade. Já em AVC e Covid-19, os dados randomizados foram mais limitados.  

Isso reforça que não existe uma regra simples como “traqueostomizar todo paciente no sétimo dia”. A decisão deve considerar a probabilidade de ventilação mecânica prolongada, possibilidade de desmame, nível de consciência, capacidade de proteção da via aérea, necessidade persistente de sedação e prognóstico global. 

Mensagem prática 

A traqueostomia precoce parece oferecer benefícios clínicos importantes, especialmente: 

  • Redução do tempo de ventilação mecânica;
  • Menor incidência de pneumonia associada à ventilação;
  • Menor permanência na UTI. 

Porém, não há evidência consistente de redução da mortalidade ou do tempo total de internação hospitalar. Assim, o ponto de corte de até sete dias pode ser utilizado como referência para definir traqueostomia precoce, mas o momento ideal do procedimento deve permanecer individualizado para cada paciente.

Autoria

Foto de Yuri Albuquerque

Yuri Albuquerque

Editor médico na Afya. Doutor em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em Medicina Intensiva pela Universidade de São Paulo (USP) e residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), além de estar concluindo a residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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