Este texto analisa uma revisão sistemática e meta-análise sobre mortalidade e capacidade funcional a longo prazo após ECMO em adultos criticamente enfermos. O estudo reuniu dados de 163 pesquisas, com 78.053 pacientes, para avaliar mortalidade após seis meses ou mais e desfechos funcionais entre pacientes submetidos às diferentes modalidades de ECMO.

ECMO e os desafios dos desfechos a longo prazo
O uso de circulação extracorpórea cresceu bastante na última década, principalmente após o período de pandemia de Covid-19. Dispositivos de circulação extracorpórea são basicamente de 3 tipos: venovenoso (VV), arteriovenoso (AV) e para tratamento de parada cardíaca (PCRE). O seu uso é realizado em centros de referência e precisa de equipe treinada e material sofisticado. Suas indicações são bastante limitadas, porém vêm aumentando o número de pacientes que usam esses dispositivos nos últimos anos. O seu uso também é preconizado em pacientes com insuficiência respiratória aguda, após parada cardíaca e em algumas outras situações de choque muito grave, como pós-operatórios de cirurgia cardíaca.
De um modo geral, a terapia com ECMO é usada em pacientes que estão muito graves e que têm alta chance de óbito. Por exemplo, pacientes com SARA com grave hipoxemia, que são jovens e aparentemente têm um bom prognóstico, podem sobreviver com o uso desta modalidade, de forma muito superior ao grupo que usa as terapias convencionais. Já pacientes apresentando parada cardiorrespiratória por alguns motivos, como o choque cardiogênico e embolia pulmonar maciça, também podem se beneficiar da ECMO, trazendo uma mortalidade que seria maior que 90% para em torno de 60-70%, ou seja, significativamente melhor do que o grupo que usa o tratamento usual.
Porém, como em outras terapias modernas de suporte às disfunções orgânicas, ainda precisa ser melhor estudada, porque acaba produzindo uma população de pacientes muito graves, que morreram destas causas há 1-2 décadas atrás e agora conseguem sobreviver.
A maioria dos estudos registra a mortalidade no curto prazo, ou seja, na UTI ou hospitalar, e muitos desses pacientes são transferidos para unidades intermediárias ou hospitais de transição. Por isso, o desfecho a longo prazo ainda é incerto e um pool de estudos precisa ser avaliado para que saibamos qual é a funcionalidade e a mortalidade no longo prazo desta população.
Como a revisão sistemática avaliou pacientes após ECMO
Os autores pesquisaram estudos nas plataformas: Ovid MEDLINE, Embase, Emcare, Central Register of Controlled Trials e Scopus, publicados até março de 2025.
Estudos observacionais e randomizados controlados, que continham desfechos de mortalidade e funcionais em 6 meses ou mais tempo, em adultos foram incluídos. Como de praxe, os estudos extraídos estavam registrados na plataforma PROSPERO e dois revisores independentes calcularam os resultados. Subgrupos pré-especificados por modalidade de ECMO e por indicação clínica foram analisados.
Mortalidade a longo prazo após ECMO
Foram selecionados 163 estudos, com 78.053 adultos, entre 2012 e 2025: a maior parte era observacional (155/163; 95%). Também 156 (95%) dos estudos reportaram mortalidade além de 6 meses e apenas 23% resultados de capacidade funcional. A idade média dos pacientes foi de 54 anos (relativamente mais jovem que a população geral de UTI ~ 65 anos); ⅔ eram homens e o tempo médio de ECMO foi de 9 dias.
A modalidade de ECMO foi distribuída da seguinte forma: 3.973 VV ECMO em 33/156 estudos (21%); 6.906 AV ECMO em 55/156 estudos (35%), 14.491 PCRE em 24/156 estudos (15%); 44/156 estudos (28%) populações mistas por outras modalidades. Pacientes com VV ECMO eram mais jovens e com insuficiência respiratória e permaneceram longos períodos em ECMO (~22 dias).
As indicações para ECMO foram: choque cardiogênico (7,5%), SARA e insuficiência respiratória aguda (8,4%), PCR (4,4%) choque em pós-operatório de cardíaca (2,6%), ponte para transplante cardíaco (n=229, 0,4%) e Covid-19 (n=3.572, 6%).
Mortalidade em um ano varia conforme a modalidade de ECMO
- Mortalidade em 1 ano: venovenosa (VV) ECMO (para insuficiência respiratória): 37,2%; AV (VA) ECMO (para choque cardiogênico ou refratário): 55,2%; parada cardíaca extracorpórea (PCRE): 74,4%.
Houve benefício de mortalidade em quatro estudos clínicos randomizados que compararam ECMO versus grupo controle sem ECMO. Na análise de sensibilidade (onde se considera pacientes perdidos em seguimento), a mortalidade reunida, em melhor e pior suposições, variou de 49,9-53,7% em 6 meses, 56,2-58,1% em 1 ano e 67,0-78,7% em 5 anos.
Capacidade funcional e recuperação neurológica após ECMO
Apenas 38 de 163 estudos avaliaram algum item de capacidade funcional (n=7.876). VV ECMO demonstrou recuperação neurológica favorável, mas com limitações físicas persistentes. Houve grande heterogeneidade entre os estudos, mas mobilidade, cognição, ansiedade, depressão e desordem de estresse pós-traumático foram detectados usando várias escalas diferentes: WHODAS 2.0, Hospital Anxiety and Depression Scale, Impact of Event Scale-Revised (IES-R), Montreal Cognitive Assessment, 6-minute walk test. Na modalidade AV ECMO, a recuperação neurológica foi pior e muito variável, desde boa a ruim. E após ECMO PCRE, também houve recuperação neurológica muito varíavel, sendo que a maioria dos pacientes teve PCR extra-hospitalar. Em 1 ano, a recuperação neurológica variou de 18 a 100%, mostrando grande heterogeneidade entre os estudos.
Sequelas físicas e neuropsicológicas entre sobreviventes de ECMO
- Desfechos funcionais: inconsistência por poucos estudos e muita heterogeneidade. 23% dos estudos reportaram funcionalidade com diferentes métodos (7.876 sobreviventes). Escores como Cerebral Performance Category (CPC), modified Rankin Scale (mRS), WHODAS 2.0. Sobreviventes enfrentam limitações físicas, menor capacidade para exercícios e sequelas neuropsicológicas (depressão, ansiedade e desordem de estresse pós-traumático).
O que os dados mostram sobre o prognóstico após ECMO
- ECMO é uma ferramenta de manutenção de suporte cardiorrespiratório moderna e determinante para pacientes muito graves, realizada em centros especializados; os sobreviventes que usaram esta modalidade já se constituem por si só um subgrupo de pacientes graves com características especiais.
- A mortalidade a longo prazo após ECMO é elevada, variando de 37% na modalidade venovenosa a 74% em PCRE.
- Dados sobre recuperação funcional são inconsistentes, destacando necessidade de padronização, mas apontam para uma população com grande dependência após 1 ano da alta.
Autoria

André Japiassú
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).
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