Os cuidados paliativos visam aliviar sintomas de sofrimento e melhorar a qualidade de vida para pacientes criticamente doentes e suas famílias. Atualmente, a discussão sobre esse tema vem tomando grandes proporções na medicina, porém ainda podemos analisar contextos que, embora a teoria seja muito bem estruturada, a entrega ao paciente e familiares ainda necessita de adequações. Desta forma, estudos de intervenção em práticas colaborativas e novas formas de abordagem para o paciente paliativo são essenciais.
Neste artigo, faremos uma análise do estudo “Mobile App–Facilitated Collaborative Palliative Care Intervention for Critically Ill Older Adults” que investiga uma intervenção inovadora ao utilizar um aplicativo móvel para integrar cuidados paliativos na unidade de terapia intensiva (UTI), comparando seus efeitos aos cuidados usuais. Assim, podemos perceber o quanto a tecnologia pode nos auxiliar nos cuidados prestados aos pacientes e melhorar o suporte oferecido, principalmente quando amparado à colaboração de todos os entes participantes do processo.
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Sobre o estudo
Trata-se de uma ensaio clínico randomizado conduzido entre abril de 2021 e setembro de 2023. Foram envolvidos 151 membros de famílias de pacientes idosos críticos. Utilizou-se um aplicativo móvel integrado aos prontuários eletrônicos das seis UTIs de dois hospitais. O objetivo do estudo era comparar a eficácia da utilização do aplicativo que promovia a colaboração dos cuidados em relação aos cuidados convencionais oferecidos nas UTIs.
Os participantes foram selecionados com base em critérios que incluíam: idade acima de 50 anos, pelo menos 24 horas na UTI, pelo menos um fator de risco dentre os 11 descritos no estudo. Familiares foram incluídos se apresentassem altas pontuações na escala de necessidades paliativas, indicando uma exigência significativa de cuidados, além da escolha ser baseada no cuidador principal do paciente.
Sobre o aplicativo
A intervenção utilizou o PCplanner (Palliative Care Planner from Duke Institute for Health Innovation), um aplicativo móvel que serviu como uma plataforma de comunicação e coordenação de cuidados para pacientes críticos e suas famílias. Dentre as funcionalidades do aplicativo podemos destacar:
- Relato de Necessidades: Os familiares puderam relatar as necessidades percebidas do paciente utilizando a Escala de Necessidades no Fim da Vida (NEST), que quantifica as necessidades do paciente em áreas vitais do cuidado paliativo.
Exemplo: Um membro da família pode relatar altos níveis de ansiedade quanto ao prognóstico do paciente, gerando um alerta para que o especialista reavalie a questão emocional ou a necessidade de informações adicionais.
- Reuniões Familiares: O aplicativo notificava os médicos das UTIs sobre os resultados dos relatórios das famílias e agendava reuniões para tratar das preocupações expressas nos relatórios.
Exemplo: Se a NEST destacava sofrimento espiritual como uma necessidade crítica, a reunião familiar poderia focar na introdução de suporte espiritual.
- Consulta em Cuidados Paliativos: Quando as necessidades não eram resolvidas após as reuniões familiares, o aplicativo solicitava automaticamente consultas de cuidados paliativos.
Exemplo: Para um paciente cuja dor era um problema persistente, o aplicativo coordenava uma consulta com os especialistas para ajustar planos de manejo da dor, como alterações na medicação ou introdução de terapias complementares.
Ainda, no aplicativo, são utilizados alguns instrumentos de medida essenciais para identificação da introdução e melhoria dos cuidados ao paciente paliativo:
- NEST (Needs at End-of-Life Screening Tool): Uma escala de 13 itens que pontua necessidades de cuidado em categorias como sintomas físicos, suporte psicológico e espiritual, e aspectos éticos do cuidado.
- PHQ-9 (Patient Health Questionnaire-9): Medida com 9 itens usada para avaliar a gravidade dos sintomas depressivos do paciente, com escores variando de 0 a 27. GAD-7 (Generalized Anxiety Disorder-7): Este instrumento mede os níveis de ansiedade usando sete itens, com uma faixa de 0 a 21.
- PTSS (Posttraumatic Stress Symptoms Inventory): Avalia sintomas de estresse pós-traumático, variando de 10 a 70 pontos.
- PPPC (Patient-Perceived Patient-Centeredness Scale): Mede a percepção do paciente sobre o quão centrado no paciente é o cuidado recebido, variando de 12 (melhor) a 48 (pior).
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Resultados do Estudo: Intervenção em Cuidados Paliativos Facilitada por Aplicativo
Os resultados indicaram que, embora a intervenção por aplicativo não tenha reduzido significativamente as necessidades não atendidas, houve uma melhora na comunicação e na frequência de interação entre médicos e famílias.
- Consultas em Cuidados Paliativos: 38,2% dos pacientes do grupo de intervenção receberam consultas de cuidados paliativos, comparado a apenas 4,0% no grupo de controle.
- Reuniões Familiares: 87,0% dos pacientes do grupo de intervenção participaram de reuniões familiares em contraste com os 64,0% do grupo de controle (P = 0,001).
Em UTIs, a complexidade do estado clínico dos pacientes, frequentemente caracterizada por falhas em múltiplos órgãos e condições coexistentes, exige constantes ajustes nos planos de cuidados. O diagnóstico precoce e o tratamento efetivo dos sintomas físicos e emocionais são complicados pelo ambiente intenso e pela necessidade de coordenação entre equipes multidisciplinares. Cada caso requer uma análise minuciosa e contínua.
O estudo destacou que a tecnologia móvel pode melhorar a organização e a execução de cuidados paliativos, facilitando a comunicação eficaz entre os profissionais de saúde e as famílias. Estas interações mais frequentes podem acelerar a identificação de necessidades não atendidas, já que a colaboração entre as partes torna-se crucial para melhorar a assistência ao paciente. Apesar da conclusão não ter demonstrado diferenças significativas entre os cuidados, a melhora da comunicação e uma nova maneira de abordagem dos cuidados paliativos podem fazer a diferença na entrega ao paciente.
Mensagens para levar para Casa
- Adoção de Tecnologia: Aplicativos móveis como o PCplanner têm potencial para transformar a coordenação de cuidados na UTI, facilitando interação mais frequente entre profissionais e familiares.
- Desafios Persistentes: Apesar de melhorias na comunicação, a integração completa dos cuidados exigidos pela intervenção tecnológica não produziu uma redução significativa nas necessidades não atendidas.
- Foco em Longo Prazo: O desenvolvimento de intervenções futuras deve considerar a extensão para além do ambiente da UTI, provavelmente ampliando o cuidado para contextos domiciliares ou de reabilitação, a fim de demonstrar melhores resultados a longo prazo do uso das tecnologias que facilitam a interação entre a família e equipe assistente.
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