As lesões traumáticas da mão constituem uma das ocorrências mais frequentes na prática da cirurgia plástica, exigindo intervenções cirúrgicas que, como qualquer procedimento invasivo, apresentam risco de infecção do sítio cirúrgico (ISC). Segundo o Centers for Disease Control and Prevention, as ISCs são definidas como infecções que surgem no local da incisão cirúrgica em até 30 dias após o procedimento, ou até 90 dias quando há uso de implantes. Apesar de serem consideradas a complicação evitável mais comum no pós-operatório, a real eficácia do uso rotineiro de antibióticos profiláticos em cirurgias de trauma da mão permanece controversa, sobretudo diante do crescimento alarmante da resistência antimicrobiana.
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Diante dessa problemática, Kalapurmatt et al. (2025) conduziram um estudo retrospectivo com o objetivo de avaliar se a administração de antibióticos profiláticos é eficaz na prevenção de infecções pós-operatórias e ISCs em pacientes com lesões traumáticas da mão. O estudo incluiu 216 pacientes atendidos entre junho de 2022 e junho de 2024, os quais foram divididos em dois grupos: um grupo que recebeu uma dose de antibiótico profilático até 60 minutos antes da incisão cirúrgica e outro que não recebeu antibióticos no pré-operatório. As feridas foram classificadas em limpas, limpas-contaminadas e contaminadas, e foram analisados fatores demográficos, comorbidades, tipo de lesão, uso de implantes e duração do procedimento cirúrgico.
Os resultados demonstraram que a taxa global de infecção foi extremamente baixa em ambos os grupos. No grupo que recebeu antibiótico profilático, apenas 1,7% dos pacientes desenvolveram infecção pós-operatória ou ISC, enquanto no grupo sem profilaxia essa taxa foi de 1%. Essa diferença não apresentou significância estatística, indicando que o uso profilático de antibióticos não reduziu de forma relevante a incidência de infecções. Ademais, variáveis tradicionalmente associadas ao aumento do risco infeccioso, como uso de implantes, tipo de ferida e tempo cirúrgico, não demonstraram impacto significativo nos desfechos observados.
A análise do perfil dos pacientes revelou que a maioria era composta por indivíduos jovens, predominantemente do sexo masculino, com baixa prevalência de comorbidades como diabetes e hipertensão. Os autores destacam que essas características demográficas favorecem a cicatrização e a resistência à infecção, sobretudo devido à alta vascularização da mão, fator reconhecido como protetor contra processos infecciosos. Esse aspecto ajuda a explicar as baixas taxas de ISC encontradas, independentemente da administração de antibióticos profiláticos.
Na discussão, os autores relacionam seus achados com estudos anteriores e revisões sistemáticas que também não encontraram benefícios consistentes do uso rotineiro de antibióticos profiláticos em cirurgias da mão, inclusive em procedimentos considerados mais complexos. Além disso, o estudo chama atenção para os impactos negativos do uso indiscriminado de antibióticos, como reações adversas, aumento dos custos hospitalares e, principalmente, o agravamento da resistência antimicrobiana, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea.
Portanto, o estudo conclui que os antibióticos profiláticos não desempenham papel significativo na prevenção de infecções pós-operatórias ou ISCs em casos de lesões traumáticas da mão. Os autores defendem que a decisão pelo uso de antibióticos deve ser criteriosa e baseada em evidências, considerando o baixo risco infeccioso desses procedimentos e os potenciais danos associados ao uso desnecessário desses fármacos. Assim, o trabalho contribui de maneira relevante para a prática clínica ao reforçar a necessidade de protocolos mais racionais, seguros e alinhados às estratégias globais de combate à resistência antimicrobiana.
Autoria

Hiago Bastos
Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI ⦁ Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos ⦁ Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium) ⦁ Especialista em ECMO pela ELSO ⦁ Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017 ⦁ Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA) ⦁ Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.
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