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Terapia Intensiva1 setembro 2021

O impacto dos diários de UTI em familiares e profissionais de saúde 

Os diários de UTI consistem em ferramentas para registro cotidiano de episódios relacionados à estadia do paciente na UTI.

Por Filipe Amado

Os diários de UTI consistem em ferramentas para registro cotidiano de episódios relacionados à estadia do paciente na UTI. Familiares e membros da equipe podem registrar acontecimentos. Tais registros ajudam o paciente a recordar momentos da internação que estava inconsciente, por exemplo. O diário de UTI tem sido proposto como uma ferramenta que visa reduzir os sintomas pós-traumáticos dos pacientes relacionados à internação em UTI. Evidências sugerem que não só os pacientes podem se beneficiar da ferramenta, mas também familiares e profissionais de saúde envolvidos no cuidado. 

Nesse contexto, foi publicada uma revisão sistemática, por um grupo brasileiro, na Intensive Care Medicine. O artigo intitulado Exploring family members’ and health care professionals’ perceptions on ICU diaries: a systematic review and qualitative data synthesis” visou sumarizar a evidência qualitativa atual sobre a percepção de familiares e profissionais de saúde no registro e leitura dos diários de UTI. 

Leia também: Análise de pacientes com Covid-19 em UTIs brasileiras: o que aprendemos?

O impacto dos diários de UTI em familiares e profissionais de saúde 

Sobre o estudo

Os critérios de inclusão foram relacionados à presença de achados qualitativos sobre a experiência do uso do diário de UTI por familiares e profissionais de saúde. Estudos com amostras incluindo familiares maiores de 18 anos e profissionais de saúde de UTIs adulto eram elegíveis para inclusão. Por fim, foram incluídos na revisão sistemática um total de 28 estudos, sendo 15 estudos relacionados às experiências de familiares e 13 estudos relacionados às experiências dos profissionais de UTI com o uso do diário de UTI. 

Na sequência, vamos elencar os principais achados qualitativos relacionados à percepção dos familiares e dos profissionais de saúde. 

Percepção dos familiares

  • O diário possibilitou aos familiares um maior entendimento do cuidado em UTI, além de ter servido como fonte de informação dos momentos que eles não estavam presentes;
  • O diário criou o sentimento de que equipe e familiares estavam na mesma página em prol da recuperação do paciente;
  • Para os familiares, as anotações realizadas pelos profissionais de saúde revelavam o lado humano do cuidado envolvido, vendo os pacientes como pessoas, a despeito da rotina diária assistencial atarefada;
  • Serviu de canal de comunicação com os pacientes, apesar da sedação. Possibilitou também aos familiares o registro de eventos que aconteciam fora do hospital, reforçando o desejo do retorno do paciente ao seu lar;
  • Ajudou também os familiares no enfrentamento do ambiente da UTI, nem sempre tão aprazível e familiar. Os familiares também viram o diário como uma válvula de escape para emoções.
  • O diário foi também uma forma de obter informações em um momento posterior, quando os mesmos estivessem em um melhor momento para absorver as informações.

Percepção dos profissionais de saúde

  • As enfermeiras foram responsáveis pela maior parte dos registros nos diários, enquanto médicos tiveram a menor taxa de participação;
  • Os profissionais entenderam o diário como uma ferramenta que melhorou a comunicação com os familiares, servindo como um complemento à informação repassada verbalmente;
  • O diário foi importante para o paciente, tanto por descrever a parte clínica e fatos relacionados à internação como o suporte emocional empreendido, ajudando a fechar potenciais gaps na memória desses pacientes. Entenderam tal ponto como fundamental para reduzir sintomas psicológicos após alta da UTI; 
  • Foi visto também como ferramenta essencial para o aprendizado, uma vez que os profissionais tinham que processar e refletir o dia de cuidados a fim de escrever uma narrativa nos diários. Além disso, a enfermagem viu no diário uma oportunidade de humanizar o cuidado, se aproximando mais de familiares e pacientes;
  • A política do registro nos diários variou. Em alguns locais, era aberto para pacientes na ventilação mecânica com expectativa de duração de no mínimo 3 dias. Em outros serviços, não havia critério e a decisão da abertura do diário ficava à critério da enfermagem. Interessante notar que o diário foi descrito como parte de um protocolo maior de Prevenção de PICS (Post-Intensive Care Syndrome) e follow-up pós alta da UTI;
  • Não foi encontrado consenso entre os profissionais de saúde sobre o melhor momento de entregar o diário ao paciente, podendo acontecer ao fim da internação da UTI ou após alta hospitalar.

Saiba mais: Ressuscitação volêmica: Práticas em unidades de terapia intensiva brasileiras

Barreiras para implementação

De acordo com a revisão sistemática, algumas barreiras foram descritas pelos profissionais de saúde: encontrar a distância interpessoal ótima entre profissionais e pacientes, durante o registro no diário; ausência de colaboração entre colegas profissionais de saúde para registro de informações; ausência de guidelines desenvolvidas com orientações sobre o tema; receio de problemas judiciais relacionados ao tipo de informações descritas no diário, além do próprio receio da exposição de informação sensível do paciente. 

Conclusões dos autores

A revisão sistemática mostra que profissionais e familiares consideram o diário de UTI uma intervenção valiosa. A mesma também evidencia os desafios associados ao registro das informações no diário, que devem ser cuidadosamente abordados no sentido de reduzir o stress associado ao processo. 

Mensagens Práticas

  • A revisão sistemática trouxe aspectos interessantes do diário na perspectiva dos profissionais de saúde e familiares;
  • No Serviço de Medicina Intensiva que trabalho, utilizamos o diário de UTI como parte do Protocolo de Prevenção de PICS (Post Intensive Care Syndrome). Diariamente, enfatizamos em rounds diários os pacientes com diários abertos e reforçamos a necessidade do registro;
  • Os desafios apresentados na revisão sistemática são desafios encontrados na nossa prática também: muitas vezes o profissional tem receio do que escrever e até que ponto a informação pode ser entendida como invasão de privacidade ou exposição de dados do paciente;
  • O outro lado da moeda também é interessante. É possível perceber como, em alguns casos, o diário é extremamente valorizado pelo paciente e familiares. Alguns deles fazem questão de ler o que foi escrito pelos profissionais naquele dia e se sentem mais próximos da equipe;
  • Acredito que precisamos de maior discussão entre as experiências já estruturadas do uso do diário na UTI, no sentido de criar normatizações que orientem o seu melhor uso.

No Fórum do Portal PEBMED, iniciei a discussão sobre o uso do Diário na UTI. Você pode compartilhar sua experiência e suas dúvidas. Acesse aqui!

Referências bibliográficas:

  • Barreto BB, Luz M, do Amaral Lopes SAV, Rosa RG, Gusmao-Flores D. Exploring family members’ and health care professionals’ perceptions on ICU diaries: a systematic review and qualitative data synthesis. Intensive Care Med. 2021;47(7):737-749. doi:10.1007/s00134-021-06443-w

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