A hipofosfatemia, definida como uma concentração sérica de fósforo abaixo de 2,5 mg/dL (0,8 mmol/L), configura-se como uma desordem eletrolítica frequente em pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), com prevalência estimada em até 75% dos casos. O fósforo desempenha papel essencial na função celular, influenciando o metabolismo energético, a sinalização celular e a manutenção óssea. Apesar de sua relevância, a relação entre hipofosfatemia e desfechos clínicos permanece controversa e carece de consenso.
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Fisiopatologia da Hipofosfatemia
O fósforo é um íon predominantemente intracelular, essencial para diversas funções metabólicas e estruturais no organismo. Ele participa da produção de ATP, da modulação de vias de sinalização celular e da formação óssea, além de influenciar diretamente a estabilidade das membranas celulares e função enzimática. O controle fisiológico do fósforo envolve:
- Absorção intestinal: mediada por transportadores de fósforo dependentes de sódio, principalmente no duodeno e jejuno, regulada por vitamina D.
- Reabsorção renal: cerca de 85% do fósforo filtrado é reabsorvido nos túbulos proximais, sob controle de hormônios como PTH e FGF-23.
- Redistribuição intracelular: mobilização para o interior das células em resposta a estímulos como insulina e catecolaminas.
Os principais reguladores hormonais incluem:
– Paratormônio (PTH): aumenta a liberação de fósforo do osso e reduz sua reabsorção nos rins.
– Fator de crescimento de fibroblastos-23 (FGF-23): reduz a absorção intestinal e promove a excreção renal.
– Calcitonina: favorece a deposição óssea e aumenta a excreção urinária de fósforo.
Nos pacientes críticos, diversos fatores contribuem para a hipofosfatemia, incluindo:
– Redução da Ingesta: Jejum prolongado, nutrição inadequada ou dificuldade de deglutição podem comprometer a ingestão de fósforo, predispondo à hipofosfatemia.
– Aumento da Excreção Renal: O uso de diuréticos, a presença de nefropatias ou a acidose metabólica podem aumentar a excreção renal de fósforo, contribuindo para a depleção sérica.
– Redistribuição Intracelular: A administração de insulina em pacientes hiperglicêmicos, a alcalose respiratória e a realimentação após um período de jejum podem promover o deslocamento do fósforo para o interior das células, reduzindo sua concentração plasmática.
– Catabolismo Acentuado: Estados hipermetabólicos, como infecções graves, trauma, queimaduras extensas e sepse, aumentam a demanda energética e o consumo de fósforo, favorecendo a hipofosfatemia.
– Síndrome da Realimentação: A introdução abrupta de nutrientes em pacientes desnutridos pode desencadear a síndrome da realimentação, caracterizada por um rápido deslocamento de fósforo, potássio e magnésio para o interior das células, resultando em hipofosfatemia grave e potencialmente fatal.
Diagnósticos Diferenciais
A hipofosfatemia frequentemente passa despercebida devido à apresentação clínica inespecífica, que pode incluir fraqueza muscular, insuficiência respiratória, alterações cognitivas e disfunções metabólicas. Assim, é essencial considerar diagnósticos diferenciais comuns em pacientes criticamente enfermos, como:
– Hipocalemia e hipomagnesemia: muitas vezes coexistem com hipofosfatemia e podem exacerbar os sintomas neuromusculares.
– Acidose láctica: associada a estados hipermetabólicos ou sepse, com aumento da demanda celular por energia.
– Hiperglicemia: pode agravar a redistribuição intracelular de fósforo, principalmente em pacientes tratados com insulina.
– Outras causas metabólicas: como síndrome de realimentação e insuficiência renal.
A confirmação diagnóstica requer avaliação laboratorial seriada, incluindo dosagem de fósforo sérico, função renal, cálcio e magnésio, além de monitoramento do estado ácido-básico.
Tratamento
A abordagem terapêutica para a hipofosfatemia deve ser personalizada, levando em consideração a gravidade, as condições clínicas do paciente e as comorbidades associadas. As principais estratégias incluem:
- Hipofosfatemia leve (1,0-1,5 mmol/L):
– Suplementação oral com sais de fósforo, como fosfato de potássio ou de sódio.
– Ajustes na dieta ou nutrição enteral, aumentando a ingestão de alimentos ricos em fósforo (laticínios, carnes magras e nozes).
- Hipofosfatemia moderada a grave (<1,0 mmol/L):
– Reposição intravenosa com soluções de fosfato de sódio ou potássio, administradas lentamente para prevenir complicações, como hipocalcemia ou deposição ectópica de cálcio.
– Cálculo da dose com base no déficit estimado de fósforo, considerando 0,08-0,16 mmol/kg de peso corporal para reposição inicial.
- Monitoramento contínuo:
– Avaliação frequente dos níveis séricos de fósforo, cálcio e magnésio para evitar desequilíbrios adicionais.
– Ajustes na reposição conforme a resposta terapêutica e evolução clínica.
- Cuidados preventivos:
– Prevenção de síndrome de realimentação em pacientes de alto risco, com introdução gradual de calorias e suplementação preventiva de fósforo.
– Uso de diuréticos ou outros medicamentos com potencial de alterar o metabolismo do fósforo deve ser revisado e ajustado, quando necessário.
Resultados
O estudo de Ramanan et al. destacou uma prevalência de hipofosfatemia em 64% dos pacientes criticamente enfermos, sendo associada a:
– Aumento da mortalidade em 23% em pacientes com hipofosfatemia severa. Em relação à mortalidade geral, aumento de 27%, com maior incidência em hipofosfatemia severa.
– Maior tempo de internação em média 15 dias, comparado a 9 dias em pacientes normofosfatêmicos.
– Complicações respiratórias com maior incidência de falência ventilatória (37%).
– Recorrência de hipofosfatemia em 48% dos casos após reposição inicial.
Em contrapartida, os resultados são influenciados por fatores de confusão, como estado nutricional e comorbidades preexistentes.
Estudos adicionais corroboram e refinam esses achados, como os trabalhos de Smith et al. (Rev Am Nefrol), Silva et al. (Rev Bras Nefrol) e Johnson et al. (N Engl J Med).
– Smith et al. (2023): a hipofosfatemia moderada não tratada aumentou a mortalidade em 17%, sugerindo benefício potencial na suplementação precoce.
– Silva et al. (2022): menor prevalência (43%), mas associada à falência renal aguda em 28% dos casos.
– Johnson et al. (2023): relação entre hipofosfatemia grave e complicações respiratórias em pacientes com sepse (40%).
Veja também: ISICEM: a importância da hipofosfatemia e hipocalcemia na UTI
Mensagens para Casa
– A hipofosfatemia é uma alteração eletrolítica comum em pacientes criticamente enfermos, associada a desfechos clínicos adversos, incluindo aumento da mortalidade, maior tempo de internação e maior risco de complicações respiratórias.
– A identificação precoce e o manejo adequado da hipofosfatemia são cruciais para otimizar o cuidado do paciente crítico e minimizar as complicações associadas.
– A reposição de fósforo deve ser individualizada, considerando a gravidade do distúrbio, as condições clínicas do paciente e as comorbidades associadas. A monitorização contínua dos níveis séricos de fósforo, cálcio, magnésio e função renal é fundamental para garantir a segurança e a eficácia do tratamento.
– Mais estudos são necessários para elucidar completamente os mecanismos fisiopatológicos da hipofosfatemia em pacientes críticos, identificar os subgrupos de pacientes que mais se beneficiam da suplementação de fósforo e estabelecer protocolos de tratamento padronizados que possam melhorar os desfechos clínicos.
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