O Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), fechou temporariamente a unidade de terapia intensiva (UTI) adulta após sete pacientes apresentarem infecção pela superbactéria KPC, um microrganismo conhecido por apresentar alta resistência a antibióticos. A medida foi adotada para conter a disseminação da bactéria dentro do hospital. Quando um caso é identificado, equipes de controle de infecção costumam isolar pacientes e realizar uma desinfecção rigorosa do ambiente.
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O que é a bactéria KPC?
Segundo a Dra. Isabel Melo, médica infectologista e editora do Portal Afya, a Klebsiella pneumoniae é uma espécie de bactéria, que pode ser causa de infecções em humanos. Já KPC é o nome da enzima produzida por algumas bactérias que confere resistência antimicrobiana. “Uma Klebsiella pneumoniae pode ser uma KPC, mas outras bactérias também podem produzir essa enzima”, explica a especialista.
“Bactérias classificadas como KPC são caracterizadas por seu perfil de resistência antimicrobiana, frequentemente sendo resistentes a uma grande variedade de antibióticos.”, destaca Isabel. Por conta disso, as opções de tratamento de infecções causadas por bactérias que produzem a enzima KPC são mais limitadas o que as fazem serem consideradas “superbactérias“.
Quais são as infecções associadas?
A KPC, assim como outras bactérias hospitalares, pode causar diferentes tipos de infecção, dependendo da região do corpo atingida.
Entre os quadros mais comuns estão pneumonia, infecção urinária, meningite e infecções na corrente sanguínea, que podem evoluir para sepse. Na maioria das vezes, os casos ocorrem em pacientes que já estão hospitalizados e apresentam condições clínicas mais delicadas.
Por que os casos de superbactéria são mais frequentes em hospitais?
A maior parte das infecções por KPC ocorre dentro de hospitais. Isso acontece porque o uso de antibióticos nas unidades de saúde é muito mais frequente.
Outro fator importante é que muitos pacientes já apresentam imunidade reduzida ou histórico recente de uso de antibióticos, o que favorece o surgimento e a disseminação de bactérias resistentes.
Como ocorre a transmissão?
A transmissão da bactéria acontece principalmente por contato com secreções corporais ou com superfícies contaminadas.
Entre as possíveis vias de disseminação estão secreções respiratórias, sangue, fezes e urina, além de objetos e equipamentos hospitalares que não tenham sido devidamente desinfetados.
Medidas adotadas para conter a superbactéria
Assim como no hospital em Campinas, quando um caso é confirmado, as unidades de saúde precisam seguir medidas rigorosas para conter possíveis surtos da bactéria.
Essas medidas incluem o isolamento do paciente infectado, a designação de equipes exclusivas para o atendimento, a desinfecção intensiva de quartos e equipamentos e o acompanhamento de outros pacientes que possam ter tido contato com o infectado.
Em situações em que vários casos são identificados, pode ser necessário interromper temporariamente o funcionamento de setores inteiros, como UTIs, para controlar a circulação do microrganismo.
Como evitar surtos?
Segundo a Dra. Isabel Melo, o uso racional de antimicrobianos é um dos pilares para o controle da disseminação da resistência bacteriana. O médico deve observar se há indicação de uso de antibióticos, utilizar o menor espectro que seja adequado para a infecção a ser tratada, com posologia correta e pelo menor tempo necessário.
“O uso razoável de antibióticos por parte dos prescritores — com atenção a fatores como indicação, posologia, espectro de ação e tempo de tratamento — para evitar exposição desnecessária, excessiva ou em dose menor do que a indicada é primordial para evitar o desenvolvimento de surtos por esses agentes”, afirma.
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Resistência antimicrobiana
Não há um único fator que explique o surgimento de bactérias multirresistentes. Entretanto, práticas como automedicação, interrupção precoce de tratamentos e utilização desnecessária de antibióticos contribuem para acelerar o processo de resistência bacteriana.
“Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e disseminação da resistência a antibióticos: uso inadequado e excessivo de antibióticos, descarte inadequado de medicamentos no ambiente, uso de antibióticos na pecuária”, exemplificou a infectologista. “Além disso, a capacidade de desenvolvimento de novos antimicrobianos é muito mais lenta do que o surgimento de mecanismos de resistência bacteriana, o que contribui para sua disseminação e dificuldade de controle.”
O avanço da resistência antimicrobiana é considerado um dos principais desafios da medicina atualmente, já que o desenvolvimento de novos antibióticos não ocorre na mesma velocidade com que surgem bactérias capazes de resistir aos tratamentos disponíveis.
*Este artigo foi revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria
Gabriela Costa
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