Sobreviver à doença crítica não significa necessariamente recuperar-se completamente. Após a alta da unidade de terapia intensiva (UTI), muitos pacientes apresentam déficits físicos, cognitivos e psicológicos persistentes, agrupados sob o conceito de síndrome pós-cuidados intensivos (PICS).
Em 2026, foram publicadas novas diretrizes coreanas de prática clínica para reabilitação de pacientes críticos. O documento avaliou 15 questões clínicas envolvendo pacientes adultos, pediátricos e neonatais e utilizou a metodologia GRADE para determinar a força das recomendações e a certeza das evidências.

Mobilização precoce deve ser feita na UTI?
A diretriz sugere iniciar reabilitação estruturada precocemente após a admissão na UTI, desde que o paciente não apresente instabilidade hemodinâmica ou outras contraindicações importantes.
Em nove ensaios clínicos randomizados, programas iniciados nos primeiros 3 dias estiveram associados à melhora da função física na alta da UTI e aumento da força muscular na alta hospitalar. Entretanto, não houve benefício demonstrado sobre mortalidade, e as reduções observadas no tempo de permanência na UTI e no hospital foram pequenas.
Outro ponto importante é que “mobilização precoce” não significa mobilizar todos os pacientes de forma indiscriminada. A intervenção deve ser protocolizada, progressiva e acompanhada por critérios claros de segurança.
Quando não mobilizar?
Uma das duas recomendações fortes da diretriz é justamente estabelecer critérios previamente definidos para interromper ou não iniciar a reabilitação física.
Entre os exemplos apresentados estão:
- PEEP > 10 cmH₂O ou FiO₂ > 0,60;
- SpO₂ < 90% ou queda sustentada ≥ 20% em relação ao basal;
- Frequência respiratória < 5 ou > 35 irpm;
- PAM < 65 ou > 110 mmHg;
- Frequência cardíaca < 40 ou > 130 bpm;
- Necessidade de escalada de vasopressores;
- Arritmia nova ou não controlada;
- Agitação ou delirium que impeçam participação segura;
- Sangramento ativo;
- Risco de deslocamento de dispositivos invasivos.
Esses valores, porém, não devem ser interpretados como contraindicações absolutas. A própria diretriz reforça que são referências para auxiliar uma avaliação clínica individualizada.
Mais sessões de fisioterapia são melhores?
Não necessariamente. A diretriz sugere considerar duas ou mais sessões de reabilitação por dia em adultos clinicamente estáveis e com alto risco de declínio funcional, mas a recomendação é condicional e baseada em evidência de certeza muito baixa. Na análise de 22 ensaios clínicos, aumentar a frequência das sessões não reduziu de maneira significativa o tempo de ventilação mecânica, a permanência na UTI, a permanência hospitalar ou a mortalidade.
Assim, múltiplas sessões podem ser consideradas principalmente em pacientes selecionados, como aqueles com fraqueza importante, ventilação mecânica prolongada, suporte com ECMO ou baixa tolerância a sessões mais longas.
Treinar a musculatura inspiratória ajuda no desmame?
Possivelmente sim. Em pacientes sob ventilação mecânica, o treinamento muscular inspiratório (TMI) recebeu recomendação condicional favorável, com certeza moderada da evidência. Em 14 ensaios clínicos, o TMI aumentou a pressão inspiratória máxima e esteve associado à redução de aproximadamente 1,9 dia na duração da ventilação mecânica, além de maior taxa de sucesso no desmame. Não houve redução demonstrada de mortalidade ou reintubação.
A estratégia parece particularmente interessante em pacientes clinicamente estáveis, com fraqueza muscular respiratória ou dificuldade de liberação da ventilação mecânica.
Disfagia pós-extubação: rastrear não é suficiente
Outro destaque das diretrizes é a disfagia pós-extubação. Testes clínicos à beira-leito podem ser úteis como triagem, mas não devem ser utilizados isoladamente para confirmar ou excluir disfagia. Na análise agrupada, esses testes apresentaram sensibilidade de 78% e especificidade de 70%, com desempenho bastante variável entre os estudos. Por outro lado, a reabilitação da deglutição em pacientes com disfagia após extubação recebeu uma das duas recomendações fortes do documento.
A intervenção reduziu o tempo até a retomada da alimentação oral e, em um ensaio clínico, esteve associada a menor ocorrência de pneumonia.
Terapia ocupacional e reabilitação cognitiva também fazem parte do tratamento
A recuperação após uma doença crítica não é apenas muscular. A diretriz sugere considerar reabilitação cognitiva e recomenda, de forma condicional, incluir terapia ocupacional dentro de uma estratégia multidisciplinar.
A terapia ocupacional esteve associada a melhora modesta das atividades de vida diária, da função física e da função cognitiva na alta hospitalar. Já os benefícios da reabilitação cognitiva foram menores e ainda sustentados por evidências limitadas.
A reabilitação termina quando o paciente sai da UTI?
Não necessariamente. A diretriz também sugere acompanhamento estruturado após a alta da UTI. Entretanto, os dados devem ser interpretados com cautela. Em 12 estudos randomizados, programas de acompanhamento pós-UTI não demonstraram redução consistente de ansiedade, depressão, sintomas de estresse pós-traumático, readmissão ou mortalidade. Apesar disso, consultas estruturadas podem ajudar a identificar déficits físicos, cognitivos, psicológicos e nutricionais persistentes e direcionar pacientes selecionados para intervenções específicas.
Mensagem prática
- Considere reabilitação estruturada precocemente, desde que o paciente esteja clinicamente apto;
- Utilize critérios objetivos de segurança para iniciar, interromper e progredir a mobilização;
- Treinamento muscular inspiratório pode ser útil em pacientes com dificuldade de desmame;
- Investigue disfagia após extubação e trate ativamente quando presente;
- Incorpore aspectos cognitivos e funcionais ao plano de recuperação;
- Lembre que a recuperação da doença crítica frequentemente continua muito depois da alta da UTI.
O principal conceito talvez seja simples: na terapia intensiva moderna, sobreviver é apenas o primeiro desfecho. Recuperar função também importa.
Autoria

Yuri Albuquerque
Editor médico na Afya. Doutor em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em Medicina Intensiva pela Universidade de São Paulo (USP) e residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), além de estar concluindo a residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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