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Terapia Intensiva15 fevereiro 2026

Epidemiologia das lesões cutâneas em um hospital público

Estudo de série de casos analisou o perfil epidemiológico de pacientes submetidos a tratamento cirúrgico de lesões cutâneas em um hospital público terciário de referência
Por Hiago Bastos

O câncer de pele constitui a neoplasia mais frequente no Brasil e no mundo, representando cerca de 30% de todos os tumores malignos diagnosticados no país, com predominância dos carcinomas basocelular e espinocelular. Embora essas neoplasias apresentem baixa taxa de mortalidade, seu impacto funcional, estético e psicossocial é significativo, sobretudo quando acometem áreas expostas, como a face e as orelhas. Nesse contexto, a caracterização epidemiológica dos pacientes com lesões cutâneas mostra-se fundamental para o aprimoramento de estratégias preventivas, terapêuticas e organizacionais nos serviços de saúde, especialmente em centros de alta complexidade. 

Métodos 

Com esse objetivo, Portinho et al. (2025) realizaram um estudo retrospectivo de série de casos para analisar o perfil epidemiológico de pacientes submetidos a tratamento cirúrgico de lesões cutâneas em um hospital público terciário de referência, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O estudo incluiu 287 pacientes operados entre 3 de janeiro de 2022 e 3 de julho de 2023, com dados coletados por meio da revisão de prontuários eletrônicos e registros cirúrgicos, sob supervisão de cirurgiões plásticos assistentes. Foram analisadas variáveis como idade, sexo, procedência geográfica, diagnóstico histopatológico, número e localização das lesões, recorrência tumoral, margens oncológicas e técnicas reconstrutivas empregadas. 

Resultados 

Os resultados demonstraram que a população atendida era predominantemente idosa, com média de idade de 62,2 ± 18,9 anos, e apresentou discreto predomínio do sexo feminino (50,5%). A grande maioria dos pacientes possuía fototipos cutâneos I a III da classificação de Fitzpatrick (95,5%), refletindo a composição étnica do estado do Rio Grande do Sul, que apresenta elevado percentual de indivíduos de pele clara. Além disso, 93,9% dos pacientes eram provenientes da Mesorregião Metropolitana do estado, área caracterizada por alta densidade populacional e maior demanda por serviços especializados. 

No que se refere ao perfil das lesões, observou-se que 74,2% dos casos eram malignos, com predominância do carcinoma basocelular (59,6%), seguido do carcinoma espinocelular (12,5%). Entre os carcinomas basocelulares, o subtipo nodular foi o mais frequente, seguido do infiltrativo, superficial e metatípico. Esses dados confirmam o padrão epidemiológico já descrito na literatura e reforçam a associação entre fototipo claro, exposição solar crônica e aumento da incidência de neoplasias cutâneas, especialmente em regiões cuja economia está fortemente ligada à atividade agrícola. 

Quanto à localização anatômica, as lesões acometeram majoritariamente a região da cabeça e pescoço, com destaque para a região nasal (39,0%) e auricular (13,2%). Essas áreas, por integrarem a chamada “zona T” da face, apresentam maior risco de comprometimento funcional e estético, o que justifica o encaminhamento frequente para serviços terciários de cirurgia plástica. A complexidade dessas regiões exige rigor técnico tanto na exérese tumoral quanto na reconstrução, a fim de preservar funções essenciais e minimizar deformidades. 

 Em relação ao tratamento cirúrgico, as margens oncológicas estavam livres em 89,2% dos casos após a primeira excisão, evidenciando a eficácia do manejo cirúrgico adotado. O fechamento primário foi a técnica reconstrutiva mais utilizada (51,6%), seguido do uso de retalhos (25,4%) e enxertos cutâneos (17,8%). A preferência por retalhos, especialmente na região da face, deve-se aos melhores resultados estéticos e funcionais, embora essa escolha exija maior precisão na obtenção de margens livres, visto que reabordagens cirúrgicas podem comprometer futuras opções reconstrutivas. 

O estudo também destaca a importância do papel dos serviços terciários no manejo de casos complexos, incluindo lesões recorrentes, margens comprometidas e tumores com comportamento infiltrativo, que frequentemente demandam reintervenções cirúrgicas ampliadas e, por vezes, abordagens multidisciplinares envolvendo especialidades como cirurgia de cabeça e pescoço, oftalmologia e neurocirurgia. Ao mesmo tempo, os autores ressaltam a necessidade de fortalecer a atenção primária e secundária para o tratamento de lesões de menor complexidade, a fim de evitar a sobrecarga dos centros de referência. 

Veja também: Carcinoma basocelular: A dermatoscopia como aliada no diagnóstico

Conclusão 

Conclui-se, portanto, que o perfil epidemiológico dos pacientes tratados nesse hospital terciário é composto majoritariamente por indivíduos idosos, de pele clara, oriundos da região metropolitana, com lesões faciais predominantemente malignas. Os achados reforçam a relevância de serviços especializados e estruturados para o adequado manejo oncológico e reconstrutivo das lesões cutâneas, bem como a importância de políticas públicas voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e organização hierarquizada da assistência em saúde.

Autoria

Foto de Hiago Bastos

Hiago Bastos

Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI ⦁  Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos ⦁  Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium) ⦁  Especialista em ECMO pela ELSO ⦁ Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017 ⦁  Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA) ⦁  Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.

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Referências bibliográficas

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