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Saúde25 fevereiro 2026

Nipah, gripe K e aviária: por que entraram no radar da infectologia em 2026

Alta transmissibilidade, potencial de letalidade e mudanças ambientais colocam novas ameaças infecciosas no centro da vigilância médica global.

Depois de uma pandemia que reconfigurou a vigilância sanitária global, a infectologia entra em 2026 com atenção redobrada a agentes que combinam dois fatores críticos: facilidade de disseminação e potencial de gravidade. Vírus como o Nipah, novas variantes de influenza – entre elas a chamada gripe K – e a gripe aviária passaram a ocupar espaço constante nos alertas de organismos internacionais e nas discussões entre especialistas. Mas o que, de fato, preocupa os infectologistas hoje?

Para a infectologista Dra. Isabel Melo, o critério que coloca determinadas doenças no radar não é novidade, mas segue atual. “Os agentes que mais suscitam atenção são aqueles com alta capacidade de transmissão e/ou associados a elevada letalidade”, explica. Nesse contexto, os vírus respiratórios ocupam posição central, tanto pela facilidade de transmissão quanto pela capacidade de rápida disseminação entre territórios.

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A influenza é um exemplo clássico. O vírus sofre mutações frequentes e circula entre diferentes espécies animais, o que favorece o surgimento de novas variantes com comportamentos imprevisíveis. “Essas mudanças podem alterar tanto a transmissibilidade quanto a virulência”, afirma Isabel. Por isso, novas cepas, como a gripe K, entram rapidamente no campo de vigilância, mesmo antes de causarem grandes surtos.

Alta letalidade também acende o alerta

Se os vírus respiratórios preocupam pela disseminação, outros agentes chamam atenção pela gravidade. É o caso do vírus Nipah, além de patógenos como Ebola e Marburg. Embora esses vírus não tenham ultrapassado, até hoje, determinados limites geográficos, eles estão associados a altas taxas de letalidade e contam com opções terapêuticas inexistentes ou extremamente restritas.

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“Mesmo surtos localizados exigem monitoramento internacional rigoroso”, destaca a infectologista. O objetivo não é apenas oferecer assistência às populações afetadas, mas antecipar riscos de expansão para outras regiões. Em um mundo altamente conectado, uma doença que hoje parece distante pode ganhar relevância global em pouco tempo.

Risco real ou ameaça teórica?

A exposição midiática dessas doenças nem sempre corresponde ao risco concreto para todos os países. Diferenciar ameaça real de risco potencial exige análise técnica. Segundo Isabel, a forma de transmissão é um dos principais critérios. Doenças que dependem de vetores tendem a permanecer restritas às áreas onde esses vetores existem. Já aquelas transmitidas de pessoa para pessoa têm maior capacidade de cruzar fronteiras.

Outro fator decisivo é a imunidade da população. “Quanto maior o número de pessoas suscetíveis, maior o potencial de disseminação”, explica. Esse cenário é particularmente preocupante quando um agente chega a regiões onde não circulava anteriormente, encontrando populações sem qualquer imunidade prévia.

Clima, mobilidade e produção de alimentos

As chamadas emergências sanitárias não surgem isoladamente. Mudanças climáticas, desmatamento, urbanização acelerada e circulação global de pessoas e mercadorias alteram profundamente a relação entre seres humanos, animais e meio ambiente.

O avanço sobre áreas naturais aumenta o contato com animais silvestres, como morcegos e primatas, conhecidos reservatórios de diversos vírus. Já as mudanças climáticas favorecem a proliferação de vetores, ampliando o alcance de doenças transmitidas por insetos. “A urbanização sem planejamento cria ambientes de aglomeração que facilitam a transmissão de doenças respiratórias”, observa Isabel. A soma desses fatores cria um terreno fértil para o surgimento ou reemergência de agentes infecciosos.

Estamos mais preparados?

A pandemia de covid-19 deixou lições importantes. Houve avanços significativos na vigilância epidemiológica e no compartilhamento de informações entre países. “Hoje, o monitoramento de doenças com potencial pandêmico ocorre de forma muito mais integrada”, avalia a infectologista.

No entanto, persistem fragilidades relevantes. No Brasil, a distribuição desigual de recursos diagnósticos e hospitalares ainda compromete a resposta em determinadas regiões. Em escala global, as disparidades entre países são ainda mais evidentes. “Doenças com potencial pandêmico exigem respostas coordenadas, e a desigualdade compromete esse controle”, alerta.

Outro desafio é a comunicação. Conflitos entre orientações de diferentes autoridades podem gerar insegurança e dificultar a adesão da população às medidas recomendadas.

O que muda para o médico da linha de frente

Mesmo para profissionais que não atuam diretamente na infectologia, a prática clínica mudou. Isabel destaca que o aumento de casos com sintomas semelhantes ou a existência de vínculos epidemiológicos claros, como pessoas da mesma família ou região, deve sempre acender um alerta. A investigação de histórico de viagens e contatos também se tornou parte fundamental da anamnese.

“Hoje, o acesso rápido a informações sobre surtos e circulação de agentes facilita a suspeição precoce”, afirma. Além disso, a ampliação das notificações eletrônicas tornou o processo mais ágil e acessível para os profissionais de saúde.

Comunicar sem gerar pânico

Em um cenário marcado pela desinformação, comunicar riscos tornou-se um desafio central. Para Isabel, o equilíbrio passa por informar com clareza, contextualizar o risco real e orientar sobre medidas preventivas, sem alarmismo. “As pessoas têm riscos diferentes, dependendo de condições clínicas e exposições específicas”, explica.

Leia ainda: Conheça as hard e soft skills essenciais para o médico infectologista

Nesse contexto, o papel do profissional de saúde vai além do consultório. Combater informações falsas, orientar pacientes e usar as redes sociais de forma responsável são hoje parte da responsabilidade médica. “Informação correta salva tempo, recursos e vidas”, resume.

Em 2026, o alerta permanece ligado. Mais do que prever a próxima grande epidemia, a infectologia trabalha para reconhecer sinais precoces, fortalecer sistemas de vigilância e garantir que ciência, comunicação e responsabilidade caminhem juntas.

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Autoria

Foto de Roberta Santiago

Roberta Santiago

Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.

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