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Terapia IntensivaJUN 2024

Desfecho de pacientes sépticos neutropênicos de acordo com a causa da neutropenia 

Sepse em pacientes neutropênicos é uma causa frequente de admissão em unidades de terapia intensiva (UTI), estando relacionada a taxas de mortalidade que variam de 30 a 60%

O manejo adequado é essencial para desfechos favoráveis. Embora existam diretrizes de tratamento para sepse, pacientes neutropênicos representam um grupo heterogêneo e as características dessa condição não são completamente conhecidas.

Análises por subgrupos em estudos prévios sugerem, por exemplo, que pacientes com neoplasias hematológicas apresentam taxas mais altas de sepse, mas com maiores índices de sobrevivência. Ao mesmo tempo, o impacto da neutropenia na mortalidade de sepse tem mostrado resultados conflitantes. 

Diante dessas incertezas, um estudo conduzido na Austrália e na Nova Zelândia procurou avaliar as características clínicas, desfechos e preditores de mortalidade em pacientes neutropênicos com sepse admitidos em UTI, comparando aqueles com neoplasia hematológica, neoplasias sólidas metastáticas e os sem diagnóstico de câncer. 

Desfecho de pacientes sépticos neutropênicos de acordo com a causa da neutropenia 

Imagem de freepik

Materiais e métodos 

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo, incluindo pacientes admitidos em UTI na Austrália e Nova Zelândia no período de 2000 a 2022. Os dados foram extraídos de um banco de dados eletrônico, que coleta informações em relação a admissões em UTI nos dois países. 

Sepse foi definida como diagnóstico primário de sepse à admissão ou diagnóstico de infecção e disfunção orgânica (SOFA ≥ 2). Neutropenia foi inferida pela presença de leucopenia, com contagens de leucócitos < 1.000 células/mm³. 

Foram considerados elegíveis todos os pacientes com ≥ 16 anos admitidos em UTI com diagnóstico de sepse no período do estudo. Readmissões e transferências para outras UTIs foram excluídas para evitar duplicações. Os pacientes admitidos para doação de órgãos ou cuidados paliativos também foram excluídos, assim como os que não tinham informação sobre mortalidade intra-hospitalar ou leucograma. 

Resultados 

No período de estudo, foram identificadas 317.422 admissões por sepse em indivíduos com ≥ 16 anos em UTI na Austrália e Nova Zelândia. Desses, 57.884 foram excluídos e 259.538 foram incluídos. 

Neutropenia estava presente em 3,3% de todos os pacientes com sepse. Entre os indivíduos com neutropenia, a maioria tinha neoplasia hematológica (54,1%). Outras causas de neutropenia incluíram neoplasia sólida metastática (12%) e neoplasias hematológicas e sólidas (1,5%), e 32,5% não tinham nenhum diagnóstico de câncer. Neste último grupo, 45,8% (1.283/2.800) tinham registro de uso de tratamento imunossupressor ou de possuir uma condição imunossupressora. 

Leia também: Como investigar a neutropenia?

Na coorte, pacientes com neoplasia hematológica eram geralmente mais jovens e apresentaram menos comorbidades e menor frequência de ordens de limitação terapêutica. Neutropenia foi classificada como profunda (mediana de 100 células/mm³; IQR = 100 – 300) e febre, como alta (38,2 °C; IQR = 37,4°C – 39,0°C). Por sua vez, pacientes com neoplasias sólidas tinham maiores índices de comorbidades crônicas e de ordens de limitação terapêutica, mas índices semelhantes de ventilação mecânica (16,9%). Pacientes sem neoplasia e sem imunossupressão tinham neutropenia modesta (mediana de 500 células/mm³) e altos índices de ventilação mecânica (46%). Não houve diferença significativa entre os grupos em relação ao uso de vasopressores na admissão na UTI. 

A mortalidade foi mais alta entre os indivíduos sem diagnóstico de neoplasia (46,3%), seguidos dos com câncer metastático (42,4%) e os com neoplasia hematológica (30,6%). Entre os sobreviventes, o tempo de hospitalização foi maior em pacientes com neoplasia hematológica. Em todos os grupos, houve tendência de queda na mortalidade ao longo do período do estudo. 

Tanto na análise univariada quanto na multivariada, idade, presença de ≥ 1 comorbidade, ordens de limitação de tratamento, ano de admissão na UTI e pontuação no escore SOFA estiveram associados a aumento de mortalidade. Diagnóstico de neoplasia hematológica e ano de admissão hospitalar estiveram associados com redução de risco de mortalidade. 

Houve interação significativa entre neutropenia e o tipo de neoplasia. Na análise multivariada, a presença de neutropenia esteve associada com um aumento nas chances de morte em pacientes com câncer metastático (OR = 1,51; IC 95% = 1,30 – 1,74) e nos sem diagnóstico de neoplasia (OR = 3,15; IC 95% = 2,89 – 3,43), mas não teve impacto nos indivíduos com neoplasia hematológica (OR = 0,98; IC 95% = 0,90 – 1,06). 

Mensagens práticas: desfecho de pacientes sépticos neutropênicos

  • Nesse estudo, dentre os pacientes admitidos em UTI com neutropenia e sepse, os com neoplasia hematológica eram mais jovens, tinham menos comorbidades e tiveram os menores índices de mortalidade. 
  • Pacientes com neoplasias sólidas metastáticas eram mais velhos, tinham mais comorbidades, tiveram maior mortalidade e a neutropenia esteve associada a aumento de risco de óbito. 
  • Pacientes sem diagnóstico de neoplasia tiveram altos índices de ventilação mecânica e de mortalidade intra-hospitalar. Nesse grupo, a presença de neutropenia conferiu um aumento significativo no risco de óbito. 
  • Os autores destacam a importância de sepse não neutropênica em indivíduos com neoplasia e que os profissionais de saúde devem estar atentos para seu reconhecimento precoce nessa população.
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Referências bibliográficas

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