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Terapia Intensiva14 agosto 2026

Proteção renal na UTI pode melhorar recuperação após lesão renal aguda

Estratégia de proteção renal na UTI foi associada a menor persistência da lesão renal aguda e maior recuperação da função renal.

A insuficiência renal aguda é um problema que afeta cerca de 10% dos pacientes hospitalizados e quase 50% dos pacientes graves em UTI. A maioria deles recobra a função renal em torno de 3 a 7 dias após a admissão, mas cerca de 1/3 permanece com doença renal após esse período; 7 a 10% pode persistir com disfunção renal após a saída da UTI e até do hospital. 

As recomendações do grupo KDIGO formam uma lista de tarefas que podem reduzir o risco renal.  

A EPR foi operacionalizada nos seguintes componentes: 

  1. monitoramento hemodinâmico (evitar hipo ou hipervolemia); 
  1. otimização da pressão arterial média (manter PAM > 65 mmHg); 
  1. monitoramento de creatinina e débito urinário; 
  1. prevenção de hiperglicemia; 
  1. evitar o uso de agentes nefrotóxicos e contraste radiológico. 

Não há evidência suficiente da eficiência desse pacote de medidas para recuperação renal e seu impacto na necessidade de suporte renal avançado. Existem pequenos estudos em populações específicas, que demonstraram algum benefício mas sem impacto em desfechos maiores. 

Métodos: 

O estudo foi prospectivo e multicêntrico (5 hospitais europeus), sobre a implementação da estratégia de proteção renal (EPR) em 258 pacientes diagnosticados com IRA moderada a grave (KDIGO estágios 2 ou 3) e que necessitavam de vasopressores ou ventilação mecânica. Eram participantes elegíveis os pacientes adultos com disfunção renal de moderada a grave, que precisavam de vasopressores e/ou ventilação mecânica no momento da inclusão. Excluiu-se pacientes renais crônicos com clearance de creatinina menor do que 20 ml/min, dependência crônica de diálise, transplante renal ou insuficiência renal imediatamente após nefrectomia. 

Os centros participantes tinham um período de 12 horas para implementação do pacote de medidas a partir do momento que a disfunção renal foi identificada como KDIGO classe 2 ou 3. O objetivo primário foi conferir a aderência a 100% do pacote nas primeiras 12 horas do diagnóstico da disfunção renal e verificar se os componentes do pacote foram sustentados por pelo menos 2 dias ou até a alta da UTI. Secundariamente, os autores conferiram a taxa de aderência de cada um dos componentes, o desfecho hospitalar em relação à recuperação renal, persistência da disfunção renal com taxa de filtração glomerular menor do que 60 ml/min/1.73m2, aumento da creatinina sérica acima de 50% do nível basal e uso de terapia renal substitutiva. 

Resultados: 

Os participantes apresentaram em média 69 anos e 65% dos pacientes eram do sexo masculino e precisavam de ventilação mecânica no momento da inclusão. O Escore SOFA mediano era de 10 pontos, APACHE II de 24 pontos e o nível sérico de creatinina no momento da internação do hospital era de 1,4 e na UTI de 1,5 mg/dl. 

A aderência ao pacote completo ocorreu em 80 dos 258 pacientes (31%). Os componentes com melhor taxa de adesão foram monitoramento da creatinina sérica diária (99%) e evitar uso de contraste radiológico (98%). O uso de medicamentos nefrotóxicos, a monitoração hemodinâmica e o monitoramento da diurese foram intermediários (entre 59 e 64%). Os itens de pior implementação foram o manuseio da hiperglicemia (43%) e a otimização da pressão arterial (33%). Houve bastante variação na aderência aos componentes entre os cinco centros, principalmente em relação a alguns itens: o monitoramento da diurese variou de 2% a 72% em dois diferentes centros, e a otimização da pressão arterial que variou entre 20% a 72%. 

A insuficiência renal aguda persistiu depois de 48 horas em 70% dos pacientes. E em 59% dos pacientes persistiu depois de 1 semana. Foi necessária terapia renal substitutiva durante qualquer momento da estadia na UTI em 30% dos pacientes; 13% manteve essa necessidade em 30 dias e 7% em 90 dias. A Mortalidade em 1 mês foi de 16% e em 90 dias de 28%. 

Houve associação significativa entre a aderência ao pacote de proteção renal e a menor ocorrência de disfunção renal, além do 7o dia: redução de cerca de 35%. A aderência ao pacote também se associou a maior recuperação renal no momento da alta e menor incidência de hemodiálise em 30 dias.  

Houve também uma relação de dose-resposta para cada componente do pacote de forma aditiva em relação à disfunção renal aguda (redução de 10%) e a necessidade de hemodiálise (redução de 26%) em 1 mês. A relação dose-resposta para doença renal aguda, recuperação renal e necessidade de terapia renal substitutiva não foi linear, já que quanto mais itens do pacote foram realizados melhor era a chance de desfecho satisfatório. Quando se obtinha mais de 4 itens completos do pacote, o resultado foi exponencialmente melhor. 

Limitações: O estudo foi realizado em cinco centros, mas a variação da adoção das medidas do pacote foi muito grande, sugerindo que barreiras clínicas e intrínsecas de cada lugar, principalmente relacionada a fatores culturais e organizacionais podem limitar a generalização dos resultados. O tamanho amostral também foi relativamente pequeno, embora tenha sido calculado para demonstrar o desfecho primário. Portanto, devemos ser conservadores em relação ao resultado de disfunção renal em 1 mês e da mortalidade em 1 e 3 meses também. 

Mensagens para o dia-a-dia: 

  • O estudo conclui que a EPR completa não é aplicada rotineiramente, mas sua adoção pode mitigar a progressão da IRA e melhorar as chances de recuperação renal. 
  • A inconsistência na implementação sugere que barreiras operacionais e complexidades clínicas, em vez de falta de conhecimento, impedem a aplicação padrão destas medidas. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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